Autor: Gustavo Aranha

  • #0051 Passar num concurso pode ser a pior coisa que irá te acontecer

    “Hoje sou funcionário público e este não é meu desconsolo maior.” Murilo Rubião

    Comecei citando Murilo Rubião em seu conto: “O ex-mágico da Taberna Minhota”, o protagonista é um mágico, vivendo nos anos 1930; ele simplesmente não sabe como veio parar no mundo “Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude”, é do gênero do realismo fantástico. Funciona assim, existe magia, mas não há explicação para ela, não é como no Harry Potter, em que há magia, varinhas e bruxos, e também não existe todo um sistema de magia completo e cheio de camadas, não, não é isso. É como se a magia fosse integrada ao mundo, você não estranha que existem gatos, eles simplesmente existem. Dessa maneira, o nosso mágico é inserido no conto, não temos muitas explicações sobre sua existência, o seu passado, ele simplesmente existe e um belo dia se dá conta que é mágico.

    Ele existe na taberna minhota. Até um dia que ele simplesmente retira do bolso o próprio dono do restaurante da taberna, sim ele retira do bolso o dono do restaurante da taverna! E claro, faz o próprio dono ficar perplexo com a sua existência repentina, e ele questiona nosso protagonista, que responde: “O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para a sua presença no mundo?” Disse-lhe que estava cansado. Nascera entediado e cansado.”

    O nosso mágico passou a trabalhar na taberna, mas seu emprego não durou muito, pois costumava retirar diversos almoços grátis do bolso e dava aos clientes; claro que isso não agradou o dono do restaurante. Que arrumou uma recolocação profissional para ele no circo. No circo o mágico fez sucesso, aumentou os lucros do patrão. Mas a vida do nosso mágico começou a se tornar insuportável: “Às vezes, sentado em algum café, a olhar sistematicamente o povo desfilando na calçada, arrancava no bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencionalmente o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.”

    E isso vai se intensificando, até que um dia, muito irritado, ele mutila as mãos para não fazer mais mágica. Claro que não adianta e suas mãos nascem outra vez. Nosso protagonista tenta de todas as formas colocar fim em sua própria vida, até que um dia: “Ouvira de um homem triste que ser funcionário público seria suicidar-se aos poucos.” Então ele que se encontrava desesperado para pôr fim a sua vida, avalia que de toda a forma não faria diferença ser rápido ou devagar, então ele se emprega na Secretaria de Estado. O conto se passa em 1930, era anterior aos concursos públicos, mas claro, já existiam as repartições públicas e o ofício de servir.

    E o ano de 1930 se passa e nosso mágico não morre, mas sente que foi o pior ano de sua vida, agora lidava com a aflição dos homens. E isso o torturava, pois não tinha lembranças e precisava encarar aquela dor, de lidar com os outros humanos. Em 1931 é o pior, ele se apaixona por uma outra funcionária, em meio ao anúncio do governo sobre uma grande demissão, o medo correu solto na repartição. Ele também ficou com medo. Não por ter algum apego ao emprego, não; ele temia não ver mais a colega por quem era apaixonado. Tentou uma mágica. Foi até o supervisor e disse que já tinha dez anos de trabalho e por isso não poderia ser demitido. O supervisor responde: “Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, com a ousadia de afirmar que tinha dez.” Ele tenta procurar em seus bolsos um papel que provasse que ele tinha dez anos, mas nada encontra, vencido: “Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.” O conto termina assim, com nosso protagonista funcionário público, sem passado, sem mágica e sem futuro.

    Algo que me marcou muito em relação ao conto é como a burocracia afeta o nosso protagonista. Não há nada como a burocracia. Nada nos mata mais lentamente do que sermos vítimas da burocracia.

    Eu nunca imaginei que um dia seria funcionário público, e ainda por cima, bancário! Mas a vida acontece até mesmo quando você trabalha para comprar alimentos para seu corpo sobreviver. A maioria dos colegas que conheço também não teve esse “sonho” de ser bancário. Todos eles viram uma oportunidade e empregaram horas e mais horas de estudos na cadeira até conseguir a tão sonhada aprovação num concurso público. É como se hoje o nosso emprego fosse o plano b para uma vida.

    Igual ao protagonista do conto, necessitamos encontrar em nosso ofício alguma paixão que imprima um sentido para trabalhar, pois não se engane, depois de satisfazer as nossas necessidades básicas, o que vem é a depressão. Parafraseando Clarice Lispector, digo que a nossa paixão se transforma em uma terceira perna, alguns de nós se perde em dívidas e mais dívidas tentando preencher o buraco do peito de uma existência burocrática e sem graça em casas de luxos, viagens, carros, numa busca incessante por mais e mais sem nunca conseguir chegar próximo da sua real satisfação que talvez seria não ter nada daquilo. É como se cada dia naquele lugar ela crescesse, não nos permitindo sair; ela nos segura, nos deixa estáveis, mas nos impede de voar. Ela se alimenta do nosso tempo, ou seja, de nossa própria vida, e nos exige uma quantidade tão absurda de força que não temos energia para mais nada, além de fazer empréstimos e comprar. Comprar não nos exige nada, nos alegra, e fortalece ainda mais a nossa terceira perna.

    E assim já são 12 anos e 8 meses e 1 dia convivendo com ela, a terceira perna. Nesse período vi de tudo, desde feedback de superiores dizendo que eu não poderia ser promovido, pois eu não bebia com eles, até mesmo os que faleceram meses antes da tão sonhada aposentadoria. E os outros planos? E os outros sonhos? E conhecer o mundo? E não ser responsável, não ser cúmplice desse sistema tão injusto? E… Afinal, quem é mesmo que sonha ser bancário?

    Eu sei que parece tudo muito ruim, mas é óbvio que não é assim. A nossa terceira perna é também a nossa melhor aliada. Nós percebemos o seu valor quando forças políticas intervêm no andamento dos processos. Nós somos seres humanos, e como qualquer um teremos uma variação na produtividade, há dias e dias, fases e fases. O sonho do capitalista ainda não se concretizou, ainda somos humanos, e eles ainda não tem robôs autônomos para tudo produzir e nos eliminar. Quando chegam gestores que querem robôs que sempre produzem a mesma quantidade, e façam tudo do mesmo jeito, e que as mulheres não engravidem, e ninguém tenha vida fora do trabalho, e assim, claro, nos assediam ao extremo. Quando essa espécie de ser humano, que mesmo que tenha passado no mesmo concurso, mas não se vê como igual, e que não reconhece a sorte que teve por ocupar o cargo que ocupa, quando ele tenta nos tirar de onde estamos, quem é que nos segura é nossa terceira perna. Por mais que queiram nos expulsar, cada um de nós segura nas mãos uns dos outros e como uma bela resistência, seguramos a onda e continuamos servindo a população. Lutando em conjunto que a minha categoria conseguiu o direito de trabalhar 6 horas e se tornar bancária, em 1985 na maior greve dos bancários da história.

    Quando você é funcionário público você se torna o próprio Estado. Aliás, indico a leitura do conto “O Espelho” do Machado de Assis, que retrata de maneira genial, como nós não conseguimos separar o homem do ofício. E sendo o Estado, elas não esperam que você seja humano, tenha cansaço, falhe. Não, elas descontam toda a frustração que elas têm com o Estado em você, e isso não é fácil, sem a terceira perna seria impossível resistir. Mas você também sendo o Estado, você consegue ajustar e girar as engrenagens do sistema para fazer o direito se encontrar com as pessoas. Queríamos que todos pudessem ter uma postura assim, mas um concurso público é uma prova que envolve muita sorte e nem sempre, seleciona as pessoas com as competências adequadas para o cargo.

    Na data que escrevo isso, podemos dizer que os concursandos estão se tornando, se já não se tornaram, profissionais. Eles estudam de trás para frente o edital, dominam muita coisa, e claro, quanto mais uma pessoa estuda, maiores são suas chances de se tornar agraciada pela sorte. Neste ponto, um detalhe, uma questão, um dia mais inspirado, uma lembrança, tudo isso será determinante para a aprovação ou não em um concurso público. Então neste sentido, cada órgão escolhe os seus guerreiros que estão aptos para as batalhas que ocorrerão daquele período em diante.

    Embora também seja verdade que uma parte significativa do exército não esteja preparada, de maneira alguma, para o ofício. A terceira perna também mata. Ela limita quem nasceu para correr.

    Comigo não é diferente. Existiu um momento em que o meu maior sonho era amputar a minha perna, e isso é um pensamento, que me invade uma vez ou outra. Nunca vou me esquecer daquela semana, vivíamos o auge da pandemia, milhares de mortos e as vacinas ainda não tinham chegado. No sistema em que vivemos, o funcionamento dos bancos é considerado um serviço essencial, pois é, sem o sistema financeiro, não existe capitalismo. Bem, graças a Deus eu não adoecia, mesmo trabalhando todos os dias no banco, enquanto minha esposa, também servidora, mas em outro serviço essencial, trabalhava num hospital. Nosso corpo sobrevivia, apesar de não fazermos atividade física, na época, não tínhamos doença, embora não fôssemos saudáveis. E minha terceira perna dava sinais, havia um tempo que ela mostrava que precisava de atenção. Até que um dia ela começou a doer tanto que mal conseguia respirar.

    Neste dia, felizmente, poucas pessoas precisaram do banco, e pedi para o meu chefe me liberar para que eu pudesse ir ao hospital, eu estava com medo de ter adoecido, estávamos no auge da COVID. Graças a Deus naquele dia não havia clientes e eu finalmente pude cuidar da minha terceira perna.

    Escolhi um hospital aleatório da Rede DOR, que no ano de 2024 fechou o ano contábil com um faturamento de 14,1 bilhões, isso mesmo, bilhões de reais. Estacionei meu carro, peguei a senha e aguardei. Tudo normal durante a triagem. Aguardei para ser atendido pela equipe médica. Quando fui atendido, era um homem, que, como rotineiro não olha em seus olhos, pergunta as perguntas padrões como um robô, e no final, me disse que não sabia o que eu tinha, mas para que eu ficasse tranquilo, que não era COVID, e me encaminhou para o laboratório para que eu pudesse fazer os exames. Você ficaria tranquilo? Eu relaxei, mas logo a terceira perna voltou a doer. Avisei minha esposa que começou a ficar preocupada, mas disse que não deveria ser nada…

    Isso me lembra um caso recente, um colega, acordou passando mal, não quis acordar a esposa, pegou o carro, foi ao hospital, quando chegou lá, faleceu. A esposa acordou atordoada sem saber do esposo. Deve ser horrível. Então, deixo a dica: sempre avisem uns aos outros antes de irem a um hospital.

    Os exames saíram e o médico me chamou, a esta altura o plantão já havia sido trocado e já era um outro médico. Este outro, não me deixa esquecer de seus olhos cansados, como quem não dormia noites e mais noites, e que só desejava terminar o seu turno e ir para sua casa ao encontro de seus familiares. Mas então, se limitou a dizer, sem me olhar nos olhos:

    “Não sei o que você tem, mas vou te internar na UTI para investigarmos.”

    Na UTI a única sensação possível era uma gratidão por não ter que voltar ao trabalho. A terceira perna parou de doer, ela finalmente poderia descansar um pouco. Mas é claro que eu não poderia imaginar o que de fato era uma UTI.

    Quando eu cheguei, tomei o meu primeiro susto: eu não poderia ficar com o celular. Eu precisava ser internado numa UTI e não poderia ficar com o meu próprio celular! Aguardei então minha esposa para pegar os meus pertences, nosso carro, minhas roupas, e me deixar algumas cuecas. Depois nos despedimos e eu entrei para uma das que seriam uma das piores noites da minha vida. O leito ficava no final do corredor, me acompanharam, vieram os técnicos de enfermagem, furaram meus braços, colocaram soro, e a cada 2 horas retornavam para fazer mais furos e recolher exames.

    Ser humano é algo peculiar, quando nos lembramos, não estamos lembrando de fato do que aconteceu. Seria incrível se armazenássemos os acontecimentos como os computadores armazenam fotos, mas a realidade não poderia ser mais distante disso, nós revivemos aqueles momentos todas as vezes que nos lembramos. E quando isso acontece, ressignificamos os eventos conforme as nossas crenças atuais, afinal, nenhum ser humano é o mesmo durante a sua vida. Então, quando eu me sento e escrevo sobre aqueles dias de agonia, não sou mais o Gustavo com seus 27 anos, sou o eu de hoje, com todas as novas ideias e personalidade de quem eu sou. E olhando para traz consigo hoje entender porque fui para uma UTI com um custo em média de 4 mil reais por dia, simplesmente para tomar soro. Na época achei um exagero, mas hoje, penso que se eu fosse médico, numa mesma situação, internaria, na dúvida você assume o protocolo mais completo para tentar salvar a vida de um paciente. E se estou vivo, talvez foi por conta dessa atuação.

    Claro que no primeiro dia não era possível que eu soubesse que o tratamento para o que tinha era simplesmente repouso e soro. Eu apenas aceitei, e fiquei naquela UTI. Algumas semanas depois eu recebi um diagnóstico preciso: burnout seguido de depressão severa. Mas naquele dia eu não sabia que tinha tido uma crise de pânico causada pelo ganha pão de cada dia. E sem dúvida, ficar sozinho sem poder conversar com a minha esposa só agravou a minha situação.

    Eu não dormi. É quase impossível dormir em uma UTI, a cada duas horas são diversos exames, furos, dor, luz. Tenho medo de agulhas, tenho insônia, tenho apneia, então aquilo era horrível para mim num grau que não consigo descrever. No dia seguinte implorei para a psicóloga para liberar o meu celular, mas claro, não foi sozinho, foi com a ajuda da minha esposa, que pedimos e então a psicóloga liberou o celular. Melhorou, mas lembram, era a época da COVID, a cada dia milhares de pessoas morriam. Eu pensava que meu caso era grave, no Brasil faltavam UTI para as pessoas, e eu estava lá, ocupando um leito, então eu deveria estar morrendo, era isso que se passava em minha cabeça. E via diversas pessoas, vizinhas de leitos, tendo seus corpos sem alma, mortos, recolhidos.

    Passaram então um, dois, três, quatro, cinco dias e nada! Os níveis da enzima que estava alterada começaram a diminuir, mas ainda em um ritmo muito lento. E eu continuava na UTI tomando soro. Sim, estava internado numa UTI para tomar soro e ficar repousando. Pesquisei então os direitos dos pacientes, e vi que o Hospital não poderia me segurar caso eu optasse por sair, é algo chamado evasão do hospital, então o paciente assume as consequências por seus atos, assina uma série de papéis e pode ir embora. Espero que você entenda que eu estava com um quadro depressivo, e estar internado numa UTI era quase impossível para mim, eu não estava aguentando mais. Realmente tinha chegado ao meu limite, pois eu não sentia nada, além dos problemas na minha cabeça. Finalmente livre do hospital, procurei médicos especialistas que me explicaram que tudo o que tinha acontecido foi porque eu fui para academia e não estava acostumado, pode rir, eu sei, é engraçado. Deixa eu explicar melhor: quando você começa a atividade de musculação, seu corpo acaba sofrendo pequenas lesões para poder se reconstruir mais forte. Mas imagine que seus músculos são como balões cheios de uma substância espessa. No meu afã de mudar de vida, eu não fiz apenas pequenos furos nesses balões para estimulá-los, o esforço foi tão bruto que eu os fiz estourar. E não foi nada de tão excepcional, era simplesmente porque eu era completamente sedentário e iniciava a musculação. Então, todo aquele conteúdo interno vazou massivamente para o meu sangue e foi direto para os meus rins, que funcionam basicamente como um filtro de café. Como essa “sujeira” (a mioglobina) era pesada e pegajosa demais, ela poderia entupir o filtro. O nome técnico é Rabdomiólise. Graças a Deus eu não tive isso, mas eles me internaram preventivamente. A tal enzima alterada que os médicos monitoravam não era o veneno em si, mas o sinal de fumaça avisando que meus rins estavam prestes a pifar por estarem entupidos. Por isso a internação na UTI e os litros intermináveis de soro: eu não precisava de remédio, eu precisava de uma lavagem de alta pressão, uma enxurrada de água para desentupir o sistema antes que ele parasse de vez. A ironia do destino é implacável: a “terceira perna” da burocracia tentou matar a minha alma lentamente, mas foi a minha tentativa desastrosa e repentina de ficar saudável que quase levou meu corpo.

    Já sabe o ditado: “há males que vem para o bem.” Comigo foi assim, fiz desse acontecimento o gatilho para finalmente cuidar de mim. Quando viajamos de avião os comissários falam sempre o óbvio: você primeiro coloca a sua máscara de oxigênio para então tentar ajudar o próximo. E cuidar do outro é o sentido do serviço público.

    Mas se servir a população fosse apenas desgraça, eu já poderia ter terminado o texto por aqui. Mas não, para mim servir o público é uma missão. Você precisa desejar, superar obstáculos para a construção de um país melhor. Como já tratei em outras crônicas, não é o meu objetivo ter respostas superficiais e provavelmente incompletas com a solução para todos os problemas do mundo, longe disso, sou apenas um trabalhador escritor tentando compartilhar uma vida melhor. Mas claro, tentarei colocar um pouco de luz em um tema tão obscuro como o serviço público.

    Eu vejo o mundo como ele é, um mundo em que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e que boa parte da população deseja passar num concurso público, que é ao mesmo tempo uma possibilidade real, democrática, pois qualquer um pode passar, e é uma das únicas formas de ascensão social, mas é também o desejo de “não fazer nada”, infelizmente também impregnado em nossa cultura. Em contraste a uma iniciativa privada que não libera uma mulher nem para fazer um parto em paz https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/06/03/mesmo-apos-aborto-bancaria-e-proibida-de-deixar-trabalho-em-agencia-no-to.htm, no serviço público há um mínimo de dignidade a pessoa humana. Todavia, enquanto na iniciativa privada há materiais disponíveis, no sentido de existir um lugar físico com conforto material para se trabalhar, no serviço público cenas como essa são constantes: https://www.instagram.com/reel/DRe3rKbDs4g/. Se acontece isso com os tetos? O que falar da ausência de cadeiras? Papéis? Grampeadores? Ares condicionados? Isso que nem vou falar da saúde, dos equipamentos quebrados que demoram décadas para serem arrumados. Então se você espera passar num concurso público para ter a glória, sinto muito em te dizer que não vai acontecer, e você também, não ficará rico. Claro que também é preciso deixar claro que falo de concursos da maioria dos serviços públicos, aqui não entra o alto escalão, ou seja, o legislativo e as áreas fiscais. Portanto, se você não escolher o seu cargo e não se identificar com a sua atividade fim, será o seu fim. O pior é que o concurso, se você não fizer um bom trabalho, você não vai ser demitido, não, a terceira perna protege você, embora, se você for um ser humano normal, não se dedicar, não imprimir o seu melhor no trabalho, vai simplesmente te matar.

    E sejamos sinceros, é muito difícil passar num concurso público, seja ele qual for. Mas superando esse desafio inicial, você realiza esse sonho e toma posse no seu cargo público. Acontece o que acontece com tantos outros! Você pouco a pouco começa a deixar de ser o que você foi um dia e se transforma finalmente em sua profissão.

    Já reparou que quando conhecemos alguém, o adjetivo que escolhemos para saber mais sobre aquela pessoa é sua profissão? Não é Maria que gosta de ler livros, é Maria, bancária. E seja empregado público ou não, você não consegue fugir disso. Nós somos a nossa profissão, mas é claro que não somos apenas isso. Entender isso é libertador.

    Quando o que nós somos no trabalho entra em conflito com aquilo que somos em nossa vida fora do trabalho, sofremos. Não existem dois seres, o Gustavo do trabalho e o Gustavo da vida privada, é o mesmo ser que tem comportamentos diferentes nas mais variadas esferas da sociedade.

    Por isso eu digo que ser servidor público é uma missão. No entanto, você já ouviu da sua mãe, você não é todo mundo. Nos meus mais de doze anos de serviço público encontrei-me com aquelas pessoas que tinham um comportamento de “não fazer nada”, porque existe essa lenda urbana de que o servidor não faz nada. Esses servidores, não associam esse comportamento à corrupção, para eles corrupto é apenas aquele que desvia bilhões. E segundo vozes da minha cabeça, entre 20 e 30% dos servidores possuem esse comportamento, mas as motivações para o comportamento variam, alguns são realmente picaretas, outros adoeceram no processo e simplesmente não conseguem fazer diferente.

    Quando encontramos um sentido no serviço que prestamos ao público, tudo muda de figura. Como relatei, parei numa UTI quando me desconectei do sentido, pois não existem dois seres humanos, eu sou o Gustavo em todos os ambientes que vivo, e quando eu estava deslocado da minha missão, nada mais fazia sentido. E eu só reencontrei a missão quando minha esposa conseguiu tomar posse no concurso público.

    Ela é servidora do Estado. Ela é Assistente Social. Um assistente social é alguém que facilita o encontro da pessoa humana à sua dignidade, ou seja aos seus direitos. E claro, que com uma missão tão forte, e uma identificação junto a missão de sua pessoa pessoal, o resultado não poderia ser diferente de felicidade.

    Eu nunca vou me esquecer do dia que ela chegou em casa radiante, pois o grupo que ela tinha feito com pessoas em situação de rua tinha sido um sucesso! E olha, sucesso aqui não quer dizer que as pessoas saíram das ruas e começaram ter uma vida digna, infelizmente existem muito mais obstáculos, mas eu pessoalmente vi o sucesso, quando encontramos numa igreja, que tem uma ação social mais voltada a pessoas em situação de rua, um usuário da política, que reconheceu minha esposa, e nos disse que estava bem, estava morando no Hotel Social*, e que estava se articulando para alugar um barraquinho numa cidade. Mas, vi, em seus olhos, felicidade, brilho, gratidão.

    Não devemos romantizar o trabalho nem acreditar que nossos recursos pessoais e finitos existem para servir incondicionalmente ao Estado. Por outro lado, também não podemos subestimar o poder de nossas ações. A iniciativa dela em promover grupos de atendimento a pessoas em situação de rua conseguiu levar políticas públicas até quem mais precisa. Quando essa ação se soma a projetos como o Hotel Social que oferece uma noite de descanso, um banho e, acima de tudo, dignidade, os resultados são transformadores. Vidas são concretamente melhoradas. Não precisamos mudar o mundo inteiro; precisamos mudar o mundo de algumas pessoas.

    Hoje, o local onde ela trabalha tornou-se referência. Pessoas frequentemente invisibilizadas, seja pela falta de documentos, aparência, cor ou condições de higiene, e que sofrem toda violência que o Estado pode infligir a um indivíduo, passaram a confiar na instituição. Mesmo sem trabalhar exclusivamente no Hotel Social, posso dizer que ele se tornou uma ponte de apoio essencial para essas pessoas.

    Precisamos de servidores públicos como ela. Profissionais que vistam a camisa não do status, da exploração ou do lucro, mas do verdadeiro serviço público — servir a população com dedicação genuína. Sabemos que isso é apenas o começo, uma pequena parte do todo. Mas toda mudança rumo a um mundo melhor precisa começar de algum lugar. Quem sabe, tornando nosso serviço público uma referência, possamos transformar o Brasil em um lugar melhor para todos.

  • #0050 O que aprendi escrevendo os 50 primeiros textos desse canal

    #0050 O que aprendi escrevendo os 50 primeiros textos desse canal

    O primeiro texto que escrevi ano passado, foi um tema que vira e mexe me atravessa. Por que associamos liberdade com satisfação de prazeres sem levarmos em conta as consequências, por exemplo, beber uma cerveja é bom, não é? Neste primeiro texto, eu também fiz o compromisso de publicar no blog, e ressuscitei o meu blog, e após isso fiz a definição de escrita que muito me orgulho: “Ser escritor é ser alguém que escreve.”.
    A terceira crônica foi sobre uma reflexão de como a IA pode ser uma salvadora, ou mais nada. Na quarta crônica eu continuo a investigação, tentando entender como a IA vai nos afetar, como ela aprende, como nós aprendemos. Quais as diferenças que existem entre nós? Faço uma observação fundamental que o aprendizado para nós humanos é na base da dor.
    Será que transar com quem tem um relacionamento fechado é errado? Na quinta crônica, eu volto à ideia do prazer como fonte de sofrimento e não de felicidade.
    As crônicas de 6 a 12 são todas trabalhadas por minhas impressões sobre minha primeira viagem internacional, que foi tão marcante, que é um tema que volta a ser mencionado na crônica 47, agora já mais maduro, discorro sobre intenção e constância.
    “Por que eu sou alcoolista?”, é um texto que abro meu coração e a partir disso tento explicar porque o álcool destrói as pessoas, famílias, amizades e nós o tratamos como algo normal e banal. Foi o meu primeiro textão, e foi tão bom. Nesta altura, eu estava ainda tão acostumado com os textos do Instagram, que precisava fazer dez parágrafos, para cada parágrafo caber num slide do carrossel. Agora não. Eu era um escritor livre, eu poderia escrever quantas palavras eu quisesse escrever. E claro, já fiz, de maneira muito rebelde, 19 parágrafos! Ainda eram parágrafos curtos, mas nossa, como era bom não ter mais limites.
    Na crônica 14, mais uma reflexão sobre a IA, tentando entender quais os limites éticos de seu uso. Há um limite ético? Quais as consequências de não usarmos? As máquinas vão produzir tudo e ficaremos de boa? Explico minhas impressões com o caso concreto do iFood, e no seu uso no dia a dia. Sinto muito te informar, você pode até não usar uma inteligência artificial como cliente final, mas certamente ela está completamente impregnada no seu dia.
    Depois, penso num conceito que adapto a nossa realidade, quer dizer a nossa nova realidade. Como iremos existir nesse mundo? Um mundo repleto de IA? Só podemos nos tornar relevantes se aprofundarmos as nossas relações e atravessarmos todas as camadas de proteção das pessoas.
    Você certamente já se questionou porque o Brasil não decolou. Por que não dá certo? Nesta crônica eu discuto aquilo que você deve escutar com frequência, o Brasil é rico, mas sempre falta algo para decolarmos como nação. Discuto isso nesta crônica.
    Algo que me questiono há anos é sobre a vida. Existe um lugar que ao chegarmos tudo valeu a pena? Existe? Ou o caminho se faz caminhando? Discutimos isso nessa crônica e as implicações paradoxais que existem em um ou outro.
    O décimo oitavo texto faz uma breve análise sobre o fenômeno que dizem ser a 4° Revolução Industrial.
    Falando tanto de IA, e sobre o sentido da vida, eu não poderia deixar de trazer como a Literatura é uma arte tão fundamental, quando o ar que respiramos.
    E nós vamos conversando, e escrever é meu hobby, mas ele começou a se tornar um peso para mim. E como cada vez os sistemas culturais que vivemos nos espremem como laranjas para arrancar de nós até nossa alma.
    Confesso que no texto 21, fiz um resgate de um capítulo do meu livro: “Decifrando a leitura”, nele mostro como é feito o processo da leitura no nosso cérebro, e o quanto ela exige processamento de nós, não sendo algo tão fácil como é pregado por aí.
    No texto 22, a minha ficha finalmente caiu. É onde eu finalmente entendi que sou um cronista. Neste texto, discutimos o que é uma crônica e como ela é um dos gêneros que mais conseguiu se adaptar às novas tecnologias.
    Na crônica 23 sinto a necessidade de informar como o nosso sono impacta nossa vida. E mostro meu relato, o sofrimento que vive até conseguir ter um diagnóstico adequado e finalmente poder dormir.
    Depois, na crônica 24, eu venho com alguns insights sobre um tema do qual eu sou fascinado, que é como nós aprendemos. Aprender uns com os outros é algo que faz um destaque na nossa espécie e nos permite não necessitar inventar o mundo a cada existência.
    Se na crônica 24 falamos do corpo, na crônica 25 eu ouso desenvolver um guia falando como você deveria alimentar a sua alma.
    Certamente você já ouviu o ditado: “Em casa de ferreiro espeto é de pau.”, na crônica 24 eu mostro que na minha casa não é assim. Na minha casa, minha esposa é uma leitora. E mostro que para vermos alguma mudança no mundo, precisamos antes ser essa própria mudança.
    Na crônica 27 entramos em algo que eu julgo ser fundamental para a existência, que tem relação com nós aceitarmos a mortalidade. Aceitarmos que não somos seres infinitos e que é impossível viver todas as experiências que são vendidas. Não. Nós precisamos aceitar nossa limitação fundamental. Discutimos isso nessa crônica.
    Depois nós voltamos ao aprendizado, nesse texto faço um lembrete dos nossos processos cognitivos para desenvolver o aprendizado.
    Mas eu não conseguia ficar sem falar com IA, no texto 29 eu fiz uma comparação, outra vez, entre nossa inteligência e a super inteligência que supostamente é a IA, e aproveito para discutir o próprio conceito de inteligência, como nós a medimos e como nós ainda achamos justo que pessoas mais inteligentes recebam mais recompensas na vida, é isso realmente justo?
    A crônica 30 é uma que tenho um carinho muito especial por ela. Me propus a pensar se existe uma vida melhor que outra. De alguma forma, nós temos dentro da gente a ideia de quem curte mais a vida, é mais feliz. Que uma vida comum, não é uma vida digna de ser vivida. E pautamos nossa felicidade nessa crença. Nesta crônica percorremos para descobrir se realmente uma vida é melhor que a outra.
    “Uma breve história da vida que você escolhe” não é um título muito bom para um texto que começa perguntando se você se lembra da sua primeira decisão. Mas nós, cada um de nós, vai evoluindo. Na época que escrevi esse texto, eu estava reflexivo, pois tinha acabado a leitura do livro “Quantos eus não são meus” do padre Fábio de Melo. Então, eu refletia sobre quando que eu me formei como ser humano? Há algo em mim que faz eu ser eu mesmo, mesmo quando eu era uma criança, mesmo quando eu sou eu de 32 anos? Como pode ver, o título não faz jus ao texto, mas o caminho se faz caminhando.
    Como eu sou fascinado pela ideia de aprendizado, volto a ele, mas de uma maneira diferente. A crônica 32 é um texto resenha sobre o livro “Dom Quixote”, e como nós somos a única espécie no mundo que consegue imaginar. É realmente uma pena que usamos nossas capacidades para machucar, torturar e matar.
    Relendo os meus textos, chego a um que gosto muito, que é a crônica 33: “Manual não oficial da vida perfeita”, olhando hoje, não acho que colocaria esse título. É um texto tão interessante que dou algumas marteladas na ideia de felicidade e satisfação atreladas ao sucesso financeiro.
    E chegamos ao texto que fez o maior sucesso, até então. A crônica 34, é uma que realmente me deu uma força maior de seguir escrevendo. Além de minha esposa, duas amigas leram, e deram o retorno de que aquelas palavras penetraram na vida delas fazendo-as ou pensar, ou buscar mais conhecimento, e isso foi algo que teve uma beleza indizível em minha vida. Realmente quis continuar escrevendo e me fez entender que escrever é o que adiciona contornos coloridos a minha existência.
    Na crônica 35 eu abro o coração, e continuo falando sobre uma existência comum. Eu levo uma vida comum, um ser humano normal e qualquer, e faço reflexões sobre isso. E nesta crônica falo sobre as escolhas, que para o meu eu de hoje, julgo como ruim, mas que foram essenciais para me tornarem o que eu sou hoje.
    “#0036 Você não vai chegar lá, e não importa o que você faça” é uma crônica que eu também uso minha vida particular para chegar a alguma generalização. Reflito sobre como há um engano que é destinado a cada um de nós sobre vivermos numa competição e que quando chegarmos em primeiro lugar tudo terá válido a pena. E a vida simplesmente não é assim.
    E ainda nessa pegada de entender que nem todas as pessoas serão extraordinárias e que a beleza da existência se encontra nisso, escrevo a crônica 37, que é um desabafo e um pedido sobre como quero conhecer a história das pessoas que não chegaram lá.
    E sim, o tema da vida comum foi um tema que me atravessou e eu precisei refletir sobre. E na crônica 38 analisamos outro aspecto importante, que é a ideia que uma existência só é válida quando ela deixa um legado. E claro, me posiciono dizendo que isso não poderia ser mais errado.
    Finalmente o meu manifesto: “#0039 Em busca do inútil” é a crônica no qual eu digo que não quero mais uma vida para, que a minha vida e minha escrita necessitam ser completas nelas mesmas.
    Quando cheguei a crônica 40, eu já estava um pouco cansado. Havia experimentado diversas formas de quantidade de escritas. Qual era o maior sonho? Conseguir produzir um texto fenomenal todos os dias. Mas isso é simplesmente humanamente impossível. Então, reflito sobre o papel da qualidade e da quantidade em nossas vidas.
    Um texto pelo qual eu tenho o maior carinho é o: “#0041 O guia incorreto para construir uma empresa bilionária”, me diverti muito escrevendo-o, sobre como é “fácil” construir uma empresa bilionária, e depois mudar o significado dela, para parecer que ela é uma mocinha lutando para salvar o mundo, como se as empresas realmente se importassem com missão e não com lucro.
    E espero que você esteja preparado, pois a crônica 42 é uma pancada em nosso ego, ela nos mostra como nós somos facilmente iludidos e achamos que sabemos as coisas, quando na verdade, não sabemos de muita coisa.
    “#0043 Não é sobre resultados, é sobre pessoas” é uma crônica que tento expressar a minha gratidão a todas as pessoas que me leem. No final do dia o que importa são as pessoas e não os números sobre as pessoas.
    O texto 44 é uma crítica literária a um dos livros que mais gostei: “Instruções para desaparecer devagar”!
    O texto 45 me permiti “repostar” um dos textos que mais achei interessante que eu escrevi em minha vida, e claro, ele começou a ser escrito há dez anos, e foi finalizado há dez anos. Mas ainda o acho atual, e acho que fui bem feliz em escrevê-lo.
    Continuei ousando nos formatos, e o texto 46 na verdade é um poema manifesto sobre a masculinidade. Num mundo em que os homens são tão violentos, precisamos combater a ideia de homens. Esses modelos de homens não nos servem mais.
    A crônica 47 é uma que também foi bem interessante de escrever. Me inspirei em minhas próprias relações familiares para tentar entender porque nós odiamos tanto os nossos parentes.
    E finalmente, por meio do: “#0048 A Terra ferve, e o sol nos sangra”, entrei num tema do qual eu negligenciei durante muito tempo. E claro, o planeta está fervendo e nós estamos nele. Viveremos ainda?
    Num tom de encerramento, escrevi a crônica 49, que é sobre uma percepção sobre a vida, que deveríamos buscar uma maior intensidade em nossos momentos. Uma vida simples, mas intensa.
    E a crônica 50, não é exatamente essa crônica, mas sim, a crônica que ainda postarei, a 51, que foi maior de todas, a que deu mais trabalho e que levou uma parte da minha alma, sem nenhuma dúvida: “#0051 Passar num concurso pode ser a pior coisa que irá te acontecer”, então leia.
    Terminando de escrever essa crônica e olhando para todos os meus textos escritos neste ano, sinto realmente um grande orgulho, e uma vontade de dar uma vida maior, e fazer algum livrinho com essas crônicas, quem sabe o meu primeiro livro de crônicas.

  • #0049 A Terra ferve, e o sol nos sangra

    #0049 A Terra ferve, e o sol nos sangra

    Só é possível refletir sobre o aquecimento global quando temos feijão na mesa e tempo para divagar.

    Um tema que me fugiu, mas que comecei a refletir a partir de uma lista de leitura. Se você leu a crônica “Você não é homem não?”, sabe que fiz um compromisso público para ler mais mulheres, e assim aumentar o meu repertório. E algo que me chamou bastante atenção foi como a mudança climática e violência contra a mulher se tornaram temas recorrentes nessas obras.

    Eu tive educação ambiente na escola, me lembro claramente das previsões catastróficas da professora, sobre como nós estávamos destruindo a camada de ozônio, isso, comigo ainda na quarta-série. Depois fiz trabalhos sobre os tragênicos, sobre o aquecimento global, o efeito estufa, e me lembro que sai alarmado, queria mudar o mundo, até mesmo cogitei, apenas cogitei, não comer carne.

    Mas então veio o trabalho. No meu auge de meus 19 anos eu passei em um concurso e comecei a trabalhar. Também tenho uma crônica sobre o período: “#0045 Passar num concurso pode ser a pior coisa que irá te acontecer”, que eu conto melhor sobre meus últimos 12 anos. Nunca mais me importei com o tema. Claro, senti os efeitos do aquecimento global, necessitando comprar um ar-condicionado para conseguir dormir.

    Eu sei, cai na ideia idiota de que se eu não sei do problema, logo o problema não existe. Mas em minha defesa, só pude me importar com isso quando tenho uma expectativa de vida e a vontade de ter filhos! Se antes, meu desejo recorrente era por fim na minha vida, e o ódio pela humanidade, como se importar que um planeta qualquer está aquecendo e suas espécies vão morrer? A própria Terra vai desaparecer.

    Mudei e me importei. E quando pesquisei um pouquinho sobre o tema, já fiquei fascinado, por exemplo, os cientistas pegaram os diários de bordos dos comandantes dos navios, que viajavam pelo hemisférios sul, para conferir a medição da água. Eles sempre mediam a temperatura da água nas viagens. Com base nisso conseguiram ter um mapa completo da temperatura do planeta. E assim, podem afirmar com uma precisão cirurgica que a média de temperatura do planeta já aumentou em 1,2 graus.

    As consequências já podem ser notadas, mas não para todos os grupos. Por exemplo, as enchentes catastróficas no Rio Grande do Sul em janeiro de 2024, são uma prova, não é? As consequências podem ser notadas, seca na Espanha, aumento do azeite. Problemas também na safra do café, e o preço quadruplicou. Mas não, para muitos isso é culpa do Lula. Lembro-me como se fosse hoje, no meu ambiente de trabalho, em que as pessoas precisam ter um curso superior e ser aprovadas num concurso, um ex-chefe disse que as enchentes foram premeditadas. Sabe, o tal do Foro de São Paulo, tinha uma máquina que fazia chover sem parar, tinha até patente e tudo. Não há diálogo com esse tipo de gente. Como você pode argumentar que isso não faz o menor sentido, que aquela enchente não beneficiava ninguém. Que aquilo não tinha lógica nenhuma. Felizmente, não trabalho mais no mesmo setor, mas até sinto um pouco de saudade da criatividade das histórias conspiracionistas.

    Por outro lado, a realidade é sempre muito mais complexo. Claro que para eu ter um posicionamento, eu preciso ter tempo, preciso estudar. E a realidade da vida das pessoas é que não temos esse tempo, não temos dinheiro, somos como um sapo na panela de água fervendo. Pra completar, países como o Brasil, alguns asiáticos e da África serão muito afetados. Inclusive a elite do agro, que não vai mais conseguir alimentar o mundo, se as piores previsões estiverem certas.

    Mas o problema é que não vai ter um grande evento que vai fazer com que todos se mudem, ou que mate a população de uma única fez. O cenário se assemelha a panela esquentando. Pra completar, inventaram a IA, será que ela será uma solucionadora que vai inventar formar não poluentes de produzir? Ou será que vamos esquentar, as safras vão morrer, e teremos mais de 3 bilhões de pessoas desaparecendo, por falta de comida, emprego, e mortas por furacões. Tudo fica cada vez mais comum. Na noite de ontem choveu forte a noite inteira e acho que nunca tinha visto isso na minha vida.

    Ao mesmo tempo precisamos ter cuidado com o que construímos como ideologia. Vivemos constantemente cenários de apocalipse. Se antes, tínhamos um Jesus aparecendo na palestina e dizendo que o fim estava próximo, anunciando o apocalipse, e 2 mil anos depois, não teve apocalipse, embora nunca mais a população judaíca foi a mesma.

    Os pessimistas dizem que por conta das variações climáticas teremos os refugiados climáticos. E os países ricos como Europa e EUA irão se fechar. Os extremistas irão se agarrar ao poder e jogarão a culpa dos problemas enfrentados, como por exemplo, reconstruir diversas vezes as mesmas cidades vítimas dos furacões. Em suma, em todas as referências básicas que procurei, estamos muito próximos do fim. Será que seria então esse o grande filtro?

    Não sei se você conhece a teoria do grande filtro. Mas vamos pensar no universo, ou melhor, na Via Lactea, que é uma das milhares de galáxias que existem no universo. Se então, somente na Via Lactea existem bilhões de estrelas, logo, devem existir milhares de planetas com condições propícies para a vida, então a vida no universo é abundante. Ou seja, deveria ter uma espécie inteligente em toda esquina de estrela. Só que isso não é a nossa realidade empírica. Não temos contato com nenhuma outra civilização que tenha dominado foguetes e tenha saído da proximidade de sua estrela, esse é o paradoxo de Fermi. Lendo essa crônica você já deve ter notado que não acredito em nenhuma teoria conspircionista, então por favor, nada de dizer que eles existem e são escondidos e blábláblá. Pensando nesse paradoxo, que existe vida abundante no universo, mas não tivemos contato com outras espécies. Então, surgiu a teoria do grande filtro. Não conhece essa teoria? Eu te explico.

    Existiria uma barreira, ou “filtro”, em algum ponto da evolução da vida que é extremamente difícil ou impossível de ser superada. Essa barreira poderia estar no passado da humanidade ou no futuro. Se o filtro estiver no passado, significa que a humanidade já superou um grande obstáculo, como o surgimento da vida a partir da matéria inanimada ou o desenvolvimento da inteligência, tornando-nos uma das poucas, ou talvez a única, civilização a ter sucesso. Convenhamos, para mim também é assustador, pensar que o homo sapiens é o único ser do universo com a inteligência para significar uma existência. No entanto, o Grande Filtro pode se encontrar no futuro, isto é, a vida inteligente surgiu em diversos pontos do universo, mas em algum momento posterior ao que vivemos agora, aconteceu algo como uma guerra nuclear, uma inteligência artificial hostil, ou toda civilização se desenvolve mais rápido que o planeta suporta e se extingue ao não suportar as mudanças climáticas ocasionadas por seu desenvolvimento. É assustador pensar que possamos estar caminhando para esse grande filtro.

    Mas seria o fim, as mudanças climáticas iminentes e inevitáveis? Alguns especialistas dizem que já atingimos o ponto do não retorno, o que significa que a Terra demorara por volta de 10 milhões de anos para se recuperar da aventura humana na Terra. Mas nem todos são tão pessimistas assim, Cixin Liu, em sua obra, literária, explica o paradoxo de uma maneira diferente. Para ele, nós vivemos como numa floresta sombria, em que qualquer um pode ser uma ameça, todos ficam escondidos e quietos. Não se sabe se o que vem é um caçador ou uma caça. Como se a existência de uma outra espécie inteligente, colocasse em risco a nossa própria espécie, neste sentido, o universo seria abundante de vida inteligente, mas todos estariam escondidos e torcendo para não serem encontrados. É uma visão também um quanto assustadora. Mas nesta visão, todos sobreviveriam as eventuais mudanças climáticas.

    Cada dia está mais quente, e nossas cidades não são muito inteligentes, muito menos nossas casas, e para solucionar isso, nos limitados a comprar ares condicionados, e ignorar os problemas. Tudo bem eu sei que é tudo muito mais complexo, e que a solução também precisará ser coletiva, mas até lá, vamos precisar sim tomar algumas medidas individuais, deixo esse vídeo para que você tenha uma ideia da dimensão do problema.

    Se você é um leitor ou uma leitura frequente sabe que não proponho soluções. Ainda mais em um tema que acabei de iniciar meus estudos. Mas nós sabemos que tudo é passageiro, até mesmo esse planeta, e se há algo recorrente nas culturas são os mitos do fim do mundo, por exemplo, o mito fundação da etnia Yanomami é a Queda do céu, e também é a história apocaliptística deles, a queda do céu. E me parece um céu caindo como algo quente. Espero que não torremos demais. Por outro lado, acho válido lembrar que somos antigos.

    Um dos últimos livros que li se chama “Arqueologia da Amazônia” um livro básico que todos nós deveríamos ler, para conhecermos um pouco do passado de nossos ancestrais. De alguma forma nos distanciamos dos indígenas, e é um livro que fala da ocupação da Amazônia, do processo de domesticação de diversas plantas, como mandioca, tomate, e outras. É interessante ver outras relações possíveis com a Terra. E também, recentemente entrei no hiperfoco para entender a migração do homo sapiens pela Terra. Não é fascinante pensar que ele começou a se espalhar pela Terra a mais de 100 mil anos? Que há registros deles dominando embarcações e colonizando ilhas há mais de 60 mil anos? E nessas andanças encontrei um canal muito interessante que conta um pouco dessas histórias. E uma das hipoteses para a chegada do homo sapiens na América é por meio de navegação, sabe-se que há milhares de ano, o nível do mar era mais baixo, e é possível que os povos originários da Oceania tenham sido os mesmos dos povos Amazônicos. Portanto, os indígenas teriam ocupado a muito mais tempo.

    Por que estou contando tudo isso? Para trazer esperança. Nós somos como baratas. Uma praga que sobrevive. E a tendência é que mesmo num pior cenário continuaremos sobrevivendo. Como também, se nós estamos tendo essa conversa, significa que também plantei uma semente em você, e esse trabalho tem sido feito por outros, por outras causas. Talvez um grande choque nos abale, ou talvez apenas nos distancei mais. Seja o que for, nós devemos nos inspirar nos nossos ancestrais e nos adaptarmos aos novos tempos. Lembre-se de que ninguém sabe exatamente o que vai acontecer e se nós realmente vamos nos tornar uma civilização pré-industrial. Mas nós sabemos que precisamos sobreviver, apesar disso.

  • #0048 A linha de chegada

    #0048 A linha de chegada

    Todos dizem que viagens nos mudam, que uma viagem internacional então te transforma em um outro ser humano. Sempre duvidei disso. E por um motivo simples, não é sobre o lugar, paisagens, status ou qualquer outro resultado possível, em que o seu cartão de crédito possa comprar. Quando você compra essas experiências você também ganha alguns likes, e até mesmo começa a acreditar que seus seguidores sentem felicidade com sua felicidade. Não poderia ser tão diferente. Não me leve a mal, algumas pessoas até ficam mesmo, mas a maioria está fudida no emprego, ralando o suficiente para não ter que faltar alimento na mesa, mas já ganham o suficiente para pensar, e sentir raiva de tudo que poderiam ter e não tem. E elas se encontram num abismo que não tem nenhuma possibilidade de em algum momento da vida desfrutar daquilo que é a sua realidade. Então, vamos relevar essa inveja e esse ódio.
    Quando viajamos é como se nós nos permitíssemos olhar para as pessoas ao nosso lado. É em momentos assim, que sendo adultos, nos permitimos formar novas amizades e fortalecer nossos vínculos existentes. Viagens não nos mudam, mas as pessoas nos mudam.
    Nas duas últimas viagens que fiz, fui honrado pela vida com o privilégio de conhecer duas novas pessoas, sendo que uma delas foi madrinha do meu casamento. Como assim, Aranha, você não conhecia a madrinha do seu casamento? Eu conhecia alguns adjetivos que a descreviam, como por exemplo, sua profissão, seu temperamento, e aspectos que mais ornam do que de fato definem. Acredito que conhecer é conseguir juntar elementos desde adjetivos que ornam, até substantivos que definem. Sim, eu acredito que existe algo dentro da gente imutável e perene que faz sermos quem somos. Você também acredita que existe algo dentro da gente que nos substantivam? Por meio das histórias que soube de sua vida, da madrinha do meu casamento, eu pude sentir que a conheço, e assim, digamos que pude amá-la pela primeira vez.
    Quando estávamos com ela, eu a vi viver todos os instantes que eram possíveis a ela viver. Sendo ela paciente terminal de câncer, sabíamos que aquela poderia ser a última vez que nossos corpos estariam juntos. E ela era rapidinha, você piscava ela já estava em trânsito para outro local, outra conversa, outra coisa. Quando chegamos em sua casa, com nossas roupas sujas ao final de uma viagem intensa por uma parte da Europa, num piscar de olhos, ela pegou essas roupas e colocou tudo na máquina para lavar. E quando juntou todas as roupas, inclusive uma rosa, que foi presente de aniversário de minha esposa, e batendo numa máquina diferente, acabou manchando. Hoje, escrevendo esse texto, lembro de seu jeito frágil, mas firme, que nos mostrava: não há tempo a perder, e às vezes as manchas precisam aparecer, e a mancha na camisa que estou também vestido hoje me lembra isso.
    Aprendi com ela que não é sobre pressa, é sobre ser rápido. Não é sobre ansiedade, é sobre intensidade. Não é sobre bens materiais, é sobre histórias.
    Depois disso, quase pedi demissão. Não conseguia mais ver o sentido num emprego que não fosse para mudar o mundo, eu não via que qualquer coisa muda o mundo todos os dias. A morte veio diante dos meus olhos, e junto com ela a lembrança que uma hora será a minha vez. E até isso acontecer, que escolhas vou travar em minha vida? Como vou viver intensamente?
    Mas sem dúvidas o que ficou martelando em minha cabeça quando voltei, até porque eu ando de moto (e vocês sabem a quantidade de motoristas que não conseguem esperar chegar em casa para responder uma mensagem no celular) então a qualquer momento eu posso morrer, ou melhor, ser assassinado. Você pensa, mas por que então você anda de moto se tem esse risco? Viver é um risco. E a maior lição, foi essa, é para viver intensamente, não parar de viver. Andar de moto é diferente, é sentir a Terra como de fato ela é. Eu sabia o que não era viver intensamente, mas ainda não havia descoberto o que era.
    Durante um período significativo da minha vida, fui vítima do que chamo, do burguês herdeiro. Como não era possível eu renascer, sendo agora herdeiro de uma grande fortuna, restava trabalhar uma vida inteira, para quem sabe, um dia ter proventos suficientes para conseguir a tão sonhada independência financeira. Você usaria o sistema que te usa para receber algumas migalhas dele e então ter uma vida plena. Mas nós morremos.
    E não digo apenas quando sofremos um acidente e temos nosso corpo incinerado ou enterrado. Eu falo da morte da alma. Todos os dias quando não somos coerentes com o substantivo que nos define, nós morremos. E a morte se manifesta de maneiras diversas. Há vezes que sinto um pânico absurdo ao sentar na cadeira e ligar meu computador para mais um dia de trabalho. Há vezes que acordo sem ar às 4 da manhã suado, e me lembro que mais tarde eu terei que fazer uma demanda sem sentido nenhum para dar a parte da minha alma para as engrenagens do sistema gerar. Há vezes que entro compulsivamente em sites de promoções e compro milhares de livros que nunca vou lê. E claro, há vezes que só vou para o banheiro e choro baixinho, pra ninguém escutar e eu poder voltar e dizer que está tudo bem. E todas as vezes, o coração acelera e o pânico no peito é constante, é como se não houvesse ar.
    Durante um tempo significativo me enganei, dizendo que era necessário, que eu precisava comer. E de fato, preciso de proteína, um lar, tranquilidade, plano de saúde, tudo o que a nossa constituição garante a dignidade da pessoa humana, que sabemos que só é possível, no Brasil, se você não for herdeiro, só se você trabalhar. E então podemos escolher, tranquilidade do tédio de um trabalho chato, ou a vida e os riscos de você se tornar uma não pessoa, sem recursos, sem saúde, sem direitos. E eu como um bom cidadão resignado, sempre escolhi o lado óbvio, o lado mais seguro, o lado menos divertido, o lado menos glamouroso.
    A minha segunda lição é relacionada ao aprendizado, um tanto quanto óbvio sobre o que é viver com intensidade. Muitas vezes em nossa vida, nós não conseguimos identificar os problemas. Por exemplo, quando vivemos uma vida sem intenção, nós sentimos a dor, como se um ácido corroesse nossos olhos e não pudéssemos mais ver a beleza do mundo. É doloroso, mas não conseguimos ver as verdadeiras causas, e continuamos sofrendo as consequências disso.
    Muitas vezes associamos os significados de uma maneira completamente equivocada, como se viver uma vida intensamente fosse na verdade curtir. Mas o curtir como algo bem específico, como a realização de todos os desejos da carne de seu corpo. Nem questionamos que uma vida dedicada a festas, drogas, relações sem responsabilidade afetiva, nos trazem prazer e dor. E significamos isso como sofrimento.
    Falei sobre tudo o que não é intensidade, mas não consigo ainda definir, consigo relacionar, e intensidade tem a ver com pessoas. Em nossa segunda viagem, fomos a Morro de São Paulo, na Bahia, e lá conhecemos uma pessoa que nos ensinou sobre as relações de intensidade.
    Como gostamos de chamá-lo, nosso nativo. Em nosso primeiro encontro ele nos mostrou o desprezo pelo dinheiro, que gostava de uma vida simples, e se via como aquela parábola do empresário e o pescador:
    “Um pescador descansava à beira do mar, apreciando a brisa suave depois de uma manhã de pesca. Um empresário muito rico se aproximou e perguntou:
    — Por que você não trabalha mais? Se pescasse todos os dias, ganharia mais dinheiro, poderia comprar mais barcos, contratar pessoas, montar uma grande empresa…
    O pescador, curioso, perguntou:
    — E depois?
    — Depois você ficaria rico, poderia se aposentar e aproveitar a vida!
    O pescador sorriu e respondeu:
    — Mas eu já estou aproveitando a vida agora.”
    Nós pensamos que para fazermos algo, qualquer coisa com significado, precisamos de muito dinheiro. Achamos que só os ricos podem aproveitar a vida de uma maneira plena. Nosso amigo trabalhava um ou dois dias na semana, e aproveitava o restante, tinha uma casa, verdade, mas o que ele mais tinha era sua liberdade.
    Ele aproveitava a vida aprofundando suas relações, sem medo de dizer um eu te amo.. Sem medo de se entregar, sem dúvidas de sua masculinidade. Quantas vezes não deixamos para depois aquilo que realmente desejamos fazer? O que estamos buscando afinal?
    Nós somos quem atribuímos todos os significados, todos. Então, a ilha existia, a natureza, as casas, o sol, o por do sol, tudo. E todos os significados, seja ver um por do sol sentado na calçada, ou ver um por do sol numa festa que custa 200 reais a entrada, serão feitos com a nossa mente. Nós esquecemos que o poder de construir os significados da nossa existência vive dentro de nós.

  • #0047 Por que você não suporta a ceia de Natal com seus parentes?

    #0047 Por que você não suporta a ceia de Natal com seus parentes?

    E te adianto, não é porque eles votaram no Lula ou no Bolsonaro.

    Todos os parentes são iguais. Mas família, esta é única. Parentes são todos aqueles que carregam o seu sangue, mas não conhecem sua alma. Seus familiares podem ou não carregar o seu sangue, eles nutrem afeto por você. Quando você sentiu medo, foi no calor de seus colos que você se sentiu acolhido. Muitos de nossos familiares são nossos amigos, mas também existem alguns parentes que podemos chamar de família.

    Mas para que possamos construir uma família, precisamos de tempo e ação. O sangue do meu sangue não me garante nenhum afeto. O sangue do meu sangue não me deve nada. Existem mais de 11 milhões de mães solo no Brasil, e não precisa ser nenhum gênio para saber que um pai ausente é simplesmente um parente. Todavia, não são somente os pais e aquele tio, que você só encontra nos natais e nos velórios, e você nem se lembra direito o nome dele. E os filhos deles, que são primos tão distantes que é como se nunca nem tivessem existido. Claro que vai existir uma comparação, toda família tem um primo rico, marginal, não padrão e padrão. Comparações essas que só servem para tentar diminuir o que você é. Te pergunto: qual o tempo que vocês tiveram juntos? Qual a ação que eles fizeram para construir um afeto no seu coração?

    Imagine um mundo em que o amor não é construído; que não exige cuidado e sacrifício. Tudo seria mais simples, não é? Nós então poderíamos sentir carinho e amor por aqueles fantasmas, que quando perguntam falam: e as namoradinhas? E os concursos? E a faculdade? E eles não tem um tempo para olhar suas redes sociais, mandar uma mensagem, saber como você está? Não. Nesta situação você é apenas um objeto. Um objeto.

    Ainda assim, você também possui sua responsabilidade. Você conhece os sonhos do seu tio? Acha mesmo que ele gostaria de estar tentando puxar assunto com todo o repertório que possui? O tio bolsonarista? O tio do pavê? Você realmente acredita que ele sentiria prazer ao receber chumbo num campo de fuzilamento? Você não acha que ele apenas reproduz algo que considera necessário para um mundo melhor? As coisas são construídas, ou só são quando a narrativa te favorece? Uma relação pressupõe no mínimo duas pessoas, logo a distância entre vocês pode ser percorrida por ambos os lados. Então, de quem então é a obrigação? O primeiro passo? Meu dever é tentar trazer algumas perguntas e não respostas, mas já parou para pensar tudo o que vocês têm são esses natais e que em breve acabou? Acabou. Ambos morrerão e nenhum conhece além do outro.

    Quem deve dar o primeiro passo? É uma pergunta que não me atrevo a responder. Existe uma linha muito tênue entre você dar o primeiro passo e você ser um trouxa tentando costurar uma relação que não existe. De toda a forma, esta não é uma questão que envolve suas percepções, o que de fato você sente acerca de tal relação, pois há vezes que ser uma pessoa trouxa é o único caminho que vai te trazer uma paz anterior. Mais uma vez trago perguntas e não respostas.

    Quando penso em questões tão complicadas, lembro que posso contar nos dedos as pessoas que de fato me conhecem. Ainda existem aquelas que possuem o meu afeto, mas também não me conhecem. Se nem eu sei exatamente os motivos que me levam a tomar minhas decisões, eu também me conheço? Em certa medida, temos a finitude de nossas vidas e as atitudes para tentar montar o quebra-cabeça do que nós somos. Mas ainda assim, tudo o que temos é a história do que somos, não de fato o que somos. Quando olhamos para isso, é possível vermos que qualquer tentativa de nos definir tem como consequência a transformação de nosso ser em um simples objetivo definido. Por mais que a história de nossas escolhas contenha peças finitas, o arranjo delas é algo infinito. Reduzir o infinito é reduzir um ser a um objeto. Então, até mesmo os meus afetos familiares mais íntimos só podem ver uma pequena fração de tudo o que sou.

    Se até mesmo nossos afetos mais íntimos não nos conhecem, de verdade, então por que nossos parentes distantes, mesmo sem nos conhecer, geram então em nós uma repulsa?

    Eles não pertencem ao nosso grupo. Nós, seres humanos, temos uma necessidade de pertencimento. É fácil observarmos o motivo de pertencermos, nós precisamos de grupos para sobrevivermos. Com a globalização nem mesmo um país inteiro consegue se manter sozinho, necessitando de insumos de outros países, formando uma verdadeira cadeia de suplementos, quem dirá nós que sozinhos morreríamos sem mesmo saber pedir por comida. Então é algo muito natural que o grupo seja como uma entidade para todos nós.

    Mas seria uma completa ilusão acreditarmos que formaríamos um grupo grande, coeso e uniforme. Seria talvez quase tolo. Durante muito tempo, o grupo que regia todas as regras detinha todo o poder, esse era o grupo dos homens. Para descrever todos os grupos, seria necessário um verdadeiro tratado sobre a existência humana, e, definitivamente, não tenho pretensão e nem qualificação para tamanha ousadia, então irei parar por aqui. Basta entendermos que, ao pertencer a um grupo, nós nos apaixonamos por ele. Paixão é um termo adequado, segundo o dicionário, paixão é também “Disposição contrária ou favorável a alguma coisa, que cega e impede a razão; fanatismo: Há certas religiões que desenvolvem nos seus seguidores uma enorme paixão.” Tive uma professora que costumava dizer que paixão está mais para a doença que para o amor. Enfim, nós nos apaixonamos pelo nosso grupo, ao ponto de dizermos que todos os outros não fazem parte do nosso grupo porque não estudaram e, por isso, não têm a capacidade de ver a verdade que apenas o nosso grupo vê.

    Obviamente, nosso grupo é o único que é o certo, se não fosse assim, você nem participaria do seu próprio grupo. Os outros grupos são os vilões, logo o seu tio é um vilão, ele representa o mal. Esquecemos que, mesmo numa estrutura patriarcal capitalista, os privilégios que os homens recebem não anulam o sofrimento que a estrutura causa a eles. Não precisa ir longe: 90,2% das mortes violentas foram sofridas por homens (dados de 2024), sendo a maior parte de homens pardos e negros. Mas vamos voltar aos grupos: o outro grupo, então, não compartilha a mesma visão de mundo que a nossa; eles, portanto, não são dignos de debate. São apenas violentos, nem sequer são seres humanos.

    Se você tivesse a curiosidade de conversar com alguém de direita e conseguisse ouvir, provavelmente se surpreenderia, ou não, depende com quem você conversará. Existe uma superficialidade dentro da conversa, mas quando nós conseguimos avançar um pouco, entra dentro de algumas questões, descobrimos mais coisas em comum que diferenças, mas para isso é preciso conversar como se você tivesse algo a aprender com a pessoa, caso contrário você só vai confirmar suas crenças, reproduzindo a objetificação daquela pessoa, desconsiderando a existência dela.

    Os outros também acham que vivemos num sistema injusto. Detestam também que uma pequena elite controle quase tudo. Mas a conclusão deles é completamente oposta à sua. Para eles, a solução não é darmos o poder ao proletariado, longe disso. Esse é o maior temor deles. Eles acreditam, sim, acreditam, que o patrão e o mercado vão ajustar as injustiças, magicamente. Dizem que o problema do Brasil não é ocasionado por anos e mais anos de exploração e escravização de seres humanos com a concentração dos recursos na mão de minorias, não. O problema é que existe um Estado muito grande, que custa caro e sufoca os pequenos empreendedores, que são eles que fazem o Brasil ser uma potência. Já você acredita que, ao acabar com a desigualdade social e fornecer bem-estar social, os problemas do Brasil desapareceriam. Essa é a missão da Caixa, mas te pergunto: você usa Caixa ou Nubank? Talvez você argumente que a Caixa sofre com um sucateamento proposital, que o Estado, na verdade, não foi controlado por um governo de esquerda nos últimos 19 anos, argumentando que o poder do executivo concentra-se com o legislativo, ou seja, o centrão. Mesmo que o Nubank tenha sido criado por duas pessoas e atualmente tenha 8 mil empregados, contra 88 mil diretos da Caixa, mais 230 mil de pessoas prestando serviço por meio de lotéricas; e, por mais contra intuitivo que seja, ambos os bancos investem valores semelhantes em tecnologia da informação (você pode obter essa informação lendo o balanço do Nubank e lendo os editais das licitações da Caixa, ambas as empresas têm seus balanços públicos). E, claro, o outro grupo vai dizer que o setor público é sempre ruim, e que pra melhorar basta privatizar, mas será mesmo? Qual a resposta? Qual a solução? Será que não estamos apenas olhando a superfície de algo infinitamente mais profundo? Como você já sabe, meu dever é trazer questionamentos e não respostas. Eu não tenho insumo e nem capital intelectual para conseguir descrever os motivos do mundo ser como é, apenas observo o mundo e tento me adaptar.

    Então, o problema é simplesmente o outro grupo? Isso é um espectro. Há momentos em que você estará tão fechado com o seu grupo que qualquer um que é divergente por si só já é digno de ser morto. Por exemplo, como podemos lidar com pessoas que são fascistas, supremacistas, e cuja existência coloca a nossa existência em risco? É um paradoxo, pois, se formos gentis com eles, iremos desaparecer. Então, qual é a solução? Mais uma vez, apenas me reservo o direito de questionar, trazendo perguntas. Arrisco-me a dizer, baseado no Naruto, que a solução não é a violência. Existe a chance de você ser um radical que já pensou que quem discorda de você merece a morte? E não quem realmente comete crimes? Se você é um radical, com certeza, eu não sou pra você.

    Baseado em minha experiência pessoal, vejo que os radicais são aqueles que fazem o trabalho sujo do grupo. São eles que carregam duas réguas, uma mede e critica ferozmente a doutrina do outro grupo, com a outra, ignora a realidade para confirmar as próprias crenças. O próprio grupo é digno de confiança e se torna incapaz de perceber que são exatamente aquilo que tanto criticam. De repente, todos os problemas que citamos perdem espaço para brigas de comentários nas redes sociais.

    Meu parente mais distante é aquele que cumpre todos os preceitos, se aproxima de minhas crenças, tem uma visão de mundo então parecida com a minha. Protesta quando precisa protestar, e eu poderia dizer que é do mesmo grupo que eu? Sim. Mas eu não suporto conviver com esse meu parente, ele é estúpido. Meu melhor amigo, que também carrega tais crenças, é alguém que eu poderia passar horas e mais horas conversando, trocando experiências, vivendo. Mas por ele eu nutro afeto e carinho. Então qual a diferença? Além da idade, enquanto um é da geração Z, o outro de uma anterior a minha, meu parente não me respeita, não me escuta, não me conhece e não pratica o próprio discurso, ele é vazio.

    Meu parente é do meu grupo, mas ele é incapaz de ver que o caráter dele é formado por todos os adjetivos que ele adora publicar em críticas nas redes sociais. Ele não consegue perceber que produz uma simplicidade tóxica do nosso grupo. Acredita que os outros são burros por não verem o mundo distorcido como ele vê. E o que torna impossível o convívio é o seu ar de superioridade, sem perceber que age como um robô, será que algum dia ele conseguiu questionar a si e as suas próprias crenças?

    Portanto, existem robôs por diversos lados. E a falta de humildade que carregam, humildade no sentido de serem incapazes de aprender com pessoas do outro grupo, tornam elas pessoas insuportáveis, que nós carinhosamente chamamos de personalidade difícil. Mas não. São pessoas estúpidas que, na primeira oportunidade, descartariam sua existência como se jogassem um objeto quebrado no lixo. Se eu pudesse te dar um conselho, caro leitor, fuja desses parasitas.

  • #0046 Você não é homem não?

    #0046 Você não é homem não?

    Ser homem é trocar a resistência do chuveiro
    Ser homem é consertar a goteira que cai o dia inteiro
    Ser homem é trocar o botijão de gás
    Ser homem é também acreditar que somente isso te faz um bom rapaz

    Ser homem é trocar o pneu que tá furado
    Ser homem é deixar o carro bem turbinado
    Ser homem é dizer que aprendeu tudo sem manuais
    Ser homem é se sentir melhor que os demais

    Ser homem é dirigir em alta velocidade
    Ser homem é beber sem ter responsabilidade
    Ser homem é não saber onde a roupa está
    Ser homem é ligar para uma mulher e perguntar “onde é que tá?”

    Ser homem é não levar o lixo pra fora
    Ser homem é deixar que a companheira resolva agora
    Ser homem é não cuidar do próprio lar
    Ser homem é só chegar em casa e se jogar no sofá

    Ser homem é ver mulher pelada no computador
    Ser homem é alimentar a internet com o seu próprio horror
    Ser homem é gozar sozinho
    Ser homem é chamar todo mundo de viadinho

    Ser homem é ser bruto e não ter delicadeza
    Ser homem é admirar a força e ignorar a beleza
    Ser homem é não falar do que no peito sente
    Ser homem é se mostrar indiferente

    Ser homem é nunca dizer “eu te amo”
    Ser homem é reprimir o choro, viver nesse engano
    Ser homem é não sentir medo, não sentir nada
    Ser homem é esvaziar a alma, deixar a porta sempre fechada

    Ser homem é namorar e ter uma mulher
    Ser homem é se apaixonar pela mulher
    Ser homem é enfiar o pau na mulher, num gesto animal
    Ser homem é trair e mentir, achar que tudo é normal

    Ser homem é casar e explorar a esposa
    Ser homem é ter filhos e achar que é pouca coisa
    Ser homem é não deixar a mulher trabalhar
    Ser homem é proibir ela de se vestir com a roupa que ela desejar

    Ser homem é enganar, culpar, e perder a razão
    Ser homem é ficar em silêncio se afogar na frustração
    Ser homem é chegar em casa bêbado e cheio de amargura
    Ser homem é gritar com a mulher, e quebrar toda a ternura

    Ser homem é não amar, gritar, humilhar
    Ser homem é controlar, proibir, isolar
    Ser homem é apertar, torcer, empurrar
    Ser homem é arrastar, bater, acabar

    Ser homem é violentar, queimar, matar
    Ser homem é esfaquear, atirar, matar
    Ser homem é esquartejar, esconder, matar
    Ser homem é achar que não é todo homem, é se isentar

    Você não é homem, não?
    Ser um não-homem tem relação com entender que sempre foi sobre todo homem

    Ser não-homem é lavar a própria roupa
    Ser não-homem é levar o lixo para fora
    Ser não-homem é lavar o banheiro
    Ser não-homem é passear com o cachorro

    Ser não-homem é fazer um curso de serviços gerais
    Ser não-homem é saber trocar um botijão de gás
    Ser não-homem é trocar a torneira que vaza e não para jamais
    Ser não-homem é trocar a resistência do chuveiro e sentir paz

    Ser não-homem é não compartilhar conteúdo adulto
    Ser não-homem é não objetificar o corpo feminino
    Ser não-homem é respeitar o ambiente de trabalho e quem lá anda
    Ser não-homem é gozar em conjunto, numa mesma ciranda

    Ser não-homem é viver para além do sexo nu
    Ser não-homem é enxergar o outro, e não só tu
    Ser não-homem é construir a intimidade que também seduz
    Ser não-homem é fazer amor pra encontrar a própria luz

    Ser não-homem é ser delicado
    Ser não-homem é ser amado
    Ser não-homem é admirar nas mulheres o que não é só corpo
    Ser não-homem é construir junto tijolo por tijolo

    Ser não-homem é falar de sentimentos e curar a ferida
    Ser não-homem é conhecer o filho e dar boas-vindas à vida
    Ser não-homem é dizer que ama e ter a fala cumprida
    Ser não-homem é sentir medo e saber que a vida é mais que uma corrida

    Ser não-homem é namorar com a mulher e ser seu parceiro
    Ser não-homem é se apaixonar pela mulher por inteiro
    Ser não-homem é fazer amor com a mulher, ser verdadeiro
    Ser não-homem é honrar os combinados, ser bom companheiro

    Ser não-homem é se somar à mulher, sem qualquer receio
    Ser não-homem é respeitar a vida profissional da mulher e seu desejo
    Ser não-homem é admirar a escolha da roupa dela sem medo
    Ser não-homem é se responsabilizar por cada tropeço

    Ser não-homem é respeitar o seu trabalho e sua ambição
    Ser não-homem é admirar a beleza da sua expressão
    Ser não-homem é chegar sóbrio em casa e ter conexão
    Ser não-homem é ser transparente, sem criar confusão

    Ser não-homem é nunca gritar, mas buscar o acordo
    Ser não-homem é massagear seus braços e sentir seu corpo
    Ser não-homem é abrir caminho, ser seu porto e seu reforço
    Ser não-homem é se responsabilizar por cada esforço

    Ser não-homem é ajudar curar a mulher, pedaço por pedaço
    Ser não-homem é juntar os cacos desse grande estrago
    Ser não-homem é carregar a consciência desse eterno embaraço
    Ser não-homem é saber que a dívida com ela não se paga somente com um abraço

    Você não é homem não?
    Ser homem é ser não-homem.

  • #0045 Três Homens

    #0045 Três Homens

    Conto vencedor do Talentos Fenal 2016 do Distrito Federal.

    03:21.
    Bondade, Honório e Rodrigo eram três homens diferentes. Enquanto, Bondade escondia, com a corcunda, o corpo magro e pequeno, a pele negra, o cabelo crespo; Honório destacava-se com sua musculatura, honestidade e beleza física (cabelos lisos, pele branca e lisa, olhos verdes); já Rodrigo permanecia na inércia, este apenas um bom espelho poderia lhe narrar.
    5:00.
    Bondade, um estagiário, escutou o celular despertar. Cansado. Parecia que tinha acabado de dormir. Mas não existia outra escolha, era preciso acordar naquele horário, pois não poderia chegar atrasado, carecia de pegar o primeiro ônibus. Vagarosamente, foi até o banheiro. Iria despertar. Não haveria como não acordar, no meio da crise, para economizar luz, o chuveiro não aquecia. O sono, o cansaço, as pálpebras querendo fechar-se, em que lugar ele iria arrumar forças para lutar? Quando sentiu a água em contato com o corpo, a 10° C, achou que iria morrer… não, era só mais um dia como outro qualquer.
    Entre 5h e 5:30 da manhã, as paradas ficavam lotadas. Agitado. Entrou no ônibus. Estava sendo levado pelo fluxo de pessoas. Tirou o livro da mochila. Todos os dias era essa mesma batalha, todos os dias. Mas nem tudo estava perdido, durante as seis horas, que passava dentro do ônibus, estudava. De alguma maneira sabia que somente pelo estudo conseguiria romper as barreiras da realidade que o cercava.

    “IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social (…)”.

    Olhou para a quantidade de gente naquele ônibus, a ironia de seu riso interno quase permitiu que uma lágrima brotasse. A literatura da Constituição Federal de 1988 é algo esteticamente muito lindo, seus olhos brilhavam. Um baque e um barulho forte de pneu cantando, carro desalinhando, pessoas caindo. Mas, felizmente, o motorista recuperou o controle do ônibus e conseguiu estacionar.
    Todos, como porcos, foram convidados a sair. Mais uma vez chegaria atrasado. Olhou o estrago, era impossível continuar. Olhou para o buraco e sentiu raiva. Milhares de carros, e essa maldita classe não se organizava para reivindicar um asfalto descente?
    As lembranças do seu chefe começavam a atormentá-lo. Lembrava-se da última vez que este o ensinou, da pior forma possível, que o atraso não tem perdão. Outro ônibus. Teria a chance de não chegar atrasado.
    Não parou.
    Motorista, filho da puta, teria até a 14° geração da sua família amaldiçoada para todo o sempre. Um ônibus parou. Parecia um milagre, pois não estava tão lotado. Vermelho era a cor destinada às cadeiras para os idosos, gestantes e deficientes físicos. Entretanto, um garoto, quase que da mesma idade de Bondade, dormia numa delas. Indignou-se. Ao seu lado um senhor muito idoso fazia força para manter-se de pé, enquanto aquele garoto… aquele garoto…
    Calou-se.

    7:00
    Honório acordou, estava descansado. Fazia tempo que não descansava tanto. Suas estratégias finalmente deram resultado, e não qualquer resultado: estava em 1° lugar. Sua agência sozinha era responsável por 50% do resultado da Superintendência de vinculação. Sozinho fez o que as outras cinquenta e cinco agências não conseguiram fazer. Era um resultado incrível mesmo.
    Via Veneto, Brookfield, Cia do Terno, Colombo e Garbo, qual marca de terno iria usar hoje? Resolveu por Brookfield. Afinal era o de qualidade mais incrível, ceda francesa, nada melhor para aquela ocasião. Hoje iria apresentar os seus resultados, o seu mérito, a sua inovação!
    Como era mesmo o nome: Maria? Ana? Francisca? Não se recordava, mas também, não há importância para este nome nesta narrativa. Sua empregada doméstica já havia chegado, o café da manhã estava servido. Ele limitou-se a ligar a TV. As notícias seguiam seu ciclo natural. Um enorme engarrafamento causado por uma batida, muita chuva. Um bandido preso? Espera! não qualquer bandido, aqui vale o artigo determinante, finalmente o líder do Partido dos Tolos caíra. O povo não iria mais olhar para a sua presidenta como mãe, a crise estava ai diante dos olhos de todos, apenas os cegos não conseguiam enxergar.
    A crise, a corrupção, o fascismo era tudo culpa deles. O bandido líder, ex-sindicalista, metalúrgico, que governou o país durante oito anos, não iria mais ter foro privilegiado e estava preso. Preso! Algemado, humilhado. Finalmente a suprema corte fez algo de útil para a nação. Se não fosse a crise causada por eles, o seu resultado seria 100%, entraria para a história da nação. Mas o seu país era isso, as pessoas eram lembradas por sua corrupção e não por seu mérito.
    – Maria, o bandido foi preso! – ah! Como pudera esquecer o seu nome?
    Notou um olhar de tristeza misturada a um choro abafado. Era uma reação que ele já esperava. Aquele bandido fez o que há tanto tempo os governantes faziam, a política do pão e do circo, dava alimento e espetáculo para o pobre. Pensava ser bem a realidade de Maria, que recebia além de seu salário o bolsa família, e sempre, observava-lhe olhando os sites de fofocas e programas inúteis em relação às novelas. Enfim, recebia o dinheiro do governo e a novela para não se revoltar e não pensar.
    Entrou no seu Honda Civic. Ainda não havia quitado, mas com a promoção que viria com o resultado de sua brilhante estratégia, iria quitar o financiamento. Deu duas aceleradas no carro, gostava de escutar os roncos do motor em seus ouvidos.
    Trânsito.
    A gasolina estava muito barata, maldito governo populista, por conta disso, tanto trânsito. Quando se lembrava do governo suas entranhas se reviravam de tanto ódio. Gastava 27,5% dos seus rendimentos pagando impostos para o governo da bolsa disso, bolsa daquilo, bolsa pra um monte de vagabundo que não quer trabalhar. Hoje, quase não se encontram mais empregadas domésticas. Ele só não sabia que as bolsas representavam menos de 2% do orçamento.

    7:30
    Parado.
    O ônibus não andava. Não conseguia parar de olhar para o relógio, já eram 7:30 e nada do ônibus andar. Por que justo hoje o trânsito estava daquele jeito? Não adiantou nada acordar na madrugada para ir à busca do primeiro ônibus, o trânsito não colaborava.
    Caindo.
    O velho ao seu lado caiu. Era nítido o cansaço em seus olhos, não conseguiu mais se conter, cutucou o jovem que aparentemente estava dormindo. O jovem despertou logo. Ficou envergonhado e deu lugar ao idoso. Num rápido diálogo soube que aquele senhor estava melhor, soube que poderia seguir.

    7:45
    Chegou à sede do banco. Tinha uma vaga. Uma vaga que ralou muito para conseguir, número 31, mérito. Passou numa universidade pública com os seus 17 anos, num concurso para o banco aos seus 19, formou-se aos 21 – em ciências econômicas. Colocou seu crachá e sentiu orgulho de ser ele mesmo.
    Se tudo desse certo, tornar-se-ia o gestor mais jovem daquele banco. Na verdade iria mais longe, seria o gestor mais jovem da história daquele banco. Se não fosse um homem tão duro, tão bruto: lágrimas brotariam. Contudo, sentiu algo. Sentiu um orgulho que nunca antes havia experimentado.
    Era como se todos já soubessem o que iria acontecer. Via o brilho nos olhos dos outros. Via a admiração deles, de todos eles. Então reunião a sua equipe. Chamou todos. Ele não estava lá. Mias uma vez atrasado. Oito horas e ele ainda não havia chegado. Uma das coisas que mais o irritavam era o atraso.

    8:00
    O ônibus finalmente encostou-se à rodoviária, ele não chegaria tão atrasado. Mas uma surpresa… aquele idoso o chamou, soube que ele necessitava de ajuda, passava muito mal. Enxergava que para o seu chefe não existiriam desculpas, nem nada do gênero. Muito sartriano, cada um é o responsável por seu destino. Ele recebera uma oportunidade e tudo foi muito claro em seu último atraso. Não existiam desculpas. Não haveria uma segunda chance.
    Mas o que era um atraso quando colocado ao lado de uma vida? O que era um emprego ao lado de uma vida? A resposta depende da perspectiva. Aquele senhor não possuía mais filhos. Aquele senhor era responsabilidade do Estado, e ele, como um cidadão, tinha a obrigação de ajudá-lo. Foda-se o chefe. Foda-se a empresa. Se eles não fossem humanos para entender aquela situação, não fazia sentido continuar trabalhando para eles.

    8:30
    Dez, quinze, vinte, trinta minutos e nada do Bondade. Depois reclamavam que os negros estavam na pior situação da sociedade, que não ganhavam oportunidades, que existia preconceito, uma dívida histórica. Quanta bobagem. Deu a oportunidade ao garoto, e como todos os outros, o que ele fez? Cagou no pau! Quase todos os dias chegando atrasado, era necessário colocar um fim nisso.

    03:32
    Queria tanto terminar a história dos três homens. Vejo as histórias correrem por minhas mãos, entre meus dedos. A ideia era boa, o desfecho seria incrível para o conto, porém o tic-tac do relógio continuava a avançar. O cansaço chegava aos meus ombros junto à força eletrostática dos átomos.
    Tic-tac.
    Até que ponto eu poderia ir? Até onde eu poderia chegar? O sonho era forte, falta o tempo. Os dois homens vem e vão, eles precisavam serem narrados. Mas o tempo avança e não tenho forças para acompanha-lo. Estou cansado, amanhã tenho que trabalhar.
    Tic-tac.
    Lembro que o dia foi corrido, lembro-me das ideias muito vagamente. Os três homens. As três histórias se encadeando, a mesma discussão, os vários temas dentro da narrativa, o desfecho trágico. A mágica, fazer o leitor imaginar-se em um lado, enquanto na verdade estou dizendo coisas do outro. O peso. As pálpebras. As pálpebras iam se fechando. O sono. Os três homens. As três histórias. As entrelinhas.
    Tic-tac.
    A demissão. A promoção. O sono. A depressão. A ascensão. O peso. A reação. O executivo. Os três homens. O roubo. A política. O sono. A organização. O deputado. O banheiro. O tráfico. O deputado. O escovar dos dentes. O homicídio. O senado. As pálpebras. Os homicídios. O governador. O sono. A corrupção. A corrupção. Os três homens. A liderança. A aliança. Três histórias. A cadeia. A presidência. O antagonismo. Um homem. Dois homens. Um terceiro homem. O Bondade. O Honório. O Rodrigo. O estagiário. O patrão. O escritor. Um negro. Um branco. Um espelho.
    03:33
    Rodrigo, moreno, pálido, cheio de olheiras, cansado, que só conseguia pensar em sua cama:
    Tic-tac.

  • #0044 “Instruções para desaparecer devagar”: Uma tragédia para nossos tempos

    #0044 “Instruções para desaparecer devagar”: Uma tragédia para nossos tempos

    Após ler esse livro, fiquei uma semana com um aperto no peito. Para piorar, nesse mesmo mais um caso de violência doméstica, desta vez o agressor foi um líder de “masculinidade”.

    Recentemente, li o livro da Flávia e ele fez exatamente isso comigo. Sem medo de errar, digo que é a melhor literatura contemporânea que já passou pelos meus olhos. Mas o que define um livro excelente? Eu sei, classificar arte é um terreno pantanoso. Mas se eu disser apenas ‘gostei muito’, você vai fechar essa aba e voltar para o Instagram. Preciso te mostrar por que esse livro te pegaria pela garganta. Para não ficar só na minha opinião de leitor apaixonado, fui buscar ajuda nos gigantes.

    Quando pensamos em teoria da literatura ocidental, podemos dizer que os primeiros que tentaram entender foram Platão e Aristóteles. Platão, em sua obra “A República”, esmiúça o que definiria (segundo seus critérios) como uma obra excelente; para ele, está relacionado com o propósito educativo, portanto, uma obra que não agregasse nada, que não falasse do que eles consideravam como bons costumes, era uma obra inferior. Já Aristóteles, no seu livro “A Poética”, traz algumas outras definições de que uma obra pode ser analisada e pode sim trazer algo de perfeito dentro dela mesma. Você deve lembrar de que para Platão existia o mundo das ideias, e as obras materiais seriam julgadas por estarem próximas ou distantes dessa perfeição. Aristóteles tenta definir essa perfeição trazendo conceitos interessantes na análise, como o de mimesis (imitação). Ele começa definindo então o que seria a poética, que não seria como a história que contaria os fatos; não, a poética seria então aquilo que poderia ser, é o tal do “e se”.

    É importante também lembrarmos que esses autores viviam numa época em que não existia o conceito de literatura como conhecemos hoje. A ideia de literatura como tal é muito recente. As pessoas não eram alfabetizadas, não existia democratização de conhecimento, e muito menos acesso a livros, não existia literatura como conhecemos hoje. O teatro era forte, era como a Netflix hoje. Desde Aristóteles há um peso ao trágico, que em sua definição seria a representação do caráter dos homens superiores. Então, como você vai se lembrar da história de Édipo Rei, o homem que matou o pai e se casou com a mãe, é uma tragédia anunciada que não tinha como não ser dessa forma. E Édipo era um nobre, então as melhores obras nesse sentido eram histórias dos homens nobres de sua época.

    Mas será que existe mesmo algo de belo, algo de perfeito numa obra, e que apenas uma obra é responsável por ser perfeita? Não me parece isso, pois mesmo na minha experiência de vida há leitoras e leitoras, mesmo do mesmo livro. Há momentos em que tenho uma perfeita experiência e vejo o sublime e belo, e há outros em que não, mesmo lendo a mesma obra. Isso nos parece tão reconfortante, já que a maioria das obras são reflexos da sociedade que a aprecia. Só que isso não me satisfaz também, eu leio algumas obras e vejo algo de diferente, e eu leio mais uma vez, e sei que existe algo, algo que é difícil. Então eu talvez diga que existiria um meio termo entre a beleza que está na obra e também no observador.

    Neste ponto, o escritor e professor Ariano Suassuna, em sua “Iniciação à Estética”, nos oferece um caminho. Ele argumenta que existem essências estéticas, como o Trágico, o Cômico, o Sublime, que são categorias objetivas, presentes na própria obra de arte. A obra possui, em si, qualidades que a definem. No entanto, a percepção e o sentimento dessa beleza dependem da experiência subjetiva de quem a contempla. Assim, a obra de arte é um ponto de encontro: ela carrega uma beleza objetiva em sua estrutura, que por sua vez ilumina e é iluminada pela subjetividade do leitor. Por isso eu diria que a obra da Flávia tem elementos que sabemos que são, digamos, universais e podemos apreciar a sua beleza. Ao mesmo tempo é uma obra que conversa diretamente com a minha subjetividade, mesmo eu sendo homem e a obra sendo o relato de uma viagem de duas garotas. Mas esse é um dos poderes da Literatura que nos faz viajar.

    A própria autora do livro o define como uma tragédia moderna. Mas antes de analisarmos a obra, o que é uma tragédia clássica na perspectiva de Aristóteles? Para ele, a tragédia é a imitação (mimesis) de uma ação de caráter elevado, completa, que, através da representação de atores e não da narração, suscita a piedade e o terror, levando à catarse, ou seja, à purificação dessas emoções. Segundo Ariano Suassuna, o “Trágico” é uma dessas essências estéticas, válida para todos os tempos, presente na obra de arte “Tragédia”. E o protagonista da história, também não é um homem comum, é um herói, tem um caráter excepcional, uma “alma grande”. Ao mesmo tempo, não é um deus perfeito, nem um vilão, é um meio termo, como por exemplo o Édipo. E por fim, temos o elemento de um “erro trágico” (hamartia), que é uma falha de julgamento ou ignorância que desencadeia uma catástrofe.

    É importante fazer uma observação: a teoria sempre vem depois da obra. Então, quando Aristóteles propôs esses pontos, ele tinha feito a análise de todos os livros de sua época. Neste sentido eu diria que a reconstrução da tragédia proposta por Flávia foi excepcional. Nós não temos mais a ideia daquele herói representante de todos; ao contrário, temos a representação de pessoas comuns, Alice e Bárbara. Alice é rica. Bárbara é pobre. São duas classes sociais sendo representadas que, de forma moderna, são sim heroínas de suas classes.

    Aqui, podemos adaptar a ideia de “homens superiores” de Aristóteles. Não se trata mais da representação de nobres, mas da representação do que acreditamos. Quando uma obra consegue mostrar o que acreditamos de verdade, com toda a nossa complexidade e contradições, essa é uma representação superior. É difícil uma representação genuína, pois vivemos numa sociedade que julga o tempo todo, e você sempre irá desagradar alguém e algum grupo. A coragem de uma obra está em buscar essa verdade, mesmo que incômoda.

    Alice e Bárbara representam dois universos distintos: uma é rica, a outra, pobre. De maneira contemporânea, ambas são heroínas de suas respectivas classes sociais. Bárbara, cheia de atitude e determinação, conquista uma bolsa para uma faculdade prestigiada, onde conhece Alice, herdeira de um mundo privilegiado.

    A primeira cena já anuncia a tragédia. Durante o trote universitário, ambas são humilhadas por veteranos. Quando Bárbara é forçada a ficar de quatro para desvendar um enigma sobre cinema, Alice vê a oportunidade de salvá-la, sussurrando a resposta em seu ouvido. Esse momento revela o desejo profundo de redenção da protagonista – ela carrega a culpa de ser rica. Como não se sentir culpado em um mundo em que existe uma desigualdade tão extrema?

    A vida de Alice é monótona. Um namorado medíocre, nenhuma emoção verdadeira. Ela busca algo diferente, uma aventura? Sentir-se especial, não por seu berço rico, mas por suas escolhas. Surge então o incidente incitante da história: Alice planeja uma viagem ao Camboja e à Tailândia, sem luxos, para conhecer o outro lado do mundo. Convida Bárbara e se oferece para pagar tudo.

    O livro nos dá pistas de que algo acontecerá, ao mesmo tempo que oferece esperança de um desfecho menos trágico. Quando chegam ao destino, sozinhas, são levadas em veículos precários até uma pousada afastada do centro, repleta de homens trabalhando. Sentem medo, mas estão cansadas demais para procurar outro lugar. Na recepção deserta, apenas um homem confirma a reserva. Elas tentam dizer que houve engano, mas aqui vemos novamente a falha trágica de Alice representada por seu desejo de redenção, de se livrar da culpa de ser uma menina rica da zona sul carioca. Ela quer acreditar no melhor das pessoas e cai na conversa de Arum, que se desculpa, dizendo que estão em obras, que o Booking enviou informações erradas e que esperavam a chegada delas na semana seguinte. Alice acredita.

    A narrativa se desenvolve para que nos identifiquemos com as personagens. Alice perde o celular ao ajudar uma menina, acreditando em sua inocência. As duas acabam em uma pizzaria onde homens as olham como objetos sexuais, causando desconforto. Saem rapidamente.

    Finalmente chegam à Tailândia, e a falha trágica de Bárbara é revelada. Ela tem uma necessidade patológica de ser amada e desejada por homens, submetendo-se a qualquer situação por eles. A tragédia se anuncia e intensifica. O leitor já deve imaginar o que está por vir.

    No resort tailandês, são surpreendidas negativamente pelo estabelecimento ser muçulmano e não vender bebidas alcoólicas. As ações se intensificam para chegar ao clímax. Bárbara aprofunda seu desejo de ser desejada, e Alice reforça sua necessidade de ser salvadora, de se redimir pela culpa de ser rica. Ambas são abordadas por um homem sempre ao telefone. Sem desconfiar, por conta de suas falhas trágicas, são levadas a uma festa, usam drogas e se relacionam com ele. No final, acontece a desgraça imaginável, mas previsível. As duas finalmente se tornam iguais na submissão aos homens.

    É uma tragédia – algo ruim precisa acontecer, e nada poderia ser pior hoje que a violência contra as mulheres. O livro, embora fale com as mulheres, ensina a nós, homens, sobre nosso lugar de privilégio. Quando saio às dez da noite, sozinho, meu único medo é ser assaltado. As mulheres não têm esse “luxo” – para elas, o medo é sempre pior.

    Apesar das tragédias que retrata, não considero o livro pessimista – ele expõe fielmente a realidade da nossa sociedade. Esta semana, a vida imitou a arte da forma mais brutal possível: um “coach de masculinidade”, ícone de movimentos que pregam a suposta superioridade viril e a submissão feminina, foi preso por agressão e tentativa de estupro contra a própria companheira. Esse episódio não é uma exceção, mas a confirmação da estrutura que a obra de Flávia denuncia. Um mundo em que se violentam as mulheres sistematicamente, transformando a intimidade — que deveria ser refúgio — em cenário de terror. A mentalidade Red Pill, que pune o feminino na vida real, é a mesma força invisível que arrasta as personagens do livro ao abismo, provando que o ódio à autonomia feminina não é apenas recurso narrativo, mas tragédia cotidiana e palpável.

    Isso não significa que devamos permanecer assim ou que estejamos fadados a esse destino – precisamos mudar. Mas essa é a realidade atual, e como lidamos com ela? O que podemos fazer? Como combater efetivamente as desigualdades e a violência contra a mulher? Confesso que é muito mais fácil culpar o sistema e dizer que é um machismo estrutural e que é assim mesmo, e não questionar meu chefe quando ele divide as tarefas e deixar a parte de secretariado para as mulheres, ou quando minha esposa, mesmo cansada nota o lixo fedendo que eu deveria ter notado quando cheguei em casa e não notei, ou ficar calada quando a objetificação das mulheres bate na sua cara. Ler esse livro me fez pensar que não basta não ser o monstro. Às vezes, o silêncio é a forma mais covarde de ser cúmplice.

    Na minha análise e experiência de leitura, este livro alcançou excelência literária. Fechei o livro com raiva. Raiva da Flávia por me obrigar a enxergar o que finjo não ver todo santo dia na rua. Raiva de mim por nunca ter escrito nada com essa honestidade brutal.

  • #0043 Não é sobre resultados, é sobre pessoas

    #0043 Não é sobre resultados, é sobre pessoas

    É muito bom quando finalmente chegam os nossos primeiros leitores. Não sejamos hipócritas, se escrevemos e publicamos é porque também desejamos ser lidos. Só que também não podemos deixar de esquecer que essa é uma emoção que alimenta apenas o nosso ego. E o ego não é nós. Portanto, é uma emoção que logo se esvazia. E se você não se observar, você pode começar a produzir tão ferozmente usando IA que não se reconhecerá mais nos seus próprios textos e só sentirá satisfação quando ver números inflados de suas próprias publicações, novos assinantes, curtidas, etc, tudo aquilo que simplesmente não existe no mundo real. Sabe o que existe? Você conseguir olhar para uma pessoa que leu um texto seu e disse que agregou em sua vida e mudou, isso não tem preço.
    Não me leve a mal, métricas são importantes, mas elas não são substância, elas são adjetivos que ornam o seu texto. Eu espero que você ainda se mantenha escrevendo, eu sei que a IA já escreve melhor que a maioria dos seres humanos, mas por mais que ela faça um texto para você, não pode escrever um texto seu. Você deveria usar ela como uma ampliação de suas capacidade cognitivas e não se deixar ir às cegas por ela. Ethan Mollick cita um estudo que mostra que quanto melhor uma IA, tendemos a delegar cada vez mais nossas capacidades para ela, copiando e colando suas respostas, como se estivéssemos num piloto automático. Escrever para mim é uma jornada de me descobrir como ser humano e isso jamais poderia ser delegado para uma IA.
    Mas há pessoas que se descobrem por outros meios e talvez para ela faça sentido delegar para a IA a escrita. Precisamos pensar sobre o que nós vamos deixar de fazer. Cada coisa que deixamos de fazer, que deixamos de doar, também deixamos de viver. Cada tempo economizado é um tempo de vida, mas a vida é também gastar o tempo e viver os problemas, pois nunca seremos imortais.
    Esses dias encontrei uma amiga que me disse algo que acalentou meu coração. Ela me disse que leu a minha crônica #0034 e que aquilo a fez lembrar do budismo, e mais que isso. A partir disso ela foi buscar novas referências. Isso para mim é o tudo. Saber que contribuí, mesmo que 0,1% na vida de alguém é infinito.
    E fazer isso só é possível quando eu mantenho uma constância, mesmo quando ninguém me lê. Você já ouviu falar do efeito regressão a média? Li isso na primeira vez no livro: “Rápido e Devagar” do Daniel Kaleman, neste livro ele nos ilustra essa metáfora por meio de campeonatos de golpe. Imagine um golfista profissional que tem um primeiro dia de campeonato espetacular, muito acima de sua média habitual. Ele acerta tacadas improváveis e termina com uma pontuação excepcionalmente baixa. A tendência natural, e o que a regressão à média prevê, é que no segundo dia seu desempenho seja um pouco pior, mais próximo de sua média de longo prazo. Isso, não é porque ele ficou arrogante ou relaxou, mas porque o primeiro dia foi uma combinação de grande habilidade e uma dose significativa de sorte. A sorte é inconstante, mas a habilidade permanece. Da mesma forma, se um golfista tem um dia desastroso, muito abaixo de sua média, é altamente provável que seu dia seguinte seja melhor, “regredindo” para o seu nível de desempenho normal. O erro comum é atribuir essa flutuação a causas complexas, quando na verdade é apenas a estatística em ação: desempenhos excepcionais, tanto bons quanto ruins, raramente se repetem em sequência, pois tendem a voltar para a média. Portanto, quanto mais você escreve, maior a chance de você melhorar sua habilidade de maneira geral, e como um bônus espetacular, você se conhecerá melhor. Algo é mais valioso do que isso?
    E quando você conquista seus primeiros leitores é quase como se você encontrasse seus amigos. Eu sei que as redes sociais nos dão a ilusão de que temos milhares de amigos, por meio dos stories achamos todos os detalhes sem nunca trocar um abraço. Agora quando conseguimos juntar o afeto físico, com quem lê um texto seu. Agora quando conseguimos juntar o afeto físico com um afeto de afinidades é quase certo que estamos falando de amor, não paixão, trocas de fluídos, e todo o amor que você já conhece como romântico, não é isso. É amizade.
    Você não vai conseguir amar muitas pessoas. Para você amar, você precisa conhecer, você precisa doar um pouco de você, dando carinho e afeto, e claro, você também precisa receber. E isso não é algo que se faz com mil pessoas, você pode contar nos dedos todos aqueles que você consegue fazer essa troca.
    Minha ideia não é trazer fórmulas, mas dizer que você deveria escrever mesmo que ninguém mais fosse ler.

  • 0042 Por que todos nós achamos que temos a solução para os problemas do Brasil?

    0042 Por que todos nós achamos que temos a solução para os problemas do Brasil?

    Imagine um jovem que nunca nem namorou, apontando erros no relacionamento de 50 anos de seus avós. Na ciência, isso tem nome: efeito Dunning-Kruger.

    Os pesquisadores David Dunning e Justin Kruger se inspiraram em um bizarro caso criminal ocorrido em 1995. McArthur Wheeler assaltou dois bancos em plena luz do dia, sem máscara, mas com o rosto coberto de suco de limão. Sua lógica era que, como o suco de limão pode ser usado como tinta invisível, ele o tornaria invisível para as câmeras de segurança. Ao ser preso, Wheeler expressou total incredulidade, murmurando: “Mas eu usei o suco”.

    Em 1999 os pesquisadores publicaram o artigo: “Inábil e inconsciente disso: como as dificuldades em reconhecer a própria incompetência leva a autoavaliações infladas” isso é um duplo fardo que faz com que o indivíduo fracasse e não saiba os reais motivos que o levaram ao fracasso como no caso citado.

    Além disso, indivíduos incompetentes, quando comparados aos seus pares, tendem a se acharem melhores e mais valorizados que os indivíduos competentes. Os estudos não fazem um recorte por gênero, mas a experiência prática nos mostra que mulheres competentes sofrem uma insegurança muito maior que homens. Mas existe o outro lado, quando não sabemos que não sabemos, achamos realmente que sabemos de algo.

    Vamos extrapolar para política e economia. Nós entendemos o básico, mas acreditamos que, nós, alecrins dourados, sabemos a solução para tornar o Brasil uma superpotência. A razão de acreditarmos nisso é óbvia: não estudamos o suficiente para poder saber tudo aquilo que desconhecemos sobre o funcionamento do mundo.

    Infelizmente, as tecnologias tendem a intensificar nossas qualidades e defeitos, e, nesse sentido, as redes sociais potencializam a nossa ignorância. Elas nos deixam mais ansiosos, e agora encontramos um novo canal no YouTube, maratonamos e já nos sentimos especialistas naquele tema.

    Isso aconteceu comigo. Nós vamos passando tempo atrás das telas, e confiando nos nossos especialistas de estimação. E eles também estão suscetíveis a tudo que falei, e como são humanos, uma hora falham. Comigo aconteceu, quando percebi, compartilhei um vídeo muito bem argumentado, mas que era apenas uma superficialidade sobre determinado tema, baseado em ideias do especialista e se passando por ciência da mais alta curadoria. Precisamos tomar cuidado para não reproduzirmos exatamente aquilo que tanto criticamos.

    E sabe quem sabe disso perfeitamente? As plataformas. A geração Z prefere usar as redes sociais para buscar conhecimento, isso tem uma consequência, faz com que os vídeos que o algoritmo indiquem sejam sempre carregados de emoção, muitas vezes são descontextualizados e são diversos, impedindo que você consiga se aprofundar e descobrir a sua ignorância sobre o tema.

    Não bastando apenas isso, nós como humanidade ainda criamos uma ferramenta ainda mais poderosa, as IAs conversacionais que falam para nós tudo aquilo que queremos ouvir. Então, vivemos o ciclo, recebemos informação descontextualizada e resumida de um lado, confirmamos e nos aprofundamos com a IA. E no fim, ficamos infelizes acreditando saber onde está a insatisfação, mas sem ver qual o problema de fato. Vivemos o gráfico:

    Mas isso não é algo contemporâneo, seria ótimo se fosse contemporâneo, a solução seria simples, não é? Desligar as máquinas. Seria fácil se fosse assim. Você já deve ter ouvido falar da soberba. Temos uma criação cristã em que somos apresentados aos sete pecados capitais, sendo soberba um deles.

    Se você joga no google “soberba” terá a definição de que é um sentimento de superioridade, orgulho, arrogância, onde a pessoa se considera melhor que os outros podendo se manifestar em comportamentos como prepotência e desprezo. Segundo a tradição católica, a figura do demônio caiu diante de Deus por ser soberbo e achar-se como a criatura mais poderosa que o próprio criador. Não sei se seria essa a nossa soberba, em acreditarmos que por vermos vídeos de 30 segundos de redes socais, sabemos mais que os especialistas, que muitas vezes passaram a vida estudando determinado tema.

    Claro que não nos aprofundamos em questões importantes sobre o tema estudado, na verdade, utilizamos do método científico para justificar a dúvida sobre os temas que não conseguimos entender por falta de estudo, tempo, e limitação de nossos sentidos. A quantidade de informação que existe no mundo não tem como ser suportada por qualquer ser humano. Cada especialista na verdade estuda a fundo um fragmento de determinado tema, enquanto nós, restante, não estudamos a fundo nenhum tema, mas berramos opiniões sobre tudo.

    Fugindo um pouco da mitologia cristã, o mito de Ícaro é uma história interessante. Dédalo era um grande engenheiro de Atenas e foi capturado pelo rei de Creta, que construiu uma torre para ele, deixando-o preso para que ele pudesse construir máquinas de guerra. Dédalo teve um filho, chamado Ícaro, que nem se lembrava de Atenas, mas morria de vontade de conhecer a cidade do pai, pois foi criado escutando as histórias de como era gostoso morar em Atenas. Então Dédalo quebrava os seus neurônios pensando numa forma de conseguir escapar da torre.

    Dédalo confabulava uma forma de escapar, mesmo que eles conseguissem porventura escapar da torre e pegar um barco, ainda assim, seriam facilmente alcançados pela marinha de Creta, sendo obrigados a voltar ou até mesmo a perder a própria vida. Até que um dia ele teve a ideia, pediu então penas e cera para o Rei, que não viu nenhum problema e o destinou. Um dia, à meia noite, ele levou o filho para o alto da torre, onde mostrou as asas que havia construído e testaram, voaram, voaram, e depois voltaram.

    Finalmente combinaram o dia da fuga e foram para o topo da torre, onde Dédalo deu as instruções muito claras para Ícaro, que ele não deveria voar muito alto, pois o sol iria derreter a cera, ou voar muito baixo, pois as ondas iriam molhar as penas, e as asas ficaram pesadas demais para que ele pudesse continuar voando. Partiram, e o pai instruiu Ícaro, que por vezes ia baixo, e o pai gritava: “Ícaro, voe mais alto!” e ele ia. Foram indo assim, até que Ícaro sentiu uma corrente de vento mais forte e subiu. Quanto mais alto ele voava, melhor o esforço, mais rápido e mais relaxado ficava. Foi indo cada vez mais alto, e já não escutava os gritos do pai, tão alto que a cera começou a derreter. Já era tarde, caiu.

    A lição é desenvolver a humildade de ouvir. Ícaro é o “alecrim dourado” original, o jovem que, embriagado pela própria experiência e pela altitude, achou que sabia mais que o engenheiro que construiu suas asas. Nós somos Ícaro. Com as asas da internet e das redes sociais, subimos ao pico do “Monte da Estupidez” e, lá de cima, com a visão turva pelo excesso de confiança, não vemos nem a cera de nossas asas derretendo. Não percebemos que os gritos de Dédalo — a voz dos dados, da ciência, da complexidade histórica — nada disso chega até nós. A queda, portanto, não é apenas individual. É a queda de um país inteiro no mar da polarização e das soluções fáceis, porque, como sociedade, ainda não aprendemos que o primeiro passo para consertar um problema complexo é admitir que não sabemos o suficiente para resolvê-lo sozinho.