#0049 A Terra ferve, e o sol nos sangra

Só é possível refletir sobre o aquecimento global quando temos feijão na mesa e tempo para divagar.

Um tema que me fugiu, mas que comecei a refletir a partir de uma lista de leitura. Se você leu a crônica “Você não é homem não?”, sabe que fiz um compromisso público para ler mais mulheres, e assim aumentar o meu repertório. E algo que me chamou bastante atenção foi como a mudança climática e violência contra a mulher se tornaram temas recorrentes nessas obras.

Eu tive educação ambiente na escola, me lembro claramente das previsões catastróficas da professora, sobre como nós estávamos destruindo a camada de ozônio, isso, comigo ainda na quarta-série. Depois fiz trabalhos sobre os tragênicos, sobre o aquecimento global, o efeito estufa, e me lembro que sai alarmado, queria mudar o mundo, até mesmo cogitei, apenas cogitei, não comer carne.

Mas então veio o trabalho. No meu auge de meus 19 anos eu passei em um concurso e comecei a trabalhar. Também tenho uma crônica sobre o período: “#0045 Passar num concurso pode ser a pior coisa que irá te acontecer”, que eu conto melhor sobre meus últimos 12 anos. Nunca mais me importei com o tema. Claro, senti os efeitos do aquecimento global, necessitando comprar um ar-condicionado para conseguir dormir.

Eu sei, cai na ideia idiota de que se eu não sei do problema, logo o problema não existe. Mas em minha defesa, só pude me importar com isso quando tenho uma expectativa de vida e a vontade de ter filhos! Se antes, meu desejo recorrente era por fim na minha vida, e o ódio pela humanidade, como se importar que um planeta qualquer está aquecendo e suas espécies vão morrer? A própria Terra vai desaparecer.

Mudei e me importei. E quando pesquisei um pouquinho sobre o tema, já fiquei fascinado, por exemplo, os cientistas pegaram os diários de bordos dos comandantes dos navios, que viajavam pelo hemisférios sul, para conferir a medição da água. Eles sempre mediam a temperatura da água nas viagens. Com base nisso conseguiram ter um mapa completo da temperatura do planeta. E assim, podem afirmar com uma precisão cirurgica que a média de temperatura do planeta já aumentou em 1,2 graus.

As consequências já podem ser notadas, mas não para todos os grupos. Por exemplo, as enchentes catastróficas no Rio Grande do Sul em janeiro de 2024, são uma prova, não é? As consequências podem ser notadas, seca na Espanha, aumento do azeite. Problemas também na safra do café, e o preço quadruplicou. Mas não, para muitos isso é culpa do Lula. Lembro-me como se fosse hoje, no meu ambiente de trabalho, em que as pessoas precisam ter um curso superior e ser aprovadas num concurso, um ex-chefe disse que as enchentes foram premeditadas. Sabe, o tal do Foro de São Paulo, tinha uma máquina que fazia chover sem parar, tinha até patente e tudo. Não há diálogo com esse tipo de gente. Como você pode argumentar que isso não faz o menor sentido, que aquela enchente não beneficiava ninguém. Que aquilo não tinha lógica nenhuma. Felizmente, não trabalho mais no mesmo setor, mas até sinto um pouco de saudade da criatividade das histórias conspiracionistas.

Por outro lado, a realidade é sempre muito mais complexo. Claro que para eu ter um posicionamento, eu preciso ter tempo, preciso estudar. E a realidade da vida das pessoas é que não temos esse tempo, não temos dinheiro, somos como um sapo na panela de água fervendo. Pra completar, países como o Brasil, alguns asiáticos e da África serão muito afetados. Inclusive a elite do agro, que não vai mais conseguir alimentar o mundo, se as piores previsões estiverem certas.

Mas o problema é que não vai ter um grande evento que vai fazer com que todos se mudem, ou que mate a população de uma única fez. O cenário se assemelha a panela esquentando. Pra completar, inventaram a IA, será que ela será uma solucionadora que vai inventar formar não poluentes de produzir? Ou será que vamos esquentar, as safras vão morrer, e teremos mais de 3 bilhões de pessoas desaparecendo, por falta de comida, emprego, e mortas por furacões. Tudo fica cada vez mais comum. Na noite de ontem choveu forte a noite inteira e acho que nunca tinha visto isso na minha vida.

Ao mesmo tempo precisamos ter cuidado com o que construímos como ideologia. Vivemos constantemente cenários de apocalipse. Se antes, tínhamos um Jesus aparecendo na palestina e dizendo que o fim estava próximo, anunciando o apocalipse, e 2 mil anos depois, não teve apocalipse, embora nunca mais a população judaíca foi a mesma.

Os pessimistas dizem que por conta das variações climáticas teremos os refugiados climáticos. E os países ricos como Europa e EUA irão se fechar. Os extremistas irão se agarrar ao poder e jogarão a culpa dos problemas enfrentados, como por exemplo, reconstruir diversas vezes as mesmas cidades vítimas dos furacões. Em suma, em todas as referências básicas que procurei, estamos muito próximos do fim. Será que seria então esse o grande filtro?

Não sei se você conhece a teoria do grande filtro. Mas vamos pensar no universo, ou melhor, na Via Lactea, que é uma das milhares de galáxias que existem no universo. Se então, somente na Via Lactea existem bilhões de estrelas, logo, devem existir milhares de planetas com condições propícies para a vida, então a vida no universo é abundante. Ou seja, deveria ter uma espécie inteligente em toda esquina de estrela. Só que isso não é a nossa realidade empírica. Não temos contato com nenhuma outra civilização que tenha dominado foguetes e tenha saído da proximidade de sua estrela, esse é o paradoxo de Fermi. Lendo essa crônica você já deve ter notado que não acredito em nenhuma teoria conspircionista, então por favor, nada de dizer que eles existem e são escondidos e blábláblá. Pensando nesse paradoxo, que existe vida abundante no universo, mas não tivemos contato com outras espécies. Então, surgiu a teoria do grande filtro. Não conhece essa teoria? Eu te explico.

Existiria uma barreira, ou “filtro”, em algum ponto da evolução da vida que é extremamente difícil ou impossível de ser superada. Essa barreira poderia estar no passado da humanidade ou no futuro. Se o filtro estiver no passado, significa que a humanidade já superou um grande obstáculo, como o surgimento da vida a partir da matéria inanimada ou o desenvolvimento da inteligência, tornando-nos uma das poucas, ou talvez a única, civilização a ter sucesso. Convenhamos, para mim também é assustador, pensar que o homo sapiens é o único ser do universo com a inteligência para significar uma existência. No entanto, o Grande Filtro pode se encontrar no futuro, isto é, a vida inteligente surgiu em diversos pontos do universo, mas em algum momento posterior ao que vivemos agora, aconteceu algo como uma guerra nuclear, uma inteligência artificial hostil, ou toda civilização se desenvolve mais rápido que o planeta suporta e se extingue ao não suportar as mudanças climáticas ocasionadas por seu desenvolvimento. É assustador pensar que possamos estar caminhando para esse grande filtro.

Mas seria o fim, as mudanças climáticas iminentes e inevitáveis? Alguns especialistas dizem que já atingimos o ponto do não retorno, o que significa que a Terra demorara por volta de 10 milhões de anos para se recuperar da aventura humana na Terra. Mas nem todos são tão pessimistas assim, Cixin Liu, em sua obra, literária, explica o paradoxo de uma maneira diferente. Para ele, nós vivemos como numa floresta sombria, em que qualquer um pode ser uma ameça, todos ficam escondidos e quietos. Não se sabe se o que vem é um caçador ou uma caça. Como se a existência de uma outra espécie inteligente, colocasse em risco a nossa própria espécie, neste sentido, o universo seria abundante de vida inteligente, mas todos estariam escondidos e torcendo para não serem encontrados. É uma visão também um quanto assustadora. Mas nesta visão, todos sobreviveriam as eventuais mudanças climáticas.

Cada dia está mais quente, e nossas cidades não são muito inteligentes, muito menos nossas casas, e para solucionar isso, nos limitados a comprar ares condicionados, e ignorar os problemas. Tudo bem eu sei que é tudo muito mais complexo, e que a solução também precisará ser coletiva, mas até lá, vamos precisar sim tomar algumas medidas individuais, deixo esse vídeo para que você tenha uma ideia da dimensão do problema.

Se você é um leitor ou uma leitura frequente sabe que não proponho soluções. Ainda mais em um tema que acabei de iniciar meus estudos. Mas nós sabemos que tudo é passageiro, até mesmo esse planeta, e se há algo recorrente nas culturas são os mitos do fim do mundo, por exemplo, o mito fundação da etnia Yanomami é a Queda do céu, e também é a história apocaliptística deles, a queda do céu. E me parece um céu caindo como algo quente. Espero que não torremos demais. Por outro lado, acho válido lembrar que somos antigos.

Um dos últimos livros que li se chama “Arqueologia da Amazônia” um livro básico que todos nós deveríamos ler, para conhecermos um pouco do passado de nossos ancestrais. De alguma forma nos distanciamos dos indígenas, e é um livro que fala da ocupação da Amazônia, do processo de domesticação de diversas plantas, como mandioca, tomate, e outras. É interessante ver outras relações possíveis com a Terra. E também, recentemente entrei no hiperfoco para entender a migração do homo sapiens pela Terra. Não é fascinante pensar que ele começou a se espalhar pela Terra a mais de 100 mil anos? Que há registros deles dominando embarcações e colonizando ilhas há mais de 60 mil anos? E nessas andanças encontrei um canal muito interessante que conta um pouco dessas histórias. E uma das hipoteses para a chegada do homo sapiens na América é por meio de navegação, sabe-se que há milhares de ano, o nível do mar era mais baixo, e é possível que os povos originários da Oceania tenham sido os mesmos dos povos Amazônicos. Portanto, os indígenas teriam ocupado a muito mais tempo.

Por que estou contando tudo isso? Para trazer esperança. Nós somos como baratas. Uma praga que sobrevive. E a tendência é que mesmo num pior cenário continuaremos sobrevivendo. Como também, se nós estamos tendo essa conversa, significa que também plantei uma semente em você, e esse trabalho tem sido feito por outros, por outras causas. Talvez um grande choque nos abale, ou talvez apenas nos distancei mais. Seja o que for, nós devemos nos inspirar nos nossos ancestrais e nos adaptarmos aos novos tempos. Lembre-se de que ninguém sabe exatamente o que vai acontecer e se nós realmente vamos nos tornar uma civilização pré-industrial. Mas nós sabemos que precisamos sobreviver, apesar disso.

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