#0051 Passar num concurso pode ser a pior coisa que irá te acontecer

“Hoje sou funcionário público e este não é meu desconsolo maior.” Murilo Rubião

Comecei citando Murilo Rubião em seu conto: “O ex-mágico da Taberna Minhota”, o protagonista é um mágico, vivendo nos anos 1930; ele simplesmente não sabe como veio parar no mundo “Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude”, é do gênero do realismo fantástico. Funciona assim, existe magia, mas não há explicação para ela, não é como no Harry Potter, em que há magia, varinhas e bruxos, e também não existe todo um sistema de magia completo e cheio de camadas, não, não é isso. É como se a magia fosse integrada ao mundo, você não estranha que existem gatos, eles simplesmente existem. Dessa maneira, o nosso mágico é inserido no conto, não temos muitas explicações sobre sua existência, o seu passado, ele simplesmente existe e um belo dia se dá conta que é mágico.

Ele existe na taberna minhota. Até um dia que ele simplesmente retira do bolso o próprio dono do restaurante da taberna, sim ele retira do bolso o dono do restaurante da taverna! E claro, faz o próprio dono ficar perplexo com a sua existência repentina, e ele questiona nosso protagonista, que responde: “O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para a sua presença no mundo?” Disse-lhe que estava cansado. Nascera entediado e cansado.”

O nosso mágico passou a trabalhar na taberna, mas seu emprego não durou muito, pois costumava retirar diversos almoços grátis do bolso e dava aos clientes; claro que isso não agradou o dono do restaurante. Que arrumou uma recolocação profissional para ele no circo. No circo o mágico fez sucesso, aumentou os lucros do patrão. Mas a vida do nosso mágico começou a se tornar insuportável: “Às vezes, sentado em algum café, a olhar sistematicamente o povo desfilando na calçada, arrancava no bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencionalmente o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.”

E isso vai se intensificando, até que um dia, muito irritado, ele mutila as mãos para não fazer mais mágica. Claro que não adianta e suas mãos nascem outra vez. Nosso protagonista tenta de todas as formas colocar fim em sua própria vida, até que um dia: “Ouvira de um homem triste que ser funcionário público seria suicidar-se aos poucos.” Então ele que se encontrava desesperado para pôr fim a sua vida, avalia que de toda a forma não faria diferença ser rápido ou devagar, então ele se emprega na Secretaria de Estado. O conto se passa em 1930, era anterior aos concursos públicos, mas claro, já existiam as repartições públicas e o ofício de servir.

E o ano de 1930 se passa e nosso mágico não morre, mas sente que foi o pior ano de sua vida, agora lidava com a aflição dos homens. E isso o torturava, pois não tinha lembranças e precisava encarar aquela dor, de lidar com os outros humanos. Em 1931 é o pior, ele se apaixona por uma outra funcionária, em meio ao anúncio do governo sobre uma grande demissão, o medo correu solto na repartição. Ele também ficou com medo. Não por ter algum apego ao emprego, não; ele temia não ver mais a colega por quem era apaixonado. Tentou uma mágica. Foi até o supervisor e disse que já tinha dez anos de trabalho e por isso não poderia ser demitido. O supervisor responde: “Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, com a ousadia de afirmar que tinha dez.” Ele tenta procurar em seus bolsos um papel que provasse que ele tinha dez anos, mas nada encontra, vencido: “Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.” O conto termina assim, com nosso protagonista funcionário público, sem passado, sem mágica e sem futuro.

Algo que me marcou muito em relação ao conto é como a burocracia afeta o nosso protagonista. Não há nada como a burocracia. Nada nos mata mais lentamente do que sermos vítimas da burocracia.

Eu nunca imaginei que um dia seria funcionário público, e ainda por cima, bancário! Mas a vida acontece até mesmo quando você trabalha para comprar alimentos para seu corpo sobreviver. A maioria dos colegas que conheço também não teve esse “sonho” de ser bancário. Todos eles viram uma oportunidade e empregaram horas e mais horas de estudos na cadeira até conseguir a tão sonhada aprovação num concurso público. É como se hoje o nosso emprego fosse o plano b para uma vida.

Igual ao protagonista do conto, necessitamos encontrar em nosso ofício alguma paixão que imprima um sentido para trabalhar, pois não se engane, depois de satisfazer as nossas necessidades básicas, o que vem é a depressão. Parafraseando Clarice Lispector, digo que a nossa paixão se transforma em uma terceira perna, alguns de nós se perde em dívidas e mais dívidas tentando preencher o buraco do peito de uma existência burocrática e sem graça em casas de luxos, viagens, carros, numa busca incessante por mais e mais sem nunca conseguir chegar próximo da sua real satisfação que talvez seria não ter nada daquilo. É como se cada dia naquele lugar ela crescesse, não nos permitindo sair; ela nos segura, nos deixa estáveis, mas nos impede de voar. Ela se alimenta do nosso tempo, ou seja, de nossa própria vida, e nos exige uma quantidade tão absurda de força que não temos energia para mais nada, além de fazer empréstimos e comprar. Comprar não nos exige nada, nos alegra, e fortalece ainda mais a nossa terceira perna.

E assim já são 12 anos e 8 meses e 1 dia convivendo com ela, a terceira perna. Nesse período vi de tudo, desde feedback de superiores dizendo que eu não poderia ser promovido, pois eu não bebia com eles, até mesmo os que faleceram meses antes da tão sonhada aposentadoria. E os outros planos? E os outros sonhos? E conhecer o mundo? E não ser responsável, não ser cúmplice desse sistema tão injusto? E… Afinal, quem é mesmo que sonha ser bancário?

Eu sei que parece tudo muito ruim, mas é óbvio que não é assim. A nossa terceira perna é também a nossa melhor aliada. Nós percebemos o seu valor quando forças políticas intervêm no andamento dos processos. Nós somos seres humanos, e como qualquer um teremos uma variação na produtividade, há dias e dias, fases e fases. O sonho do capitalista ainda não se concretizou, ainda somos humanos, e eles ainda não tem robôs autônomos para tudo produzir e nos eliminar. Quando chegam gestores que querem robôs que sempre produzem a mesma quantidade, e façam tudo do mesmo jeito, e que as mulheres não engravidem, e ninguém tenha vida fora do trabalho, e assim, claro, nos assediam ao extremo. Quando essa espécie de ser humano, que mesmo que tenha passado no mesmo concurso, mas não se vê como igual, e que não reconhece a sorte que teve por ocupar o cargo que ocupa, quando ele tenta nos tirar de onde estamos, quem é que nos segura é nossa terceira perna. Por mais que queiram nos expulsar, cada um de nós segura nas mãos uns dos outros e como uma bela resistência, seguramos a onda e continuamos servindo a população. Lutando em conjunto que a minha categoria conseguiu o direito de trabalhar 6 horas e se tornar bancária, em 1985 na maior greve dos bancários da história.

Quando você é funcionário público você se torna o próprio Estado. Aliás, indico a leitura do conto “O Espelho” do Machado de Assis, que retrata de maneira genial, como nós não conseguimos separar o homem do ofício. E sendo o Estado, elas não esperam que você seja humano, tenha cansaço, falhe. Não, elas descontam toda a frustração que elas têm com o Estado em você, e isso não é fácil, sem a terceira perna seria impossível resistir. Mas você também sendo o Estado, você consegue ajustar e girar as engrenagens do sistema para fazer o direito se encontrar com as pessoas. Queríamos que todos pudessem ter uma postura assim, mas um concurso público é uma prova que envolve muita sorte e nem sempre, seleciona as pessoas com as competências adequadas para o cargo.

Na data que escrevo isso, podemos dizer que os concursandos estão se tornando, se já não se tornaram, profissionais. Eles estudam de trás para frente o edital, dominam muita coisa, e claro, quanto mais uma pessoa estuda, maiores são suas chances de se tornar agraciada pela sorte. Neste ponto, um detalhe, uma questão, um dia mais inspirado, uma lembrança, tudo isso será determinante para a aprovação ou não em um concurso público. Então neste sentido, cada órgão escolhe os seus guerreiros que estão aptos para as batalhas que ocorrerão daquele período em diante.

Embora também seja verdade que uma parte significativa do exército não esteja preparada, de maneira alguma, para o ofício. A terceira perna também mata. Ela limita quem nasceu para correr.

Comigo não é diferente. Existiu um momento em que o meu maior sonho era amputar a minha perna, e isso é um pensamento, que me invade uma vez ou outra. Nunca vou me esquecer daquela semana, vivíamos o auge da pandemia, milhares de mortos e as vacinas ainda não tinham chegado. No sistema em que vivemos, o funcionamento dos bancos é considerado um serviço essencial, pois é, sem o sistema financeiro, não existe capitalismo. Bem, graças a Deus eu não adoecia, mesmo trabalhando todos os dias no banco, enquanto minha esposa, também servidora, mas em outro serviço essencial, trabalhava num hospital. Nosso corpo sobrevivia, apesar de não fazermos atividade física, na época, não tínhamos doença, embora não fôssemos saudáveis. E minha terceira perna dava sinais, havia um tempo que ela mostrava que precisava de atenção. Até que um dia ela começou a doer tanto que mal conseguia respirar.

Neste dia, felizmente, poucas pessoas precisaram do banco, e pedi para o meu chefe me liberar para que eu pudesse ir ao hospital, eu estava com medo de ter adoecido, estávamos no auge da COVID. Graças a Deus naquele dia não havia clientes e eu finalmente pude cuidar da minha terceira perna.

Escolhi um hospital aleatório da Rede DOR, que no ano de 2024 fechou o ano contábil com um faturamento de 14,1 bilhões, isso mesmo, bilhões de reais. Estacionei meu carro, peguei a senha e aguardei. Tudo normal durante a triagem. Aguardei para ser atendido pela equipe médica. Quando fui atendido, era um homem, que, como rotineiro não olha em seus olhos, pergunta as perguntas padrões como um robô, e no final, me disse que não sabia o que eu tinha, mas para que eu ficasse tranquilo, que não era COVID, e me encaminhou para o laboratório para que eu pudesse fazer os exames. Você ficaria tranquilo? Eu relaxei, mas logo a terceira perna voltou a doer. Avisei minha esposa que começou a ficar preocupada, mas disse que não deveria ser nada…

Isso me lembra um caso recente, um colega, acordou passando mal, não quis acordar a esposa, pegou o carro, foi ao hospital, quando chegou lá, faleceu. A esposa acordou atordoada sem saber do esposo. Deve ser horrível. Então, deixo a dica: sempre avisem uns aos outros antes de irem a um hospital.

Os exames saíram e o médico me chamou, a esta altura o plantão já havia sido trocado e já era um outro médico. Este outro, não me deixa esquecer de seus olhos cansados, como quem não dormia noites e mais noites, e que só desejava terminar o seu turno e ir para sua casa ao encontro de seus familiares. Mas então, se limitou a dizer, sem me olhar nos olhos:

“Não sei o que você tem, mas vou te internar na UTI para investigarmos.”

Na UTI a única sensação possível era uma gratidão por não ter que voltar ao trabalho. A terceira perna parou de doer, ela finalmente poderia descansar um pouco. Mas é claro que eu não poderia imaginar o que de fato era uma UTI.

Quando eu cheguei, tomei o meu primeiro susto: eu não poderia ficar com o celular. Eu precisava ser internado numa UTI e não poderia ficar com o meu próprio celular! Aguardei então minha esposa para pegar os meus pertences, nosso carro, minhas roupas, e me deixar algumas cuecas. Depois nos despedimos e eu entrei para uma das que seriam uma das piores noites da minha vida. O leito ficava no final do corredor, me acompanharam, vieram os técnicos de enfermagem, furaram meus braços, colocaram soro, e a cada 2 horas retornavam para fazer mais furos e recolher exames.

Ser humano é algo peculiar, quando nos lembramos, não estamos lembrando de fato do que aconteceu. Seria incrível se armazenássemos os acontecimentos como os computadores armazenam fotos, mas a realidade não poderia ser mais distante disso, nós revivemos aqueles momentos todas as vezes que nos lembramos. E quando isso acontece, ressignificamos os eventos conforme as nossas crenças atuais, afinal, nenhum ser humano é o mesmo durante a sua vida. Então, quando eu me sento e escrevo sobre aqueles dias de agonia, não sou mais o Gustavo com seus 27 anos, sou o eu de hoje, com todas as novas ideias e personalidade de quem eu sou. E olhando para traz consigo hoje entender porque fui para uma UTI com um custo em média de 4 mil reais por dia, simplesmente para tomar soro. Na época achei um exagero, mas hoje, penso que se eu fosse médico, numa mesma situação, internaria, na dúvida você assume o protocolo mais completo para tentar salvar a vida de um paciente. E se estou vivo, talvez foi por conta dessa atuação.

Claro que no primeiro dia não era possível que eu soubesse que o tratamento para o que tinha era simplesmente repouso e soro. Eu apenas aceitei, e fiquei naquela UTI. Algumas semanas depois eu recebi um diagnóstico preciso: burnout seguido de depressão severa. Mas naquele dia eu não sabia que tinha tido uma crise de pânico causada pelo ganha pão de cada dia. E sem dúvida, ficar sozinho sem poder conversar com a minha esposa só agravou a minha situação.

Eu não dormi. É quase impossível dormir em uma UTI, a cada duas horas são diversos exames, furos, dor, luz. Tenho medo de agulhas, tenho insônia, tenho apneia, então aquilo era horrível para mim num grau que não consigo descrever. No dia seguinte implorei para a psicóloga para liberar o meu celular, mas claro, não foi sozinho, foi com a ajuda da minha esposa, que pedimos e então a psicóloga liberou o celular. Melhorou, mas lembram, era a época da COVID, a cada dia milhares de pessoas morriam. Eu pensava que meu caso era grave, no Brasil faltavam UTI para as pessoas, e eu estava lá, ocupando um leito, então eu deveria estar morrendo, era isso que se passava em minha cabeça. E via diversas pessoas, vizinhas de leitos, tendo seus corpos sem alma, mortos, recolhidos.

Passaram então um, dois, três, quatro, cinco dias e nada! Os níveis da enzima que estava alterada começaram a diminuir, mas ainda em um ritmo muito lento. E eu continuava na UTI tomando soro. Sim, estava internado numa UTI para tomar soro e ficar repousando. Pesquisei então os direitos dos pacientes, e vi que o Hospital não poderia me segurar caso eu optasse por sair, é algo chamado evasão do hospital, então o paciente assume as consequências por seus atos, assina uma série de papéis e pode ir embora. Espero que você entenda que eu estava com um quadro depressivo, e estar internado numa UTI era quase impossível para mim, eu não estava aguentando mais. Realmente tinha chegado ao meu limite, pois eu não sentia nada, além dos problemas na minha cabeça. Finalmente livre do hospital, procurei médicos especialistas que me explicaram que tudo o que tinha acontecido foi porque eu fui para academia e não estava acostumado, pode rir, eu sei, é engraçado. Deixa eu explicar melhor: quando você começa a atividade de musculação, seu corpo acaba sofrendo pequenas lesões para poder se reconstruir mais forte. Mas imagine que seus músculos são como balões cheios de uma substância espessa. No meu afã de mudar de vida, eu não fiz apenas pequenos furos nesses balões para estimulá-los, o esforço foi tão bruto que eu os fiz estourar. E não foi nada de tão excepcional, era simplesmente porque eu era completamente sedentário e iniciava a musculação. Então, todo aquele conteúdo interno vazou massivamente para o meu sangue e foi direto para os meus rins, que funcionam basicamente como um filtro de café. Como essa “sujeira” (a mioglobina) era pesada e pegajosa demais, ela poderia entupir o filtro. O nome técnico é Rabdomiólise. Graças a Deus eu não tive isso, mas eles me internaram preventivamente. A tal enzima alterada que os médicos monitoravam não era o veneno em si, mas o sinal de fumaça avisando que meus rins estavam prestes a pifar por estarem entupidos. Por isso a internação na UTI e os litros intermináveis de soro: eu não precisava de remédio, eu precisava de uma lavagem de alta pressão, uma enxurrada de água para desentupir o sistema antes que ele parasse de vez. A ironia do destino é implacável: a “terceira perna” da burocracia tentou matar a minha alma lentamente, mas foi a minha tentativa desastrosa e repentina de ficar saudável que quase levou meu corpo.

Já sabe o ditado: “há males que vem para o bem.” Comigo foi assim, fiz desse acontecimento o gatilho para finalmente cuidar de mim. Quando viajamos de avião os comissários falam sempre o óbvio: você primeiro coloca a sua máscara de oxigênio para então tentar ajudar o próximo. E cuidar do outro é o sentido do serviço público.

Mas se servir a população fosse apenas desgraça, eu já poderia ter terminado o texto por aqui. Mas não, para mim servir o público é uma missão. Você precisa desejar, superar obstáculos para a construção de um país melhor. Como já tratei em outras crônicas, não é o meu objetivo ter respostas superficiais e provavelmente incompletas com a solução para todos os problemas do mundo, longe disso, sou apenas um trabalhador escritor tentando compartilhar uma vida melhor. Mas claro, tentarei colocar um pouco de luz em um tema tão obscuro como o serviço público.

Eu vejo o mundo como ele é, um mundo em que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e que boa parte da população deseja passar num concurso público, que é ao mesmo tempo uma possibilidade real, democrática, pois qualquer um pode passar, e é uma das únicas formas de ascensão social, mas é também o desejo de “não fazer nada”, infelizmente também impregnado em nossa cultura. Em contraste a uma iniciativa privada que não libera uma mulher nem para fazer um parto em paz https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/06/03/mesmo-apos-aborto-bancaria-e-proibida-de-deixar-trabalho-em-agencia-no-to.htm, no serviço público há um mínimo de dignidade a pessoa humana. Todavia, enquanto na iniciativa privada há materiais disponíveis, no sentido de existir um lugar físico com conforto material para se trabalhar, no serviço público cenas como essa são constantes: https://www.instagram.com/reel/DRe3rKbDs4g/. Se acontece isso com os tetos? O que falar da ausência de cadeiras? Papéis? Grampeadores? Ares condicionados? Isso que nem vou falar da saúde, dos equipamentos quebrados que demoram décadas para serem arrumados. Então se você espera passar num concurso público para ter a glória, sinto muito em te dizer que não vai acontecer, e você também, não ficará rico. Claro que também é preciso deixar claro que falo de concursos da maioria dos serviços públicos, aqui não entra o alto escalão, ou seja, o legislativo e as áreas fiscais. Portanto, se você não escolher o seu cargo e não se identificar com a sua atividade fim, será o seu fim. O pior é que o concurso, se você não fizer um bom trabalho, você não vai ser demitido, não, a terceira perna protege você, embora, se você for um ser humano normal, não se dedicar, não imprimir o seu melhor no trabalho, vai simplesmente te matar.

E sejamos sinceros, é muito difícil passar num concurso público, seja ele qual for. Mas superando esse desafio inicial, você realiza esse sonho e toma posse no seu cargo público. Acontece o que acontece com tantos outros! Você pouco a pouco começa a deixar de ser o que você foi um dia e se transforma finalmente em sua profissão.

Já reparou que quando conhecemos alguém, o adjetivo que escolhemos para saber mais sobre aquela pessoa é sua profissão? Não é Maria que gosta de ler livros, é Maria, bancária. E seja empregado público ou não, você não consegue fugir disso. Nós somos a nossa profissão, mas é claro que não somos apenas isso. Entender isso é libertador.

Quando o que nós somos no trabalho entra em conflito com aquilo que somos em nossa vida fora do trabalho, sofremos. Não existem dois seres, o Gustavo do trabalho e o Gustavo da vida privada, é o mesmo ser que tem comportamentos diferentes nas mais variadas esferas da sociedade.

Por isso eu digo que ser servidor público é uma missão. No entanto, você já ouviu da sua mãe, você não é todo mundo. Nos meus mais de doze anos de serviço público encontrei-me com aquelas pessoas que tinham um comportamento de “não fazer nada”, porque existe essa lenda urbana de que o servidor não faz nada. Esses servidores, não associam esse comportamento à corrupção, para eles corrupto é apenas aquele que desvia bilhões. E segundo vozes da minha cabeça, entre 20 e 30% dos servidores possuem esse comportamento, mas as motivações para o comportamento variam, alguns são realmente picaretas, outros adoeceram no processo e simplesmente não conseguem fazer diferente.

Quando encontramos um sentido no serviço que prestamos ao público, tudo muda de figura. Como relatei, parei numa UTI quando me desconectei do sentido, pois não existem dois seres humanos, eu sou o Gustavo em todos os ambientes que vivo, e quando eu estava deslocado da minha missão, nada mais fazia sentido. E eu só reencontrei a missão quando minha esposa conseguiu tomar posse no concurso público.

Ela é servidora do Estado. Ela é Assistente Social. Um assistente social é alguém que facilita o encontro da pessoa humana à sua dignidade, ou seja aos seus direitos. E claro, que com uma missão tão forte, e uma identificação junto a missão de sua pessoa pessoal, o resultado não poderia ser diferente de felicidade.

Eu nunca vou me esquecer do dia que ela chegou em casa radiante, pois o grupo que ela tinha feito com pessoas em situação de rua tinha sido um sucesso! E olha, sucesso aqui não quer dizer que as pessoas saíram das ruas e começaram ter uma vida digna, infelizmente existem muito mais obstáculos, mas eu pessoalmente vi o sucesso, quando encontramos numa igreja, que tem uma ação social mais voltada a pessoas em situação de rua, um usuário da política, que reconheceu minha esposa, e nos disse que estava bem, estava morando no Hotel Social*, e que estava se articulando para alugar um barraquinho numa cidade. Mas, vi, em seus olhos, felicidade, brilho, gratidão.

Não devemos romantizar o trabalho nem acreditar que nossos recursos pessoais e finitos existem para servir incondicionalmente ao Estado. Por outro lado, também não podemos subestimar o poder de nossas ações. A iniciativa dela em promover grupos de atendimento a pessoas em situação de rua conseguiu levar políticas públicas até quem mais precisa. Quando essa ação se soma a projetos como o Hotel Social que oferece uma noite de descanso, um banho e, acima de tudo, dignidade, os resultados são transformadores. Vidas são concretamente melhoradas. Não precisamos mudar o mundo inteiro; precisamos mudar o mundo de algumas pessoas.

Hoje, o local onde ela trabalha tornou-se referência. Pessoas frequentemente invisibilizadas, seja pela falta de documentos, aparência, cor ou condições de higiene, e que sofrem toda violência que o Estado pode infligir a um indivíduo, passaram a confiar na instituição. Mesmo sem trabalhar exclusivamente no Hotel Social, posso dizer que ele se tornou uma ponte de apoio essencial para essas pessoas.

Precisamos de servidores públicos como ela. Profissionais que vistam a camisa não do status, da exploração ou do lucro, mas do verdadeiro serviço público — servir a população com dedicação genuína. Sabemos que isso é apenas o começo, uma pequena parte do todo. Mas toda mudança rumo a um mundo melhor precisa começar de algum lugar. Quem sabe, tornando nosso serviço público uma referência, possamos transformar o Brasil em um lugar melhor para todos.

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