Categoria: Crônicas

  • #0048 A linha de chegada

    #0048 A linha de chegada

    Todos dizem que viagens nos mudam, que uma viagem internacional então te transforma em um outro ser humano. Sempre duvidei disso. E por um motivo simples, não é sobre o lugar, paisagens, status ou qualquer outro resultado possível, em que o seu cartão de crédito possa comprar. Quando você compra essas experiências você também ganha alguns likes, e até mesmo começa a acreditar que seus seguidores sentem felicidade com sua felicidade. Não poderia ser tão diferente. Não me leve a mal, algumas pessoas até ficam mesmo, mas a maioria está fudida no emprego, ralando o suficiente para não ter que faltar alimento na mesa, mas já ganham o suficiente para pensar, e sentir raiva de tudo que poderiam ter e não tem. E elas se encontram num abismo que não tem nenhuma possibilidade de em algum momento da vida desfrutar daquilo que é a sua realidade. Então, vamos relevar essa inveja e esse ódio.
    Quando viajamos é como se nós nos permitíssemos olhar para as pessoas ao nosso lado. É em momentos assim, que sendo adultos, nos permitimos formar novas amizades e fortalecer nossos vínculos existentes. Viagens não nos mudam, mas as pessoas nos mudam.
    Nas duas últimas viagens que fiz, fui honrado pela vida com o privilégio de conhecer duas novas pessoas, sendo que uma delas foi madrinha do meu casamento. Como assim, Aranha, você não conhecia a madrinha do seu casamento? Eu conhecia alguns adjetivos que a descreviam, como por exemplo, sua profissão, seu temperamento, e aspectos que mais ornam do que de fato definem. Acredito que conhecer é conseguir juntar elementos desde adjetivos que ornam, até substantivos que definem. Sim, eu acredito que existe algo dentro da gente imutável e perene que faz sermos quem somos. Você também acredita que existe algo dentro da gente que nos substantivam? Por meio das histórias que soube de sua vida, da madrinha do meu casamento, eu pude sentir que a conheço, e assim, digamos que pude amá-la pela primeira vez.
    Quando estávamos com ela, eu a vi viver todos os instantes que eram possíveis a ela viver. Sendo ela paciente terminal de câncer, sabíamos que aquela poderia ser a última vez que nossos corpos estariam juntos. E ela era rapidinha, você piscava ela já estava em trânsito para outro local, outra conversa, outra coisa. Quando chegamos em sua casa, com nossas roupas sujas ao final de uma viagem intensa por uma parte da Europa, num piscar de olhos, ela pegou essas roupas e colocou tudo na máquina para lavar. E quando juntou todas as roupas, inclusive uma rosa, que foi presente de aniversário de minha esposa, e batendo numa máquina diferente, acabou manchando. Hoje, escrevendo esse texto, lembro de seu jeito frágil, mas firme, que nos mostrava: não há tempo a perder, e às vezes as manchas precisam aparecer, e a mancha na camisa que estou também vestido hoje me lembra isso.
    Aprendi com ela que não é sobre pressa, é sobre ser rápido. Não é sobre ansiedade, é sobre intensidade. Não é sobre bens materiais, é sobre histórias.
    Depois disso, quase pedi demissão. Não conseguia mais ver o sentido num emprego que não fosse para mudar o mundo, eu não via que qualquer coisa muda o mundo todos os dias. A morte veio diante dos meus olhos, e junto com ela a lembrança que uma hora será a minha vez. E até isso acontecer, que escolhas vou travar em minha vida? Como vou viver intensamente?
    Mas sem dúvidas o que ficou martelando em minha cabeça quando voltei, até porque eu ando de moto (e vocês sabem a quantidade de motoristas que não conseguem esperar chegar em casa para responder uma mensagem no celular) então a qualquer momento eu posso morrer, ou melhor, ser assassinado. Você pensa, mas por que então você anda de moto se tem esse risco? Viver é um risco. E a maior lição, foi essa, é para viver intensamente, não parar de viver. Andar de moto é diferente, é sentir a Terra como de fato ela é. Eu sabia o que não era viver intensamente, mas ainda não havia descoberto o que era.
    Durante um período significativo da minha vida, fui vítima do que chamo, do burguês herdeiro. Como não era possível eu renascer, sendo agora herdeiro de uma grande fortuna, restava trabalhar uma vida inteira, para quem sabe, um dia ter proventos suficientes para conseguir a tão sonhada independência financeira. Você usaria o sistema que te usa para receber algumas migalhas dele e então ter uma vida plena. Mas nós morremos.
    E não digo apenas quando sofremos um acidente e temos nosso corpo incinerado ou enterrado. Eu falo da morte da alma. Todos os dias quando não somos coerentes com o substantivo que nos define, nós morremos. E a morte se manifesta de maneiras diversas. Há vezes que sinto um pânico absurdo ao sentar na cadeira e ligar meu computador para mais um dia de trabalho. Há vezes que acordo sem ar às 4 da manhã suado, e me lembro que mais tarde eu terei que fazer uma demanda sem sentido nenhum para dar a parte da minha alma para as engrenagens do sistema gerar. Há vezes que entro compulsivamente em sites de promoções e compro milhares de livros que nunca vou lê. E claro, há vezes que só vou para o banheiro e choro baixinho, pra ninguém escutar e eu poder voltar e dizer que está tudo bem. E todas as vezes, o coração acelera e o pânico no peito é constante, é como se não houvesse ar.
    Durante um tempo significativo me enganei, dizendo que era necessário, que eu precisava comer. E de fato, preciso de proteína, um lar, tranquilidade, plano de saúde, tudo o que a nossa constituição garante a dignidade da pessoa humana, que sabemos que só é possível, no Brasil, se você não for herdeiro, só se você trabalhar. E então podemos escolher, tranquilidade do tédio de um trabalho chato, ou a vida e os riscos de você se tornar uma não pessoa, sem recursos, sem saúde, sem direitos. E eu como um bom cidadão resignado, sempre escolhi o lado óbvio, o lado mais seguro, o lado menos divertido, o lado menos glamouroso.
    A minha segunda lição é relacionada ao aprendizado, um tanto quanto óbvio sobre o que é viver com intensidade. Muitas vezes em nossa vida, nós não conseguimos identificar os problemas. Por exemplo, quando vivemos uma vida sem intenção, nós sentimos a dor, como se um ácido corroesse nossos olhos e não pudéssemos mais ver a beleza do mundo. É doloroso, mas não conseguimos ver as verdadeiras causas, e continuamos sofrendo as consequências disso.
    Muitas vezes associamos os significados de uma maneira completamente equivocada, como se viver uma vida intensamente fosse na verdade curtir. Mas o curtir como algo bem específico, como a realização de todos os desejos da carne de seu corpo. Nem questionamos que uma vida dedicada a festas, drogas, relações sem responsabilidade afetiva, nos trazem prazer e dor. E significamos isso como sofrimento.
    Falei sobre tudo o que não é intensidade, mas não consigo ainda definir, consigo relacionar, e intensidade tem a ver com pessoas. Em nossa segunda viagem, fomos a Morro de São Paulo, na Bahia, e lá conhecemos uma pessoa que nos ensinou sobre as relações de intensidade.
    Como gostamos de chamá-lo, nosso nativo. Em nosso primeiro encontro ele nos mostrou o desprezo pelo dinheiro, que gostava de uma vida simples, e se via como aquela parábola do empresário e o pescador:
    “Um pescador descansava à beira do mar, apreciando a brisa suave depois de uma manhã de pesca. Um empresário muito rico se aproximou e perguntou:
    — Por que você não trabalha mais? Se pescasse todos os dias, ganharia mais dinheiro, poderia comprar mais barcos, contratar pessoas, montar uma grande empresa…
    O pescador, curioso, perguntou:
    — E depois?
    — Depois você ficaria rico, poderia se aposentar e aproveitar a vida!
    O pescador sorriu e respondeu:
    — Mas eu já estou aproveitando a vida agora.”
    Nós pensamos que para fazermos algo, qualquer coisa com significado, precisamos de muito dinheiro. Achamos que só os ricos podem aproveitar a vida de uma maneira plena. Nosso amigo trabalhava um ou dois dias na semana, e aproveitava o restante, tinha uma casa, verdade, mas o que ele mais tinha era sua liberdade.
    Ele aproveitava a vida aprofundando suas relações, sem medo de dizer um eu te amo.. Sem medo de se entregar, sem dúvidas de sua masculinidade. Quantas vezes não deixamos para depois aquilo que realmente desejamos fazer? O que estamos buscando afinal?
    Nós somos quem atribuímos todos os significados, todos. Então, a ilha existia, a natureza, as casas, o sol, o por do sol, tudo. E todos os significados, seja ver um por do sol sentado na calçada, ou ver um por do sol numa festa que custa 200 reais a entrada, serão feitos com a nossa mente. Nós esquecemos que o poder de construir os significados da nossa existência vive dentro de nós.

  • #0047 Por que você não suporta a ceia de Natal com seus parentes?

    #0047 Por que você não suporta a ceia de Natal com seus parentes?

    E te adianto, não é porque eles votaram no Lula ou no Bolsonaro.

    Todos os parentes são iguais. Mas família, esta é única. Parentes são todos aqueles que carregam o seu sangue, mas não conhecem sua alma. Seus familiares podem ou não carregar o seu sangue, eles nutrem afeto por você. Quando você sentiu medo, foi no calor de seus colos que você se sentiu acolhido. Muitos de nossos familiares são nossos amigos, mas também existem alguns parentes que podemos chamar de família.

    Mas para que possamos construir uma família, precisamos de tempo e ação. O sangue do meu sangue não me garante nenhum afeto. O sangue do meu sangue não me deve nada. Existem mais de 11 milhões de mães solo no Brasil, e não precisa ser nenhum gênio para saber que um pai ausente é simplesmente um parente. Todavia, não são somente os pais e aquele tio, que você só encontra nos natais e nos velórios, e você nem se lembra direito o nome dele. E os filhos deles, que são primos tão distantes que é como se nunca nem tivessem existido. Claro que vai existir uma comparação, toda família tem um primo rico, marginal, não padrão e padrão. Comparações essas que só servem para tentar diminuir o que você é. Te pergunto: qual o tempo que vocês tiveram juntos? Qual a ação que eles fizeram para construir um afeto no seu coração?

    Imagine um mundo em que o amor não é construído; que não exige cuidado e sacrifício. Tudo seria mais simples, não é? Nós então poderíamos sentir carinho e amor por aqueles fantasmas, que quando perguntam falam: e as namoradinhas? E os concursos? E a faculdade? E eles não tem um tempo para olhar suas redes sociais, mandar uma mensagem, saber como você está? Não. Nesta situação você é apenas um objeto. Um objeto.

    Ainda assim, você também possui sua responsabilidade. Você conhece os sonhos do seu tio? Acha mesmo que ele gostaria de estar tentando puxar assunto com todo o repertório que possui? O tio bolsonarista? O tio do pavê? Você realmente acredita que ele sentiria prazer ao receber chumbo num campo de fuzilamento? Você não acha que ele apenas reproduz algo que considera necessário para um mundo melhor? As coisas são construídas, ou só são quando a narrativa te favorece? Uma relação pressupõe no mínimo duas pessoas, logo a distância entre vocês pode ser percorrida por ambos os lados. Então, de quem então é a obrigação? O primeiro passo? Meu dever é tentar trazer algumas perguntas e não respostas, mas já parou para pensar tudo o que vocês têm são esses natais e que em breve acabou? Acabou. Ambos morrerão e nenhum conhece além do outro.

    Quem deve dar o primeiro passo? É uma pergunta que não me atrevo a responder. Existe uma linha muito tênue entre você dar o primeiro passo e você ser um trouxa tentando costurar uma relação que não existe. De toda a forma, esta não é uma questão que envolve suas percepções, o que de fato você sente acerca de tal relação, pois há vezes que ser uma pessoa trouxa é o único caminho que vai te trazer uma paz anterior. Mais uma vez trago perguntas e não respostas.

    Quando penso em questões tão complicadas, lembro que posso contar nos dedos as pessoas que de fato me conhecem. Ainda existem aquelas que possuem o meu afeto, mas também não me conhecem. Se nem eu sei exatamente os motivos que me levam a tomar minhas decisões, eu também me conheço? Em certa medida, temos a finitude de nossas vidas e as atitudes para tentar montar o quebra-cabeça do que nós somos. Mas ainda assim, tudo o que temos é a história do que somos, não de fato o que somos. Quando olhamos para isso, é possível vermos que qualquer tentativa de nos definir tem como consequência a transformação de nosso ser em um simples objetivo definido. Por mais que a história de nossas escolhas contenha peças finitas, o arranjo delas é algo infinito. Reduzir o infinito é reduzir um ser a um objeto. Então, até mesmo os meus afetos familiares mais íntimos só podem ver uma pequena fração de tudo o que sou.

    Se até mesmo nossos afetos mais íntimos não nos conhecem, de verdade, então por que nossos parentes distantes, mesmo sem nos conhecer, geram então em nós uma repulsa?

    Eles não pertencem ao nosso grupo. Nós, seres humanos, temos uma necessidade de pertencimento. É fácil observarmos o motivo de pertencermos, nós precisamos de grupos para sobrevivermos. Com a globalização nem mesmo um país inteiro consegue se manter sozinho, necessitando de insumos de outros países, formando uma verdadeira cadeia de suplementos, quem dirá nós que sozinhos morreríamos sem mesmo saber pedir por comida. Então é algo muito natural que o grupo seja como uma entidade para todos nós.

    Mas seria uma completa ilusão acreditarmos que formaríamos um grupo grande, coeso e uniforme. Seria talvez quase tolo. Durante muito tempo, o grupo que regia todas as regras detinha todo o poder, esse era o grupo dos homens. Para descrever todos os grupos, seria necessário um verdadeiro tratado sobre a existência humana, e, definitivamente, não tenho pretensão e nem qualificação para tamanha ousadia, então irei parar por aqui. Basta entendermos que, ao pertencer a um grupo, nós nos apaixonamos por ele. Paixão é um termo adequado, segundo o dicionário, paixão é também “Disposição contrária ou favorável a alguma coisa, que cega e impede a razão; fanatismo: Há certas religiões que desenvolvem nos seus seguidores uma enorme paixão.” Tive uma professora que costumava dizer que paixão está mais para a doença que para o amor. Enfim, nós nos apaixonamos pelo nosso grupo, ao ponto de dizermos que todos os outros não fazem parte do nosso grupo porque não estudaram e, por isso, não têm a capacidade de ver a verdade que apenas o nosso grupo vê.

    Obviamente, nosso grupo é o único que é o certo, se não fosse assim, você nem participaria do seu próprio grupo. Os outros grupos são os vilões, logo o seu tio é um vilão, ele representa o mal. Esquecemos que, mesmo numa estrutura patriarcal capitalista, os privilégios que os homens recebem não anulam o sofrimento que a estrutura causa a eles. Não precisa ir longe: 90,2% das mortes violentas foram sofridas por homens (dados de 2024), sendo a maior parte de homens pardos e negros. Mas vamos voltar aos grupos: o outro grupo, então, não compartilha a mesma visão de mundo que a nossa; eles, portanto, não são dignos de debate. São apenas violentos, nem sequer são seres humanos.

    Se você tivesse a curiosidade de conversar com alguém de direita e conseguisse ouvir, provavelmente se surpreenderia, ou não, depende com quem você conversará. Existe uma superficialidade dentro da conversa, mas quando nós conseguimos avançar um pouco, entra dentro de algumas questões, descobrimos mais coisas em comum que diferenças, mas para isso é preciso conversar como se você tivesse algo a aprender com a pessoa, caso contrário você só vai confirmar suas crenças, reproduzindo a objetificação daquela pessoa, desconsiderando a existência dela.

    Os outros também acham que vivemos num sistema injusto. Detestam também que uma pequena elite controle quase tudo. Mas a conclusão deles é completamente oposta à sua. Para eles, a solução não é darmos o poder ao proletariado, longe disso. Esse é o maior temor deles. Eles acreditam, sim, acreditam, que o patrão e o mercado vão ajustar as injustiças, magicamente. Dizem que o problema do Brasil não é ocasionado por anos e mais anos de exploração e escravização de seres humanos com a concentração dos recursos na mão de minorias, não. O problema é que existe um Estado muito grande, que custa caro e sufoca os pequenos empreendedores, que são eles que fazem o Brasil ser uma potência. Já você acredita que, ao acabar com a desigualdade social e fornecer bem-estar social, os problemas do Brasil desapareceriam. Essa é a missão da Caixa, mas te pergunto: você usa Caixa ou Nubank? Talvez você argumente que a Caixa sofre com um sucateamento proposital, que o Estado, na verdade, não foi controlado por um governo de esquerda nos últimos 19 anos, argumentando que o poder do executivo concentra-se com o legislativo, ou seja, o centrão. Mesmo que o Nubank tenha sido criado por duas pessoas e atualmente tenha 8 mil empregados, contra 88 mil diretos da Caixa, mais 230 mil de pessoas prestando serviço por meio de lotéricas; e, por mais contra intuitivo que seja, ambos os bancos investem valores semelhantes em tecnologia da informação (você pode obter essa informação lendo o balanço do Nubank e lendo os editais das licitações da Caixa, ambas as empresas têm seus balanços públicos). E, claro, o outro grupo vai dizer que o setor público é sempre ruim, e que pra melhorar basta privatizar, mas será mesmo? Qual a resposta? Qual a solução? Será que não estamos apenas olhando a superfície de algo infinitamente mais profundo? Como você já sabe, meu dever é trazer questionamentos e não respostas. Eu não tenho insumo e nem capital intelectual para conseguir descrever os motivos do mundo ser como é, apenas observo o mundo e tento me adaptar.

    Então, o problema é simplesmente o outro grupo? Isso é um espectro. Há momentos em que você estará tão fechado com o seu grupo que qualquer um que é divergente por si só já é digno de ser morto. Por exemplo, como podemos lidar com pessoas que são fascistas, supremacistas, e cuja existência coloca a nossa existência em risco? É um paradoxo, pois, se formos gentis com eles, iremos desaparecer. Então, qual é a solução? Mais uma vez, apenas me reservo o direito de questionar, trazendo perguntas. Arrisco-me a dizer, baseado no Naruto, que a solução não é a violência. Existe a chance de você ser um radical que já pensou que quem discorda de você merece a morte? E não quem realmente comete crimes? Se você é um radical, com certeza, eu não sou pra você.

    Baseado em minha experiência pessoal, vejo que os radicais são aqueles que fazem o trabalho sujo do grupo. São eles que carregam duas réguas, uma mede e critica ferozmente a doutrina do outro grupo, com a outra, ignora a realidade para confirmar as próprias crenças. O próprio grupo é digno de confiança e se torna incapaz de perceber que são exatamente aquilo que tanto criticam. De repente, todos os problemas que citamos perdem espaço para brigas de comentários nas redes sociais.

    Meu parente mais distante é aquele que cumpre todos os preceitos, se aproxima de minhas crenças, tem uma visão de mundo então parecida com a minha. Protesta quando precisa protestar, e eu poderia dizer que é do mesmo grupo que eu? Sim. Mas eu não suporto conviver com esse meu parente, ele é estúpido. Meu melhor amigo, que também carrega tais crenças, é alguém que eu poderia passar horas e mais horas conversando, trocando experiências, vivendo. Mas por ele eu nutro afeto e carinho. Então qual a diferença? Além da idade, enquanto um é da geração Z, o outro de uma anterior a minha, meu parente não me respeita, não me escuta, não me conhece e não pratica o próprio discurso, ele é vazio.

    Meu parente é do meu grupo, mas ele é incapaz de ver que o caráter dele é formado por todos os adjetivos que ele adora publicar em críticas nas redes sociais. Ele não consegue perceber que produz uma simplicidade tóxica do nosso grupo. Acredita que os outros são burros por não verem o mundo distorcido como ele vê. E o que torna impossível o convívio é o seu ar de superioridade, sem perceber que age como um robô, será que algum dia ele conseguiu questionar a si e as suas próprias crenças?

    Portanto, existem robôs por diversos lados. E a falta de humildade que carregam, humildade no sentido de serem incapazes de aprender com pessoas do outro grupo, tornam elas pessoas insuportáveis, que nós carinhosamente chamamos de personalidade difícil. Mas não. São pessoas estúpidas que, na primeira oportunidade, descartariam sua existência como se jogassem um objeto quebrado no lixo. Se eu pudesse te dar um conselho, caro leitor, fuja desses parasitas.

  • #0046 Você não é homem não?

    #0046 Você não é homem não?

    Ser homem é trocar a resistência do chuveiro
    Ser homem é consertar a goteira que cai o dia inteiro
    Ser homem é trocar o botijão de gás
    Ser homem é também acreditar que somente isso te faz um bom rapaz

    Ser homem é trocar o pneu que tá furado
    Ser homem é deixar o carro bem turbinado
    Ser homem é dizer que aprendeu tudo sem manuais
    Ser homem é se sentir melhor que os demais

    Ser homem é dirigir em alta velocidade
    Ser homem é beber sem ter responsabilidade
    Ser homem é não saber onde a roupa está
    Ser homem é ligar para uma mulher e perguntar “onde é que tá?”

    Ser homem é não levar o lixo pra fora
    Ser homem é deixar que a companheira resolva agora
    Ser homem é não cuidar do próprio lar
    Ser homem é só chegar em casa e se jogar no sofá

    Ser homem é ver mulher pelada no computador
    Ser homem é alimentar a internet com o seu próprio horror
    Ser homem é gozar sozinho
    Ser homem é chamar todo mundo de viadinho

    Ser homem é ser bruto e não ter delicadeza
    Ser homem é admirar a força e ignorar a beleza
    Ser homem é não falar do que no peito sente
    Ser homem é se mostrar indiferente

    Ser homem é nunca dizer “eu te amo”
    Ser homem é reprimir o choro, viver nesse engano
    Ser homem é não sentir medo, não sentir nada
    Ser homem é esvaziar a alma, deixar a porta sempre fechada

    Ser homem é namorar e ter uma mulher
    Ser homem é se apaixonar pela mulher
    Ser homem é enfiar o pau na mulher, num gesto animal
    Ser homem é trair e mentir, achar que tudo é normal

    Ser homem é casar e explorar a esposa
    Ser homem é ter filhos e achar que é pouca coisa
    Ser homem é não deixar a mulher trabalhar
    Ser homem é proibir ela de se vestir com a roupa que ela desejar

    Ser homem é enganar, culpar, e perder a razão
    Ser homem é ficar em silêncio se afogar na frustração
    Ser homem é chegar em casa bêbado e cheio de amargura
    Ser homem é gritar com a mulher, e quebrar toda a ternura

    Ser homem é não amar, gritar, humilhar
    Ser homem é controlar, proibir, isolar
    Ser homem é apertar, torcer, empurrar
    Ser homem é arrastar, bater, acabar

    Ser homem é violentar, queimar, matar
    Ser homem é esfaquear, atirar, matar
    Ser homem é esquartejar, esconder, matar
    Ser homem é achar que não é todo homem, é se isentar

    Você não é homem, não?
    Ser um não-homem tem relação com entender que sempre foi sobre todo homem

    Ser não-homem é lavar a própria roupa
    Ser não-homem é levar o lixo para fora
    Ser não-homem é lavar o banheiro
    Ser não-homem é passear com o cachorro

    Ser não-homem é fazer um curso de serviços gerais
    Ser não-homem é saber trocar um botijão de gás
    Ser não-homem é trocar a torneira que vaza e não para jamais
    Ser não-homem é trocar a resistência do chuveiro e sentir paz

    Ser não-homem é não compartilhar conteúdo adulto
    Ser não-homem é não objetificar o corpo feminino
    Ser não-homem é respeitar o ambiente de trabalho e quem lá anda
    Ser não-homem é gozar em conjunto, numa mesma ciranda

    Ser não-homem é viver para além do sexo nu
    Ser não-homem é enxergar o outro, e não só tu
    Ser não-homem é construir a intimidade que também seduz
    Ser não-homem é fazer amor pra encontrar a própria luz

    Ser não-homem é ser delicado
    Ser não-homem é ser amado
    Ser não-homem é admirar nas mulheres o que não é só corpo
    Ser não-homem é construir junto tijolo por tijolo

    Ser não-homem é falar de sentimentos e curar a ferida
    Ser não-homem é conhecer o filho e dar boas-vindas à vida
    Ser não-homem é dizer que ama e ter a fala cumprida
    Ser não-homem é sentir medo e saber que a vida é mais que uma corrida

    Ser não-homem é namorar com a mulher e ser seu parceiro
    Ser não-homem é se apaixonar pela mulher por inteiro
    Ser não-homem é fazer amor com a mulher, ser verdadeiro
    Ser não-homem é honrar os combinados, ser bom companheiro

    Ser não-homem é se somar à mulher, sem qualquer receio
    Ser não-homem é respeitar a vida profissional da mulher e seu desejo
    Ser não-homem é admirar a escolha da roupa dela sem medo
    Ser não-homem é se responsabilizar por cada tropeço

    Ser não-homem é respeitar o seu trabalho e sua ambição
    Ser não-homem é admirar a beleza da sua expressão
    Ser não-homem é chegar sóbrio em casa e ter conexão
    Ser não-homem é ser transparente, sem criar confusão

    Ser não-homem é nunca gritar, mas buscar o acordo
    Ser não-homem é massagear seus braços e sentir seu corpo
    Ser não-homem é abrir caminho, ser seu porto e seu reforço
    Ser não-homem é se responsabilizar por cada esforço

    Ser não-homem é ajudar curar a mulher, pedaço por pedaço
    Ser não-homem é juntar os cacos desse grande estrago
    Ser não-homem é carregar a consciência desse eterno embaraço
    Ser não-homem é saber que a dívida com ela não se paga somente com um abraço

    Você não é homem não?
    Ser homem é ser não-homem.

  • #0045 Três Homens

    #0045 Três Homens

    Conto vencedor do Talentos Fenal 2016 do Distrito Federal.

    03:21.
    Bondade, Honório e Rodrigo eram três homens diferentes. Enquanto, Bondade escondia, com a corcunda, o corpo magro e pequeno, a pele negra, o cabelo crespo; Honório destacava-se com sua musculatura, honestidade e beleza física (cabelos lisos, pele branca e lisa, olhos verdes); já Rodrigo permanecia na inércia, este apenas um bom espelho poderia lhe narrar.
    5:00.
    Bondade, um estagiário, escutou o celular despertar. Cansado. Parecia que tinha acabado de dormir. Mas não existia outra escolha, era preciso acordar naquele horário, pois não poderia chegar atrasado, carecia de pegar o primeiro ônibus. Vagarosamente, foi até o banheiro. Iria despertar. Não haveria como não acordar, no meio da crise, para economizar luz, o chuveiro não aquecia. O sono, o cansaço, as pálpebras querendo fechar-se, em que lugar ele iria arrumar forças para lutar? Quando sentiu a água em contato com o corpo, a 10° C, achou que iria morrer… não, era só mais um dia como outro qualquer.
    Entre 5h e 5:30 da manhã, as paradas ficavam lotadas. Agitado. Entrou no ônibus. Estava sendo levado pelo fluxo de pessoas. Tirou o livro da mochila. Todos os dias era essa mesma batalha, todos os dias. Mas nem tudo estava perdido, durante as seis horas, que passava dentro do ônibus, estudava. De alguma maneira sabia que somente pelo estudo conseguiria romper as barreiras da realidade que o cercava.

    “IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social (…)”.

    Olhou para a quantidade de gente naquele ônibus, a ironia de seu riso interno quase permitiu que uma lágrima brotasse. A literatura da Constituição Federal de 1988 é algo esteticamente muito lindo, seus olhos brilhavam. Um baque e um barulho forte de pneu cantando, carro desalinhando, pessoas caindo. Mas, felizmente, o motorista recuperou o controle do ônibus e conseguiu estacionar.
    Todos, como porcos, foram convidados a sair. Mais uma vez chegaria atrasado. Olhou o estrago, era impossível continuar. Olhou para o buraco e sentiu raiva. Milhares de carros, e essa maldita classe não se organizava para reivindicar um asfalto descente?
    As lembranças do seu chefe começavam a atormentá-lo. Lembrava-se da última vez que este o ensinou, da pior forma possível, que o atraso não tem perdão. Outro ônibus. Teria a chance de não chegar atrasado.
    Não parou.
    Motorista, filho da puta, teria até a 14° geração da sua família amaldiçoada para todo o sempre. Um ônibus parou. Parecia um milagre, pois não estava tão lotado. Vermelho era a cor destinada às cadeiras para os idosos, gestantes e deficientes físicos. Entretanto, um garoto, quase que da mesma idade de Bondade, dormia numa delas. Indignou-se. Ao seu lado um senhor muito idoso fazia força para manter-se de pé, enquanto aquele garoto… aquele garoto…
    Calou-se.

    7:00
    Honório acordou, estava descansado. Fazia tempo que não descansava tanto. Suas estratégias finalmente deram resultado, e não qualquer resultado: estava em 1° lugar. Sua agência sozinha era responsável por 50% do resultado da Superintendência de vinculação. Sozinho fez o que as outras cinquenta e cinco agências não conseguiram fazer. Era um resultado incrível mesmo.
    Via Veneto, Brookfield, Cia do Terno, Colombo e Garbo, qual marca de terno iria usar hoje? Resolveu por Brookfield. Afinal era o de qualidade mais incrível, ceda francesa, nada melhor para aquela ocasião. Hoje iria apresentar os seus resultados, o seu mérito, a sua inovação!
    Como era mesmo o nome: Maria? Ana? Francisca? Não se recordava, mas também, não há importância para este nome nesta narrativa. Sua empregada doméstica já havia chegado, o café da manhã estava servido. Ele limitou-se a ligar a TV. As notícias seguiam seu ciclo natural. Um enorme engarrafamento causado por uma batida, muita chuva. Um bandido preso? Espera! não qualquer bandido, aqui vale o artigo determinante, finalmente o líder do Partido dos Tolos caíra. O povo não iria mais olhar para a sua presidenta como mãe, a crise estava ai diante dos olhos de todos, apenas os cegos não conseguiam enxergar.
    A crise, a corrupção, o fascismo era tudo culpa deles. O bandido líder, ex-sindicalista, metalúrgico, que governou o país durante oito anos, não iria mais ter foro privilegiado e estava preso. Preso! Algemado, humilhado. Finalmente a suprema corte fez algo de útil para a nação. Se não fosse a crise causada por eles, o seu resultado seria 100%, entraria para a história da nação. Mas o seu país era isso, as pessoas eram lembradas por sua corrupção e não por seu mérito.
    – Maria, o bandido foi preso! – ah! Como pudera esquecer o seu nome?
    Notou um olhar de tristeza misturada a um choro abafado. Era uma reação que ele já esperava. Aquele bandido fez o que há tanto tempo os governantes faziam, a política do pão e do circo, dava alimento e espetáculo para o pobre. Pensava ser bem a realidade de Maria, que recebia além de seu salário o bolsa família, e sempre, observava-lhe olhando os sites de fofocas e programas inúteis em relação às novelas. Enfim, recebia o dinheiro do governo e a novela para não se revoltar e não pensar.
    Entrou no seu Honda Civic. Ainda não havia quitado, mas com a promoção que viria com o resultado de sua brilhante estratégia, iria quitar o financiamento. Deu duas aceleradas no carro, gostava de escutar os roncos do motor em seus ouvidos.
    Trânsito.
    A gasolina estava muito barata, maldito governo populista, por conta disso, tanto trânsito. Quando se lembrava do governo suas entranhas se reviravam de tanto ódio. Gastava 27,5% dos seus rendimentos pagando impostos para o governo da bolsa disso, bolsa daquilo, bolsa pra um monte de vagabundo que não quer trabalhar. Hoje, quase não se encontram mais empregadas domésticas. Ele só não sabia que as bolsas representavam menos de 2% do orçamento.

    7:30
    Parado.
    O ônibus não andava. Não conseguia parar de olhar para o relógio, já eram 7:30 e nada do ônibus andar. Por que justo hoje o trânsito estava daquele jeito? Não adiantou nada acordar na madrugada para ir à busca do primeiro ônibus, o trânsito não colaborava.
    Caindo.
    O velho ao seu lado caiu. Era nítido o cansaço em seus olhos, não conseguiu mais se conter, cutucou o jovem que aparentemente estava dormindo. O jovem despertou logo. Ficou envergonhado e deu lugar ao idoso. Num rápido diálogo soube que aquele senhor estava melhor, soube que poderia seguir.

    7:45
    Chegou à sede do banco. Tinha uma vaga. Uma vaga que ralou muito para conseguir, número 31, mérito. Passou numa universidade pública com os seus 17 anos, num concurso para o banco aos seus 19, formou-se aos 21 – em ciências econômicas. Colocou seu crachá e sentiu orgulho de ser ele mesmo.
    Se tudo desse certo, tornar-se-ia o gestor mais jovem daquele banco. Na verdade iria mais longe, seria o gestor mais jovem da história daquele banco. Se não fosse um homem tão duro, tão bruto: lágrimas brotariam. Contudo, sentiu algo. Sentiu um orgulho que nunca antes havia experimentado.
    Era como se todos já soubessem o que iria acontecer. Via o brilho nos olhos dos outros. Via a admiração deles, de todos eles. Então reunião a sua equipe. Chamou todos. Ele não estava lá. Mias uma vez atrasado. Oito horas e ele ainda não havia chegado. Uma das coisas que mais o irritavam era o atraso.

    8:00
    O ônibus finalmente encostou-se à rodoviária, ele não chegaria tão atrasado. Mas uma surpresa… aquele idoso o chamou, soube que ele necessitava de ajuda, passava muito mal. Enxergava que para o seu chefe não existiriam desculpas, nem nada do gênero. Muito sartriano, cada um é o responsável por seu destino. Ele recebera uma oportunidade e tudo foi muito claro em seu último atraso. Não existiam desculpas. Não haveria uma segunda chance.
    Mas o que era um atraso quando colocado ao lado de uma vida? O que era um emprego ao lado de uma vida? A resposta depende da perspectiva. Aquele senhor não possuía mais filhos. Aquele senhor era responsabilidade do Estado, e ele, como um cidadão, tinha a obrigação de ajudá-lo. Foda-se o chefe. Foda-se a empresa. Se eles não fossem humanos para entender aquela situação, não fazia sentido continuar trabalhando para eles.

    8:30
    Dez, quinze, vinte, trinta minutos e nada do Bondade. Depois reclamavam que os negros estavam na pior situação da sociedade, que não ganhavam oportunidades, que existia preconceito, uma dívida histórica. Quanta bobagem. Deu a oportunidade ao garoto, e como todos os outros, o que ele fez? Cagou no pau! Quase todos os dias chegando atrasado, era necessário colocar um fim nisso.

    03:32
    Queria tanto terminar a história dos três homens. Vejo as histórias correrem por minhas mãos, entre meus dedos. A ideia era boa, o desfecho seria incrível para o conto, porém o tic-tac do relógio continuava a avançar. O cansaço chegava aos meus ombros junto à força eletrostática dos átomos.
    Tic-tac.
    Até que ponto eu poderia ir? Até onde eu poderia chegar? O sonho era forte, falta o tempo. Os dois homens vem e vão, eles precisavam serem narrados. Mas o tempo avança e não tenho forças para acompanha-lo. Estou cansado, amanhã tenho que trabalhar.
    Tic-tac.
    Lembro que o dia foi corrido, lembro-me das ideias muito vagamente. Os três homens. As três histórias se encadeando, a mesma discussão, os vários temas dentro da narrativa, o desfecho trágico. A mágica, fazer o leitor imaginar-se em um lado, enquanto na verdade estou dizendo coisas do outro. O peso. As pálpebras. As pálpebras iam se fechando. O sono. Os três homens. As três histórias. As entrelinhas.
    Tic-tac.
    A demissão. A promoção. O sono. A depressão. A ascensão. O peso. A reação. O executivo. Os três homens. O roubo. A política. O sono. A organização. O deputado. O banheiro. O tráfico. O deputado. O escovar dos dentes. O homicídio. O senado. As pálpebras. Os homicídios. O governador. O sono. A corrupção. A corrupção. Os três homens. A liderança. A aliança. Três histórias. A cadeia. A presidência. O antagonismo. Um homem. Dois homens. Um terceiro homem. O Bondade. O Honório. O Rodrigo. O estagiário. O patrão. O escritor. Um negro. Um branco. Um espelho.
    03:33
    Rodrigo, moreno, pálido, cheio de olheiras, cansado, que só conseguia pensar em sua cama:
    Tic-tac.

  • #0044 “Instruções para desaparecer devagar”: Uma tragédia para nossos tempos

    #0044 “Instruções para desaparecer devagar”: Uma tragédia para nossos tempos

    Após ler esse livro, fiquei uma semana com um aperto no peito. Para piorar, nesse mesmo mais um caso de violência doméstica, desta vez o agressor foi um líder de “masculinidade”.

    Recentemente, li o livro da Flávia e ele fez exatamente isso comigo. Sem medo de errar, digo que é a melhor literatura contemporânea que já passou pelos meus olhos. Mas o que define um livro excelente? Eu sei, classificar arte é um terreno pantanoso. Mas se eu disser apenas ‘gostei muito’, você vai fechar essa aba e voltar para o Instagram. Preciso te mostrar por que esse livro te pegaria pela garganta. Para não ficar só na minha opinião de leitor apaixonado, fui buscar ajuda nos gigantes.

    Quando pensamos em teoria da literatura ocidental, podemos dizer que os primeiros que tentaram entender foram Platão e Aristóteles. Platão, em sua obra “A República”, esmiúça o que definiria (segundo seus critérios) como uma obra excelente; para ele, está relacionado com o propósito educativo, portanto, uma obra que não agregasse nada, que não falasse do que eles consideravam como bons costumes, era uma obra inferior. Já Aristóteles, no seu livro “A Poética”, traz algumas outras definições de que uma obra pode ser analisada e pode sim trazer algo de perfeito dentro dela mesma. Você deve lembrar de que para Platão existia o mundo das ideias, e as obras materiais seriam julgadas por estarem próximas ou distantes dessa perfeição. Aristóteles tenta definir essa perfeição trazendo conceitos interessantes na análise, como o de mimesis (imitação). Ele começa definindo então o que seria a poética, que não seria como a história que contaria os fatos; não, a poética seria então aquilo que poderia ser, é o tal do “e se”.

    É importante também lembrarmos que esses autores viviam numa época em que não existia o conceito de literatura como conhecemos hoje. A ideia de literatura como tal é muito recente. As pessoas não eram alfabetizadas, não existia democratização de conhecimento, e muito menos acesso a livros, não existia literatura como conhecemos hoje. O teatro era forte, era como a Netflix hoje. Desde Aristóteles há um peso ao trágico, que em sua definição seria a representação do caráter dos homens superiores. Então, como você vai se lembrar da história de Édipo Rei, o homem que matou o pai e se casou com a mãe, é uma tragédia anunciada que não tinha como não ser dessa forma. E Édipo era um nobre, então as melhores obras nesse sentido eram histórias dos homens nobres de sua época.

    Mas será que existe mesmo algo de belo, algo de perfeito numa obra, e que apenas uma obra é responsável por ser perfeita? Não me parece isso, pois mesmo na minha experiência de vida há leitoras e leitoras, mesmo do mesmo livro. Há momentos em que tenho uma perfeita experiência e vejo o sublime e belo, e há outros em que não, mesmo lendo a mesma obra. Isso nos parece tão reconfortante, já que a maioria das obras são reflexos da sociedade que a aprecia. Só que isso não me satisfaz também, eu leio algumas obras e vejo algo de diferente, e eu leio mais uma vez, e sei que existe algo, algo que é difícil. Então eu talvez diga que existiria um meio termo entre a beleza que está na obra e também no observador.

    Neste ponto, o escritor e professor Ariano Suassuna, em sua “Iniciação à Estética”, nos oferece um caminho. Ele argumenta que existem essências estéticas, como o Trágico, o Cômico, o Sublime, que são categorias objetivas, presentes na própria obra de arte. A obra possui, em si, qualidades que a definem. No entanto, a percepção e o sentimento dessa beleza dependem da experiência subjetiva de quem a contempla. Assim, a obra de arte é um ponto de encontro: ela carrega uma beleza objetiva em sua estrutura, que por sua vez ilumina e é iluminada pela subjetividade do leitor. Por isso eu diria que a obra da Flávia tem elementos que sabemos que são, digamos, universais e podemos apreciar a sua beleza. Ao mesmo tempo é uma obra que conversa diretamente com a minha subjetividade, mesmo eu sendo homem e a obra sendo o relato de uma viagem de duas garotas. Mas esse é um dos poderes da Literatura que nos faz viajar.

    A própria autora do livro o define como uma tragédia moderna. Mas antes de analisarmos a obra, o que é uma tragédia clássica na perspectiva de Aristóteles? Para ele, a tragédia é a imitação (mimesis) de uma ação de caráter elevado, completa, que, através da representação de atores e não da narração, suscita a piedade e o terror, levando à catarse, ou seja, à purificação dessas emoções. Segundo Ariano Suassuna, o “Trágico” é uma dessas essências estéticas, válida para todos os tempos, presente na obra de arte “Tragédia”. E o protagonista da história, também não é um homem comum, é um herói, tem um caráter excepcional, uma “alma grande”. Ao mesmo tempo, não é um deus perfeito, nem um vilão, é um meio termo, como por exemplo o Édipo. E por fim, temos o elemento de um “erro trágico” (hamartia), que é uma falha de julgamento ou ignorância que desencadeia uma catástrofe.

    É importante fazer uma observação: a teoria sempre vem depois da obra. Então, quando Aristóteles propôs esses pontos, ele tinha feito a análise de todos os livros de sua época. Neste sentido eu diria que a reconstrução da tragédia proposta por Flávia foi excepcional. Nós não temos mais a ideia daquele herói representante de todos; ao contrário, temos a representação de pessoas comuns, Alice e Bárbara. Alice é rica. Bárbara é pobre. São duas classes sociais sendo representadas que, de forma moderna, são sim heroínas de suas classes.

    Aqui, podemos adaptar a ideia de “homens superiores” de Aristóteles. Não se trata mais da representação de nobres, mas da representação do que acreditamos. Quando uma obra consegue mostrar o que acreditamos de verdade, com toda a nossa complexidade e contradições, essa é uma representação superior. É difícil uma representação genuína, pois vivemos numa sociedade que julga o tempo todo, e você sempre irá desagradar alguém e algum grupo. A coragem de uma obra está em buscar essa verdade, mesmo que incômoda.

    Alice e Bárbara representam dois universos distintos: uma é rica, a outra, pobre. De maneira contemporânea, ambas são heroínas de suas respectivas classes sociais. Bárbara, cheia de atitude e determinação, conquista uma bolsa para uma faculdade prestigiada, onde conhece Alice, herdeira de um mundo privilegiado.

    A primeira cena já anuncia a tragédia. Durante o trote universitário, ambas são humilhadas por veteranos. Quando Bárbara é forçada a ficar de quatro para desvendar um enigma sobre cinema, Alice vê a oportunidade de salvá-la, sussurrando a resposta em seu ouvido. Esse momento revela o desejo profundo de redenção da protagonista – ela carrega a culpa de ser rica. Como não se sentir culpado em um mundo em que existe uma desigualdade tão extrema?

    A vida de Alice é monótona. Um namorado medíocre, nenhuma emoção verdadeira. Ela busca algo diferente, uma aventura? Sentir-se especial, não por seu berço rico, mas por suas escolhas. Surge então o incidente incitante da história: Alice planeja uma viagem ao Camboja e à Tailândia, sem luxos, para conhecer o outro lado do mundo. Convida Bárbara e se oferece para pagar tudo.

    O livro nos dá pistas de que algo acontecerá, ao mesmo tempo que oferece esperança de um desfecho menos trágico. Quando chegam ao destino, sozinhas, são levadas em veículos precários até uma pousada afastada do centro, repleta de homens trabalhando. Sentem medo, mas estão cansadas demais para procurar outro lugar. Na recepção deserta, apenas um homem confirma a reserva. Elas tentam dizer que houve engano, mas aqui vemos novamente a falha trágica de Alice representada por seu desejo de redenção, de se livrar da culpa de ser uma menina rica da zona sul carioca. Ela quer acreditar no melhor das pessoas e cai na conversa de Arum, que se desculpa, dizendo que estão em obras, que o Booking enviou informações erradas e que esperavam a chegada delas na semana seguinte. Alice acredita.

    A narrativa se desenvolve para que nos identifiquemos com as personagens. Alice perde o celular ao ajudar uma menina, acreditando em sua inocência. As duas acabam em uma pizzaria onde homens as olham como objetos sexuais, causando desconforto. Saem rapidamente.

    Finalmente chegam à Tailândia, e a falha trágica de Bárbara é revelada. Ela tem uma necessidade patológica de ser amada e desejada por homens, submetendo-se a qualquer situação por eles. A tragédia se anuncia e intensifica. O leitor já deve imaginar o que está por vir.

    No resort tailandês, são surpreendidas negativamente pelo estabelecimento ser muçulmano e não vender bebidas alcoólicas. As ações se intensificam para chegar ao clímax. Bárbara aprofunda seu desejo de ser desejada, e Alice reforça sua necessidade de ser salvadora, de se redimir pela culpa de ser rica. Ambas são abordadas por um homem sempre ao telefone. Sem desconfiar, por conta de suas falhas trágicas, são levadas a uma festa, usam drogas e se relacionam com ele. No final, acontece a desgraça imaginável, mas previsível. As duas finalmente se tornam iguais na submissão aos homens.

    É uma tragédia – algo ruim precisa acontecer, e nada poderia ser pior hoje que a violência contra as mulheres. O livro, embora fale com as mulheres, ensina a nós, homens, sobre nosso lugar de privilégio. Quando saio às dez da noite, sozinho, meu único medo é ser assaltado. As mulheres não têm esse “luxo” – para elas, o medo é sempre pior.

    Apesar das tragédias que retrata, não considero o livro pessimista – ele expõe fielmente a realidade da nossa sociedade. Esta semana, a vida imitou a arte da forma mais brutal possível: um “coach de masculinidade”, ícone de movimentos que pregam a suposta superioridade viril e a submissão feminina, foi preso por agressão e tentativa de estupro contra a própria companheira. Esse episódio não é uma exceção, mas a confirmação da estrutura que a obra de Flávia denuncia. Um mundo em que se violentam as mulheres sistematicamente, transformando a intimidade — que deveria ser refúgio — em cenário de terror. A mentalidade Red Pill, que pune o feminino na vida real, é a mesma força invisível que arrasta as personagens do livro ao abismo, provando que o ódio à autonomia feminina não é apenas recurso narrativo, mas tragédia cotidiana e palpável.

    Isso não significa que devamos permanecer assim ou que estejamos fadados a esse destino – precisamos mudar. Mas essa é a realidade atual, e como lidamos com ela? O que podemos fazer? Como combater efetivamente as desigualdades e a violência contra a mulher? Confesso que é muito mais fácil culpar o sistema e dizer que é um machismo estrutural e que é assim mesmo, e não questionar meu chefe quando ele divide as tarefas e deixar a parte de secretariado para as mulheres, ou quando minha esposa, mesmo cansada nota o lixo fedendo que eu deveria ter notado quando cheguei em casa e não notei, ou ficar calada quando a objetificação das mulheres bate na sua cara. Ler esse livro me fez pensar que não basta não ser o monstro. Às vezes, o silêncio é a forma mais covarde de ser cúmplice.

    Na minha análise e experiência de leitura, este livro alcançou excelência literária. Fechei o livro com raiva. Raiva da Flávia por me obrigar a enxergar o que finjo não ver todo santo dia na rua. Raiva de mim por nunca ter escrito nada com essa honestidade brutal.

  • #0043 Não é sobre resultados, é sobre pessoas

    #0043 Não é sobre resultados, é sobre pessoas

    É muito bom quando finalmente chegam os nossos primeiros leitores. Não sejamos hipócritas, se escrevemos e publicamos é porque também desejamos ser lidos. Só que também não podemos deixar de esquecer que essa é uma emoção que alimenta apenas o nosso ego. E o ego não é nós. Portanto, é uma emoção que logo se esvazia. E se você não se observar, você pode começar a produzir tão ferozmente usando IA que não se reconhecerá mais nos seus próprios textos e só sentirá satisfação quando ver números inflados de suas próprias publicações, novos assinantes, curtidas, etc, tudo aquilo que simplesmente não existe no mundo real. Sabe o que existe? Você conseguir olhar para uma pessoa que leu um texto seu e disse que agregou em sua vida e mudou, isso não tem preço.
    Não me leve a mal, métricas são importantes, mas elas não são substância, elas são adjetivos que ornam o seu texto. Eu espero que você ainda se mantenha escrevendo, eu sei que a IA já escreve melhor que a maioria dos seres humanos, mas por mais que ela faça um texto para você, não pode escrever um texto seu. Você deveria usar ela como uma ampliação de suas capacidade cognitivas e não se deixar ir às cegas por ela. Ethan Mollick cita um estudo que mostra que quanto melhor uma IA, tendemos a delegar cada vez mais nossas capacidades para ela, copiando e colando suas respostas, como se estivéssemos num piloto automático. Escrever para mim é uma jornada de me descobrir como ser humano e isso jamais poderia ser delegado para uma IA.
    Mas há pessoas que se descobrem por outros meios e talvez para ela faça sentido delegar para a IA a escrita. Precisamos pensar sobre o que nós vamos deixar de fazer. Cada coisa que deixamos de fazer, que deixamos de doar, também deixamos de viver. Cada tempo economizado é um tempo de vida, mas a vida é também gastar o tempo e viver os problemas, pois nunca seremos imortais.
    Esses dias encontrei uma amiga que me disse algo que acalentou meu coração. Ela me disse que leu a minha crônica #0034 e que aquilo a fez lembrar do budismo, e mais que isso. A partir disso ela foi buscar novas referências. Isso para mim é o tudo. Saber que contribuí, mesmo que 0,1% na vida de alguém é infinito.
    E fazer isso só é possível quando eu mantenho uma constância, mesmo quando ninguém me lê. Você já ouviu falar do efeito regressão a média? Li isso na primeira vez no livro: “Rápido e Devagar” do Daniel Kaleman, neste livro ele nos ilustra essa metáfora por meio de campeonatos de golpe. Imagine um golfista profissional que tem um primeiro dia de campeonato espetacular, muito acima de sua média habitual. Ele acerta tacadas improváveis e termina com uma pontuação excepcionalmente baixa. A tendência natural, e o que a regressão à média prevê, é que no segundo dia seu desempenho seja um pouco pior, mais próximo de sua média de longo prazo. Isso, não é porque ele ficou arrogante ou relaxou, mas porque o primeiro dia foi uma combinação de grande habilidade e uma dose significativa de sorte. A sorte é inconstante, mas a habilidade permanece. Da mesma forma, se um golfista tem um dia desastroso, muito abaixo de sua média, é altamente provável que seu dia seguinte seja melhor, “regredindo” para o seu nível de desempenho normal. O erro comum é atribuir essa flutuação a causas complexas, quando na verdade é apenas a estatística em ação: desempenhos excepcionais, tanto bons quanto ruins, raramente se repetem em sequência, pois tendem a voltar para a média. Portanto, quanto mais você escreve, maior a chance de você melhorar sua habilidade de maneira geral, e como um bônus espetacular, você se conhecerá melhor. Algo é mais valioso do que isso?
    E quando você conquista seus primeiros leitores é quase como se você encontrasse seus amigos. Eu sei que as redes sociais nos dão a ilusão de que temos milhares de amigos, por meio dos stories achamos todos os detalhes sem nunca trocar um abraço. Agora quando conseguimos juntar o afeto físico, com quem lê um texto seu. Agora quando conseguimos juntar o afeto físico com um afeto de afinidades é quase certo que estamos falando de amor, não paixão, trocas de fluídos, e todo o amor que você já conhece como romântico, não é isso. É amizade.
    Você não vai conseguir amar muitas pessoas. Para você amar, você precisa conhecer, você precisa doar um pouco de você, dando carinho e afeto, e claro, você também precisa receber. E isso não é algo que se faz com mil pessoas, você pode contar nos dedos todos aqueles que você consegue fazer essa troca.
    Minha ideia não é trazer fórmulas, mas dizer que você deveria escrever mesmo que ninguém mais fosse ler.

  • #0041 O guia incorreto para construir uma empresa bilionária

    #0041 O guia incorreto para construir uma empresa bilionária

    Nota de Esclarecimento: quem me dera ter construído uma empresa bilionária, então este texto partiu da necessidade de verificação empírica da realidade, ou seja, não há uma utopia de como as coisas deveriam ser, existe apenas a observação de como elas são.

    Passo 1 – Quanto pior melhor

    Tente olhar para você e veja o vício que você tem mais dificuldade. Preferencialmente algum vídeo relacionado a um dos sete pecados capitais: gula, soberba, avareza, luxúria, ira, inveja ou preguiça.

    Se você puder juntar um ou mais pecados capitais, terá ainda mais êxito. Por exemplo, o vício em jogos de azar, envolve a gula (não conseguir parar de comer), avareza (achar que ficará rico logo), orgulho (se achar superior, por ter encontrado uma vantagem única) e preguiça (usar o jogo como ferramenta de escape da realidade, ou até mesmo conseguir ter ganhos financeiros sem resolver problemas). Aqui, quanto pior melhor.

    Passo 2 – Copie, mas não faça igual

    Agora é a hora de pensar no produto, não é muito difícil, volte a pensar nos seus próprios vícios, você pode fazer um produto exatamente igual, bastando mudar a embalagem. Lembra quando você colava nas aulas da escola? Ou quando você pega o roteiro de algum vídeo e apenas manda o chat trocar as palavras? Então, aqui é isso, copia, mas não faça igual.

    Sabe quem faz isso de maneira brilhante? Nosso tio Zuckenberg que não se lembra dos primórdios das Redes Sociais (bate aquela nostalgia não é?) mas não é exatamente porque aquela época era melhor, a saudade é simplesmente da vida, quanto mais se passa, mais próximos estamos da morte. Mas voltando, naquela época surge uma rede nova, o Snapchat, com seus inovadores stories, o que o tio fez? Copiou. É igual? Não, não é igual. Então aqui a lição é copie, mas não faça igual.

    Passo 3 – Qual a única mentira que o cliente precisa crer para comprar?

    Precisamos começar a embalar uma campanha de marketing para você divulgar os produtos. Afinal, você é um completo estranho no mercado. E também, necessitamos mudar os significados, pois ninguém quer ser conhecido como um traficante de vícios. Qual, então, é a única coisa que seu cliente precisa acreditar para se sentir livre ao comprar o seu produto?

    Por exemplo, você não associa o café a uma droga altamente viciante e nociva ao seu sistema nervoso. E ela é a droga mais consumida do mundo. Damos ela até as nossas próprias crianças e agimos como se o seu consumo regular não prejudicasse o nosso sono. Eu mesmo, sou um viciado.

    São diversas crenças associadas ao consumo de café, que no meio corporativo a crença dominante é: vou beber um café para produzir mais. Deve ter funcionado uma ou duas vezes com as pessoas, mas no geral prejudica. A cafeína em alta quantidade, faz com que você não durma bem. Sem dormir bem, você não consegue produzir adequadamente. Então, de repente, você começa a tomar café porque não dormiu bem, e depois não dorme bem por conta do café. E no final, não produz mais coisa nenhuma. Mas se sente bem, e crê que toma a melhor decisão.

    Somente no Brasil o faturamento da indústria do café foi de 78 bilhões de reais no ano de 2024; para se fazer uma comparação, a indústria das bets faturou entre 60 e 120 bilhões. E você não associa nenhum deles a traficantes.

    Passo 4 – Conquiste a sua tribo

    É preciso de aliados, infelizmente nós ainda não conseguimos fazer nada sozinho, mas você terá um prazer de conquistar a sua própria tribo. Para isso é necessário identificar os dados demográficos ou psicográficos existentes e coesos. Lembra-se de Sócrates “Conhece-te a ti mesmo”, não, você não precisa se conhecer, mas você precisa conhecer a sua tribo melhor do que eles mesmos.
    É fácil fazer isso, nós nos organizamos como sociedade em pequenos grupos, mas nossos grupos não cabem todos, então eventualmente sempre existirá pessoas que estão excluídas e se sentem ressentidas com isso. A partir disso você será como um novo Jesus Cristo que falará do Reino dos Céus, falando dessa promessa, que esse reino chegará quando eles comprarem o seu produto.
    Mas atenção, você não fala com todo mundo, você falará com os grupos que já se sentem frustrados. Eles estão a um passo de seguir alguém que tem uma mensagem que faz um pouquinho de sentido.

    Passo 5 – Construa um Arsenal Quase Científico

    Agora que você já construiu sua tribo, você trabalhará num aspecto muito particular da capacidade humana. Dentro de nós há um sentimento, uma espécie de vontade de sermos especiais. E das inúmeras maneiras para atingir a distinção, nós trabalharemos com uma nova descoberta.
    A descoberta é muito simples, você pode inclusive pegar fatos existentes e mudar somente as conclusões, dessa maneira parece que é algo novo, e sua tribo se sentirá especial por fazer parte dessa descoberta.
    Por exemplo, quase todos os grupos humanos acreditam que existe um sistema que domina a mente das pessoas e por isso ou elas não se desenvolvem e são escravas de uma elite global, ou se não se organizam como proletariado e dominam o poder. Percebe que se parte do mesmo pressuposto teórico e tenta fazer uma mesma explicação para o fato?
    Mas claro, somente isso não é suficiente.
    Patrocine estudos e especialistas que validaram a sua narrativa. Por exemplo, procure estudantes que estejam realizando TCC, ninguém de verdade lê nenhum TCC, e TCC não tem revisão de pares, mas para o público em geral, e para sua tribo, será uma verdade incontestável. Eles não estão preocupados com a verdade, eles querem se sentir especiais por terem descoberto uma narrativa, lembre-se disso.
    Uma empresa concreta que fez isso foi o Brasil Paralelo, eles criaram um ecossistema de “especialistas” que se validam mutuamente. Ao apresentar historiadores revisionistas e comentaristas alinhados, eles constroem um arsenal de argumentos que, para sua tribo, soa como “a verdade que a mídia não mostra”. A forma (produção de alta qualidade) dá a esse arsenal uma aparência de legitimidade inquestionável.

    Passo 6: Distribua seus lucros com os generais

    Nós não precisamos mudar o mundo sozinhos, embora possa ser interessante e tentador. Mas se lembre também que todos aqueles que enriqueceram, são “generosos” e distribuem os seus lucros. A esta altura você será procurado por influenciadores oportunistas. Diversos querendo se associar a sua marca e seu movimento. Dê muito dinheiro para eles, de preferência um percentual de cada novo membro que aderir ao seu vício.
    Eles serão os seus generais no campo de batalha das redes sociais. Quanto mais polarizado melhor. Quanto mais odioso, melhor.
    Seja sincero, qual foi a última vez que você elogiou alguém? Mas sei que você vai lembrar da última vez que reclamou de alguma coisa, sei que vai. Nós somos assim, reagimos a coisas ruins, damos palco para o mal, para o ódio, para a desgraça. Procure influenciadores que tenham esse comportamento, que causem discórdia.

    Passo 7: Compre remédios para dormir

    Repita o processo. Mergulhe tão fundo na sua própria câmara de eco, cercado por seus especialistas e influenciadores pagos, que a linha entre a mentira estratégica e a sua verdade pessoal começa a desaparecer. Este é o estágio final: você não está mais vendendo uma narrativa, você é a narrativa. Isso o torna um vendedor ainda mais convincente.
    Sente-se e observe os lucros. A polarização e o marketing tribal farão o trabalho pesado. No entanto, o conflito gera haters. Use o dinheiro para:
    Medicamentos e terapia: Como você genialmente apontou, para lidar com o peso moral do que você criou.
    Advogados e gestão de crise: Para lidar com os ataques, processos e a inevitável má publicidade que virá do “outro lado”.

    Se você seguir meus passos e não conseguir êxito a culpa é somente sua, porque você não desejou.

  • #0041 Quando a qualidade supera a quantidade?

    #0041 Quando a qualidade supera a quantidade?

    A crônica de hoje é um pouco diferente, ela é uma reflexão sobre o ato de escrever crônicas e como isso pode nos conectar.

    Não sei se você já ouviu falar da teoria de que seriam necessárias dez mil horas para se tornar expert em determinada habilidade. Essa ideia ficou muito famosa quando o autor Malcolm Gladwell publicou o livro “Fora de série – Outliers: Descubra por que algumas pessoas têm sucesso e outras não”. Neste livro, ele aborda alguns casos de sucesso, tentando responder às perguntas: por que existem pessoas que se tornam excepcionais em algo e outras não?

    O livro foi publicado em 2008 e entrou no imaginário popular ao trazer um número mágico: seriam necessárias dez mil horas de dedicação a uma determinada habilidade para se tornar excepcional. Um de seus casos de estudo é o próprio Bill Gates, que, quando teve a oportunidade de fechar um contrato milionário com a gigante IBM, já teria acumulado dez mil horas de estudo em programação. Algo que fica de fora é o fato de que Bill Gates possuía contatos que qualquer outra pessoa naquela posição provavelmente não teria, o que foi fundamental para concretizar a venda.

    De toda a forma, o autor não explica como seriam essas práticas; parece que, ao fazer dez mil horas de algo, você simplesmente se torna um gênio naquilo. Mas será verdade? Quantas horas você dirigiu? Será que você se tornou uma pilota?

    Outro autor interessante para entendermos, de fato, a expertise em determinado assunto é Anders Ericsson. Ele foi o psicólogo responsável pelos estudos originais citados no livro de Gladwell e, ao lermos sua obra “Direto ao Ponto: Os Segredos da Nova Ciência da Expertise”, percebemos que ele relata seu estudo e como ele foi usado parcialmente para justificar a teoria das dez mil horas.

    Não é necessário você acumular dez mil horas, ao mesmo tempo que são exigidas muito mais horas para outras habilidades. Ele nos fala sobre a prática deliberada, que é uma prática na qual você necessita de feedback; não adianta nada você começar a fazer algo se você não errar e aprender com os seus erros, pois é assim que se evolui.

    Ele também cita que, para essa prática ser efetiva, é preciso sair da sua zona de conforto, crescer e sentir dor. Pense na musculação, você pode começar a treinar, mas isso não significa que se tornará um fisiculturista. No entanto, é possível aprimorar sua prática de treino, o que pode causar desconforto — não uma lesão, mas dor. Se você tiver um treinador que o corrija, aprenderá e se tornará cada vez melhor. Por outro lado, se você apenas treina sem prestar atenção ou se desafiar, não evolui nem aprimora sua prática, e isso não contribui para seus aprendizados.

    São quatro pilares definidos por ele: sair da zona de conforto, possuir metas claras e objetivas, foco total na atividade, feedback imediato e construtivo. É tudo que um treinador forneceria, então, para ele, é fundamental que tenhamos professores que nos treinem para que possamos desenvolver a nossa prática.

    Será que isso vale para as artes? É ingênuo pensar que os artistas não leem críticas, não submetem sua arte para receber um feedback de alguém de confiança. A arte também exige prática deliberada, é claro; nada é 100%. Mas, quando analisamos a biografia de grandes artistas, vemos pontos em comum. Embora nada disso seja garantia de sucesso, digamos assim.

    Isso é algo importante sobre o qual tenho refletido, além, é claro, de a vida ter me dado minhas primeiras leitoras e leitores: Kamylla, minha esposa, Evelyn, Letícia, Kamilla, Décio e Ateam. É uma honra saber que vocês leem meus textos. Esse é o primeiro passo de um grande sonho: construir, texto por texto, uma obra literária.

    E esse ousado sonho, num mundo capitalista, exige muito: exige também cautela, exige longo prazo. Você não melhora seus textos do nada; é preciso estudo, dedicação, constância. Mas eu preciso não me lesionar: não adianta escrever muito e ficar anos sem tocar nas palavras. Portanto, necessito ser humilde e perceber que é impossível manter a frequência de duas vezes por semana, na qualidade que desejo. Pensei também em meus queridos leitores: às vezes, menos é muito mais.

    Nos vemos sempre aos sábados, às 10h14.

  • #0039 Em busca do inútil

    #0039 Em busca do inútil

    Vivemos em busca de fazer algo para…

    Quero que aqui você leia um texto que seja completo nele mesmo.

    E se ele não é para algo, ele é inútil.

    Para ser completamente justo, essa é uma definição do Clóvis de Barros Filho no livro “Felicidade é inútil”. Seu argumento é que a felicidade é a causa final. Por exemplo, você trabalha para ter dinheiro para desfrutar com sua família, viver feliz, mas quando você vive feliz, não busca outra coisa. É como se essa causa fosse uma causa final.

    Eu vejo a arte como ele vê a felicidade.

    A arte é uma causa final.

    E isso me causa um conflito, pois se de um lado tenho esse conceito de arte muito claro, e de onde desejo posicionar os meus textos, do outro tenho que escrevo também para ser lido. Como equilibrar esses dois lados?

    Se meus textos hoje não são lidos por ninguém, além da minha esposa que me ama, então talvez exista nisso um indício de que há algo errado, que eu devesse melhorar. Provavelmente estou longe de conseguir escrever essa causa final de um texto, um texto completo por ele mesmo.

    Por outro lado, tenho exemplos de grandes escritores e escritoras que foram ignorados em vida. Mas estavam escrevendo aquilo que precisavam. E aquele texto, ignorado por seus contemporâneos, hoje me perpassa como uma lança e agrega sentido à minha vida.

    Mas não desejamos falar com a morte.

    Tenho lutado para encontrar um equilíbrio entre minha autenticidade e a melhora da minha própria arte. Mas é um processo lento e gradual.

    Mas cada vez tenho mais clareza para onde desejo ir, e consequentemente meus textos, sei que eles merecem o meu melhor e minha constância.

    E dessa vez não vou me sabotar. Nós nos sabotamos porque desejamos ter controle sobre a situação. Se eu parar de postar meus textos, tenho controle sobre eles. Tenho o conforto de acreditar ser um gênio que ainda será descoberto. Mas, quando coloco meus textos para o mundo, perco o controle; portanto, é preciso aceitar com humildade quando o problema é o texto e ter coragem de seguir a intuição de que, às vezes, o problema não é o texto. Se alguns escritores e escritoras reconhecidos postumamente, imagina quantos foram esquecidos? Nem aqueles que escreveram e foram lidos em vida têm garantia de serem lembrados; quiçá todos os outros.

  • #0038 O sentido não está no legado

    #0038 O sentido não está no legado

    Você já olhou para a sua vida e ficou se questionando se estava no caminho certo? Como se você ao encarar a sua vida não reconhece o local onde você está como parte de um sonho que você teve outrora? Você se reconhece como se fosse uma fraude, que tivesse traído a si mesmo ao não lutar por seus sonhos, mas que sonhos são estes?

    Todos nós, e eu me incluo nisso, temos o sonho de sermos destaques. Quando pensamos em mediocridade chega o nosso estômago se embrulha. Não desejamos ser mais apenas mais um Cadastro de Pessoa Física (CPF). Não. Desejamos mais, não é? Não disseram para nós em nossa infância que poderíamos ser qualquer coisa? Que seríamos diferente de nossos pais?

    Vieram então todos aqueles filmes da Sessão da Tarde em que o protagonista sofria bullying, era feio e apaixonado pela mocinha, no interior do país. Ele então consegue uma bolsa numa faculdade de ponta e se muda. Anos depois ele volta, agora com um corpo esbelto, um carro lindo, e muita inteligência. A mocinha ficou com o rei do baile da época, mas agora está disponível, solteira. E eles ficam juntos e felizes para sempre. Não desejamos então o destaque? Ser aquela pessoa especial que saiu do nada e deu a volta por cima? Mas e todos os outros que não são assim?

    No Brasil não é assim. Raramente você terá a oportunidade de ir para um outro estado ou país fazer uma graduação. Talvez você consiga até ter a oportunidade de estudar, apenas estudar. Se for como eu, começará a trabalhar logo após o Ensino Médio e essa será sua situação até morrer. Mas não é isso que sonhamos. Ou melhor, não é isso que colocam para nós como destaque. Isso é exatamente o que hoje você vai ler para sair, te venderão um novo curso milagroso que te ajudará a construir um negócio para você se destacar, se tornar milionário.

    Se todos se tornam milionários não há destaque em ser milionário. E de alguma forma, todos nós buscamos o destaque. Se nós não podemos nos destacar como o mais rico, então teremos alguma coisa para nos destacar. Eu tenho a skin escritor, nenhum dos meus amigos é escritor, eu sou escritor, há um destaque. Mesmo que eu não seja melhor que a maioria dos escritores, e em outro ambiente eu seja apenas mais um escritor.

    Buscamos algum mérito para sermos destaques. Mas o que está por debaixo de nos tornarmos destaques? Não seria uma disfunção adulta dos brasileiros? Em nossos lares, a maioria das mulheres são mães solo. Há uma lenda, uma lenda de uma paternidade. Será que só queremos tapar a dor do abandono de nossos pais? Isso é papo para terapia, mas precisamos nos questionar, por que desejamos chegar ao topo? Qual é a glória que desejamos? É receber inveja de nossos amigos? Por que uma vida com o mínimo não é suficiente para nós?

    Mas então temos ainda um sonho. Temos algo que queima dentro da gente. Eu pelo menos sou assim, tenho um desejo que queima e arde de fazer algo memorável. Mas mais uma vez, será que é meu desejo de fato? Ou eu apenas estou reproduzindo dezenas de livros que li que diziam que uma vida memorável era uma vida com um legado. Qual o sentido de deixar um legado se você morrerá? Já defendi em outra crônica que não existe diferença entre uma vida cheia de significados e uma vida medíocre. Se esse desejo ardente vem do fundo de sua alma, como então realizá-lo?

    A única forma que conheço para a realização dos sonhos é essa que estou empregando, todos os dias lapidar um pouco. Mas para eu chegar aqui, eu não comecei do nada. Eu tive que me esforçar muito para entender que isso era algo que eu faria independente de ter resultado, independente de ser o melhor, independente de qualquer coisa. Escrever é algo que queima dentro de mim e precisa sair em palavras, mesmo que eu tenha pouco tempo para me dedicar, mesmo que eu talvez nunca me torne uma referência, mesmo que ninguém leia, mesmo que eu tome uma surra de uma IA, ainda assim, eu irei vir aqui todos os dias e vou escrever.

    Primeiro você realiza o seu sonho numa esfera privada e depois transborda esse sonho para o mundo. Não é como os vendedores de promessas fazem. Eu preciso fazer essa diferenciação entre vendedor de curso, e vendedor de promessa. O vendedor de promessa fará uma oferta para você que será imperdível, mas quando você executar tudo o que ele disser e não tiver resultado, ele colocará a culpa em você, porque talvez você não vibrou na frequência correta. O vendedor de curso, terá também uma promessa, mas terá conhecimento e ferramentas para você aplicar, e ele também vai te explicar, que depende de sorte, pois sempre há sorte envolvida.

    Te pergunto o que é que arde e pulsa dentro do seu coração, que você foge, como diabo foge da cruz, mas no final do dia você está lá trabalhando nisso? Se você me disser que não sabe o que é, talvez você esteja escutando muito ruído e não consegue ouvir a voz que vem da sua alma e diz o motivo da sua existência.

    Portanto, o sentido não está no legado, nem no destaque. Isso são glórias passageiras que não satisfazem o nosso ser. Há sentido na execução silenciosa que a alma pede. É nesse espaço, que é possível encontrar a sua própria verdade.