Todos dizem que viagens nos mudam, que uma viagem internacional então te transforma em um outro ser humano. Sempre duvidei disso. E por um motivo simples, não é sobre o lugar, paisagens, status ou qualquer outro resultado possível, em que o seu cartão de crédito possa comprar. Quando você compra essas experiências você também ganha alguns likes, e até mesmo começa a acreditar que seus seguidores sentem felicidade com sua felicidade. Não poderia ser tão diferente. Não me leve a mal, algumas pessoas até ficam mesmo, mas a maioria está fudida no emprego, ralando o suficiente para não ter que faltar alimento na mesa, mas já ganham o suficiente para pensar, e sentir raiva de tudo que poderiam ter e não tem. E elas se encontram num abismo que não tem nenhuma possibilidade de em algum momento da vida desfrutar daquilo que é a sua realidade. Então, vamos relevar essa inveja e esse ódio.
Quando viajamos é como se nós nos permitíssemos olhar para as pessoas ao nosso lado. É em momentos assim, que sendo adultos, nos permitimos formar novas amizades e fortalecer nossos vínculos existentes. Viagens não nos mudam, mas as pessoas nos mudam.
Nas duas últimas viagens que fiz, fui honrado pela vida com o privilégio de conhecer duas novas pessoas, sendo que uma delas foi madrinha do meu casamento. Como assim, Aranha, você não conhecia a madrinha do seu casamento? Eu conhecia alguns adjetivos que a descreviam, como por exemplo, sua profissão, seu temperamento, e aspectos que mais ornam do que de fato definem. Acredito que conhecer é conseguir juntar elementos desde adjetivos que ornam, até substantivos que definem. Sim, eu acredito que existe algo dentro da gente imutável e perene que faz sermos quem somos. Você também acredita que existe algo dentro da gente que nos substantivam? Por meio das histórias que soube de sua vida, da madrinha do meu casamento, eu pude sentir que a conheço, e assim, digamos que pude amá-la pela primeira vez.
Quando estávamos com ela, eu a vi viver todos os instantes que eram possíveis a ela viver. Sendo ela paciente terminal de câncer, sabíamos que aquela poderia ser a última vez que nossos corpos estariam juntos. E ela era rapidinha, você piscava ela já estava em trânsito para outro local, outra conversa, outra coisa. Quando chegamos em sua casa, com nossas roupas sujas ao final de uma viagem intensa por uma parte da Europa, num piscar de olhos, ela pegou essas roupas e colocou tudo na máquina para lavar. E quando juntou todas as roupas, inclusive uma rosa, que foi presente de aniversário de minha esposa, e batendo numa máquina diferente, acabou manchando. Hoje, escrevendo esse texto, lembro de seu jeito frágil, mas firme, que nos mostrava: não há tempo a perder, e às vezes as manchas precisam aparecer, e a mancha na camisa que estou também vestido hoje me lembra isso.
Aprendi com ela que não é sobre pressa, é sobre ser rápido. Não é sobre ansiedade, é sobre intensidade. Não é sobre bens materiais, é sobre histórias.
Depois disso, quase pedi demissão. Não conseguia mais ver o sentido num emprego que não fosse para mudar o mundo, eu não via que qualquer coisa muda o mundo todos os dias. A morte veio diante dos meus olhos, e junto com ela a lembrança que uma hora será a minha vez. E até isso acontecer, que escolhas vou travar em minha vida? Como vou viver intensamente?
Mas sem dúvidas o que ficou martelando em minha cabeça quando voltei, até porque eu ando de moto (e vocês sabem a quantidade de motoristas que não conseguem esperar chegar em casa para responder uma mensagem no celular) então a qualquer momento eu posso morrer, ou melhor, ser assassinado. Você pensa, mas por que então você anda de moto se tem esse risco? Viver é um risco. E a maior lição, foi essa, é para viver intensamente, não parar de viver. Andar de moto é diferente, é sentir a Terra como de fato ela é. Eu sabia o que não era viver intensamente, mas ainda não havia descoberto o que era.
Durante um período significativo da minha vida, fui vítima do que chamo, do burguês herdeiro. Como não era possível eu renascer, sendo agora herdeiro de uma grande fortuna, restava trabalhar uma vida inteira, para quem sabe, um dia ter proventos suficientes para conseguir a tão sonhada independência financeira. Você usaria o sistema que te usa para receber algumas migalhas dele e então ter uma vida plena. Mas nós morremos.
E não digo apenas quando sofremos um acidente e temos nosso corpo incinerado ou enterrado. Eu falo da morte da alma. Todos os dias quando não somos coerentes com o substantivo que nos define, nós morremos. E a morte se manifesta de maneiras diversas. Há vezes que sinto um pânico absurdo ao sentar na cadeira e ligar meu computador para mais um dia de trabalho. Há vezes que acordo sem ar às 4 da manhã suado, e me lembro que mais tarde eu terei que fazer uma demanda sem sentido nenhum para dar a parte da minha alma para as engrenagens do sistema gerar. Há vezes que entro compulsivamente em sites de promoções e compro milhares de livros que nunca vou lê. E claro, há vezes que só vou para o banheiro e choro baixinho, pra ninguém escutar e eu poder voltar e dizer que está tudo bem. E todas as vezes, o coração acelera e o pânico no peito é constante, é como se não houvesse ar.
Durante um tempo significativo me enganei, dizendo que era necessário, que eu precisava comer. E de fato, preciso de proteína, um lar, tranquilidade, plano de saúde, tudo o que a nossa constituição garante a dignidade da pessoa humana, que sabemos que só é possível, no Brasil, se você não for herdeiro, só se você trabalhar. E então podemos escolher, tranquilidade do tédio de um trabalho chato, ou a vida e os riscos de você se tornar uma não pessoa, sem recursos, sem saúde, sem direitos. E eu como um bom cidadão resignado, sempre escolhi o lado óbvio, o lado mais seguro, o lado menos divertido, o lado menos glamouroso.
A minha segunda lição é relacionada ao aprendizado, um tanto quanto óbvio sobre o que é viver com intensidade. Muitas vezes em nossa vida, nós não conseguimos identificar os problemas. Por exemplo, quando vivemos uma vida sem intenção, nós sentimos a dor, como se um ácido corroesse nossos olhos e não pudéssemos mais ver a beleza do mundo. É doloroso, mas não conseguimos ver as verdadeiras causas, e continuamos sofrendo as consequências disso.
Muitas vezes associamos os significados de uma maneira completamente equivocada, como se viver uma vida intensamente fosse na verdade curtir. Mas o curtir como algo bem específico, como a realização de todos os desejos da carne de seu corpo. Nem questionamos que uma vida dedicada a festas, drogas, relações sem responsabilidade afetiva, nos trazem prazer e dor. E significamos isso como sofrimento.
Falei sobre tudo o que não é intensidade, mas não consigo ainda definir, consigo relacionar, e intensidade tem a ver com pessoas. Em nossa segunda viagem, fomos a Morro de São Paulo, na Bahia, e lá conhecemos uma pessoa que nos ensinou sobre as relações de intensidade.
Como gostamos de chamá-lo, nosso nativo. Em nosso primeiro encontro ele nos mostrou o desprezo pelo dinheiro, que gostava de uma vida simples, e se via como aquela parábola do empresário e o pescador:
“Um pescador descansava à beira do mar, apreciando a brisa suave depois de uma manhã de pesca. Um empresário muito rico se aproximou e perguntou:
— Por que você não trabalha mais? Se pescasse todos os dias, ganharia mais dinheiro, poderia comprar mais barcos, contratar pessoas, montar uma grande empresa…
O pescador, curioso, perguntou:
— E depois?
— Depois você ficaria rico, poderia se aposentar e aproveitar a vida!
O pescador sorriu e respondeu:
— Mas eu já estou aproveitando a vida agora.”
Nós pensamos que para fazermos algo, qualquer coisa com significado, precisamos de muito dinheiro. Achamos que só os ricos podem aproveitar a vida de uma maneira plena. Nosso amigo trabalhava um ou dois dias na semana, e aproveitava o restante, tinha uma casa, verdade, mas o que ele mais tinha era sua liberdade.
Ele aproveitava a vida aprofundando suas relações, sem medo de dizer um eu te amo.. Sem medo de se entregar, sem dúvidas de sua masculinidade. Quantas vezes não deixamos para depois aquilo que realmente desejamos fazer? O que estamos buscando afinal?
Nós somos quem atribuímos todos os significados, todos. Então, a ilha existia, a natureza, as casas, o sol, o por do sol, tudo. E todos os significados, seja ver um por do sol sentado na calçada, ou ver um por do sol numa festa que custa 200 reais a entrada, serão feitos com a nossa mente. Nós esquecemos que o poder de construir os significados da nossa existência vive dentro de nós.
#0048 A linha de chegada

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