#0041 Quando a qualidade supera a quantidade?

A crônica de hoje é um pouco diferente, ela é uma reflexão sobre o ato de escrever crônicas e como isso pode nos conectar.

Não sei se você já ouviu falar da teoria de que seriam necessárias dez mil horas para se tornar expert em determinada habilidade. Essa ideia ficou muito famosa quando o autor Malcolm Gladwell publicou o livro “Fora de série – Outliers: Descubra por que algumas pessoas têm sucesso e outras não”. Neste livro, ele aborda alguns casos de sucesso, tentando responder às perguntas: por que existem pessoas que se tornam excepcionais em algo e outras não?

O livro foi publicado em 2008 e entrou no imaginário popular ao trazer um número mágico: seriam necessárias dez mil horas de dedicação a uma determinada habilidade para se tornar excepcional. Um de seus casos de estudo é o próprio Bill Gates, que, quando teve a oportunidade de fechar um contrato milionário com a gigante IBM, já teria acumulado dez mil horas de estudo em programação. Algo que fica de fora é o fato de que Bill Gates possuía contatos que qualquer outra pessoa naquela posição provavelmente não teria, o que foi fundamental para concretizar a venda.

De toda a forma, o autor não explica como seriam essas práticas; parece que, ao fazer dez mil horas de algo, você simplesmente se torna um gênio naquilo. Mas será verdade? Quantas horas você dirigiu? Será que você se tornou uma pilota?

Outro autor interessante para entendermos, de fato, a expertise em determinado assunto é Anders Ericsson. Ele foi o psicólogo responsável pelos estudos originais citados no livro de Gladwell e, ao lermos sua obra “Direto ao Ponto: Os Segredos da Nova Ciência da Expertise”, percebemos que ele relata seu estudo e como ele foi usado parcialmente para justificar a teoria das dez mil horas.

Não é necessário você acumular dez mil horas, ao mesmo tempo que são exigidas muito mais horas para outras habilidades. Ele nos fala sobre a prática deliberada, que é uma prática na qual você necessita de feedback; não adianta nada você começar a fazer algo se você não errar e aprender com os seus erros, pois é assim que se evolui.

Ele também cita que, para essa prática ser efetiva, é preciso sair da sua zona de conforto, crescer e sentir dor. Pense na musculação, você pode começar a treinar, mas isso não significa que se tornará um fisiculturista. No entanto, é possível aprimorar sua prática de treino, o que pode causar desconforto — não uma lesão, mas dor. Se você tiver um treinador que o corrija, aprenderá e se tornará cada vez melhor. Por outro lado, se você apenas treina sem prestar atenção ou se desafiar, não evolui nem aprimora sua prática, e isso não contribui para seus aprendizados.

São quatro pilares definidos por ele: sair da zona de conforto, possuir metas claras e objetivas, foco total na atividade, feedback imediato e construtivo. É tudo que um treinador forneceria, então, para ele, é fundamental que tenhamos professores que nos treinem para que possamos desenvolver a nossa prática.

Será que isso vale para as artes? É ingênuo pensar que os artistas não leem críticas, não submetem sua arte para receber um feedback de alguém de confiança. A arte também exige prática deliberada, é claro; nada é 100%. Mas, quando analisamos a biografia de grandes artistas, vemos pontos em comum. Embora nada disso seja garantia de sucesso, digamos assim.

Isso é algo importante sobre o qual tenho refletido, além, é claro, de a vida ter me dado minhas primeiras leitoras e leitores: Kamylla, minha esposa, Evelyn, Letícia, Kamilla, Décio e Ateam. É uma honra saber que vocês leem meus textos. Esse é o primeiro passo de um grande sonho: construir, texto por texto, uma obra literária.

E esse ousado sonho, num mundo capitalista, exige muito: exige também cautela, exige longo prazo. Você não melhora seus textos do nada; é preciso estudo, dedicação, constância. Mas eu preciso não me lesionar: não adianta escrever muito e ficar anos sem tocar nas palavras. Portanto, necessito ser humilde e perceber que é impossível manter a frequência de duas vezes por semana, na qualidade que desejo. Pensei também em meus queridos leitores: às vezes, menos é muito mais.

Nos vemos sempre aos sábados, às 10h14.

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