E isso não é um papo sobre ir até a última gota para tentar realizar um sonho e chegar ao Burnout.
O primeiro sonho que me recordo que desisti foi de ser escritor. Você deve está se questionando: como assim, Aranha? Como você desistiu de ser escritor se estou lendo uma crônica escrita por você? Calma que eu explico.
Há decisões que elas acontecem e nós não conseguimos entender a causa. Por exemplo, de alguma forma, em algum momento da minha vida eu sabia que queria ser escritor. Mas, quantos escritores você conhece no Brasil que vivem de serem escritores? Na época eu também não conhecia ninguém. Então, apesar de eu ser sempre um sonhador, eu tinha sonhos pautados na concretude da vida. Como eu poderia ser um grande escritor se não existia ninguém assim? Era impossível para a minha cabeça conceber essa possibilidade. Então eu desisti da prática de me tornar um escritor e comecei a pensar no que eu posso ser para também ser um escritor?
Este foi o primeiro sonho que se esvaziou pelo ralo.
E sim, eu já tinha essas loucuras bem pragmáticas na minha cabeça de estudante do ensino médio. E estamos falando de alguém que não tinha acesso à internet, e seu maior desejo era uma internet banda larga. Na época, internet era um artigo de luxo, hoje, é como se fosse um serviço básico como água ou luz. Faço uma pausa nessa história para dizer que entender como tomei as decisões que tomei me retira um peso enorme: eu não sou um desistente da vida, mas já vivi o suficiente para entender que a vida do cartão postal não é para todos.
O tempo avançou e eu tive algum acesso, finalmente, era uma internet limitada, ou seja, não dava para ver vídeos. Mas eu podia mexer durante algumas horas e ler diversos artigos. E foi assim que conheci a Academia da Força Aérea e comecei desejar me tornar piloto da aeronáutica. Como eu tinha acesso, eu sabia os valores da remuneração, das etapas, tudo, então, mergulhei no estudo para esse concurso. Como funciona? Você faz uma prova para cursar essa “faculdade” de piloto, que dura 4 anos. Durante esse período você recebe uma bolsa para se manter, e quando formado, piloto, começa com a remuneração de R$ 10.443,42, para um quebrado, era um salário de brilhar os olhos, e eu desejava muito ter essa renda. E cheguei prestar a prova, mas me dei muito mal, precisava de um nível absurdo de inglês, e eu não sei até hoje nem mesmo o verbo To Be. Avaliei o custo benefício de todo o esforço envolvido e cheguei a conclusão que se eu quisesse mesmo ser piloto, eu poderia depois me tornar piloto, e não precisava me tornar militar, eu não queria ser militar. Eu desisti do meu segundo sonho, ser piloto.
A esta altura eu conheci o marido de uma prima, ele parecia muito bem sucedido. Era Engenheiro Civil, andava de carrão, falava bem, e ainda tinha estudado na Universidade de Brasília; aquilo me encheu os olhos, ao mesmo tempo que eu me decepcionava com a carreira militar, não me parecia grande a remuneração, e o sacrifício envolvido em tentar chegar até lá, parecia quase impossível. Eu pegava questões para fazer e não conseguia. Mesmo eu, estudando em uma escola particular, sendo um dos melhores alunos, eu tomava porrada como ninguém. Eu ainda não entendia direito o papel dos cursinhos preparatórios para as provas. Na época eu achava que as provas definiam o que você sabe, ou quem você é. E provas de concurso são apenas um instrumento democrático para a escolha dos felizardos. E todas essas reflexões, e impossibilidades, me fizeram perceber que eu não queria e que não era para mim, e que mesmo que eu quisesse ser piloto militar, não seria possível. Eu não tinha apoio suficiente, eu precisava trabalhar, e me sustentar. Mas eu era apaixonado por matemática e física, o que daria para fazer com isso? Pensei.
O ano era 2010, final do segundo governo Lula, Brasil como o sexto país mais rico do mundo. E prédios surgiam como baratas no esgoto. Ser engenheiro civil parecia a melhor opção. Emprego não me faltaria. Só que não foi apenas eu que pensei isso, mas todo mundo, e Engenharia Civil oscilava com Direito como o segundo curso mais concorrido da Universidade de Brasília (UNB).
Não passei.
Na verdade, eu não cheguei nem mesmo a tentar. Sempre fui alguém muito prático, e quando eu vi a concorrência, e meus desempenho nos simulados eu já sabia que não daria para mim. Dado o meu resultado nos simulados e as possíveis notas de cortes dos vestibulares, o que daria então para eu fazer? Foi quando eu encontrei o curso de Engenharias, eram outras engenharias mas todas tão interessantes quanto Engenharia Civil. E tentei. Creio que essa foi a primeira grande decepção para o meu ego, eu, que me considerava tão inteligente, não consegui a tão sonhada aprovação, e mais, reprovei pela redação. Sim, a redação. O garoto que sonhava com a possibilidade de ser um escritor foi reprovado pela redação. E aquela era uma chance única. Eu não poderia fazer o programa de novo, o PAS (Programa de Avaliação Seriada) era um programa para estudantes do Ensino Médio, que consistia em vez de fazer uma única prova com todo o conteúdo, você faria por etapas, no primeiro ano do ensino médio uma prova, no segundo ano outra prova, e no terceiro ano a última prova. Portanto, você só consegue realizar esse programa uma única vez quando você está estudando o Ensino Médio.
Reprovado, ganhei mais uma chance, comecei fazer um cursinho para tentar passar. E olhando de hoje, se eu tivesse insistido em algo que quisesse eu poderia ter conseguido estudar o tanto que fosse necessário até conseguir a tão sonhada aprovação. Estudei como nunca nesses seis meses, e tive uma evolução formidável. Treinei redação até a exaustão. Mas, não consegui, o curso continuava o mais concorrido, e eu precisava estudar muito mais para conseguir. Meu pai então me trouxe uma proposta indecente, disse: por que então você não estuda para concurso? E, enquanto isso, faz uma faculdade particular de Engenharia Civil, na época, achamos uma muito em conta. Eu pensei, é uma boa ideia, estou gastando uma energia para fazer uma faculdade, eu, sendo um quebrado, queria trabalhar, ganhar dinheiro, poder sair, me divertir. Pagar as minhas contas. Ter internet em casa. Pagar uma internet. Estudei. Deixei de lado o vestibular para focar no estudo do concurso e no estudo para a faculdade. Veio a época do vestibular, e pensei: e se eu tentasse? Mas em vez de tentar para Engenharia Civil, que minha chance era quase nula, porque não tentar para Letras Português e investir no meu sonho de ser um bom escritor? Foi o que fiz. E passei.
Passei também nos outros concursos que fiz, todos eles.
E a faculdade? Conciliei. Faculdade de Engenharia Civil e Letras Português, que não tinham nada a ver. Mas que no meu coração eram conhecimentos complementares entre si. Então, esse foi o segundo sonho que abandonei, cursar Engenharia numa Universidade Pública.
Logo, fui chamado para trabalhar numa área pública, e arquivei também o sonho de ser engenheiro. Escolhi trabalhar no meu emprego que eu trabalho até o dia de hoje, eu falo mais sobre o que é ser um empregado público federal na crônica 51, “Passar num concurso pode ser a pior coisa que irá te acontecer”, em que detalho os meus últimos 13 anos de dedicação ao cargo. Olhando hoje, é um sonho que não faz muita falta não. Apesar de parecer que eu tinha um talento nato para a matemática e a física, e que eu conseguia entender aquelas equações como ninguém. Depois que aprimorei a minha habilidade de escrita, me senti satisfeito.
No ano de 2014, creio ter conhecido o concurso que mexeu profundamente comigo. Para os íntimos chamado de CACD (Concurso de Admissão à Carreira Diplomática), achei super interessante, para esse concurso você estuda: português, inglês, geografia, direito, economia, história do brasil, história mundial e política internacional. Se você não é do mundo dos concursos saiba que os outros concursos não tem matérias tão interessantes como esse. Mas ele tinha um problema, precisava saber inglês, espanhol e francês. Tendo três etapas, uma primeira etapa de certo ou errado, com muitas questões (atualmente 240), e uma segunda fase com português e inglês, e finalmente uma terceira com o restante das matérias. E a segunda e terceira fase completamente escritas. Fiquei apaixonado e decidi que queria esse concurso. Depois que você passa, você não começa a trabalhar imediatamente, você fica um ano estudando, era muito interessante.
Adivinhem? Não consegui nem tentar. Na época que comecei a olhar para esse concurso não existiam muitos materiais online, muito menos um curso de línguas estrangeiras focados no concurso, afinal, o concurso não pede que você seja fluente nos idiomas estrangeiros, mas sim que você consiga ler e escrever, num nível C1? Sim. Mas não falar, e escutar.
Foi um período muito conturbado, em três linhas eu poderia dizer que era impossível para um ser humano normal conseguir conciliar estudos, uma universidade federal, e estudo para um concurso, e ter algum relacionamento. Eu como ser humano normal não consegui, e esse sonho ficou arquivado.
Você poderia dizer que é um concurso elitista, afinal quem é que consegue dominar 4 idiomas para uma prova (não se esqueça do português), e de certa forma você tem razão. No novo governo, tenta-se democratizar o concurso, e agora, você precisa saber apenas português, inglês, espanhol ou francês.
Esse sonho ficou arquivado no peito. E comecei a sofrer assédio moral no trabalho, então vivi, no mínimo 5 anos em modo sobrevivência. Foram anos difíceis. E porque eu disse isso tudo para você? Nós nos cobramos muito. Durante muito tempo eu pensei que eu era uma pessoa confusa, pois ano passado pensei em começar a estudar para esse concurso. Mas eu também quis resgatar uma carreira: ser um escritor. Quiçá ser um empreendedor também. Pensei em publicar um livro de crônicas. Sonhei. Só que às vezes, sonhar não basta. Nós não vivemos num mundo onde todos podem realizar tudo. Não. Mas vivemos num mundo em que todos podem ser felizes. A felicidade é a única constante em nossa vida que realmente podemos controlar. Realizar determinado objetivo, pode ser positivo ou não, de toda a forma nós que vamos atribuir significado para o processo. Eu posso me ver como alguém confuso que desistiu de todos os sonhos, ou posso me ver como um visionário inconformado com a vida que tenta de todas as formas mudar o mundo em que vivemos. Eu escolho a segunda opção e você?
Claro que como todo millennium eu também sonhei com a liberdade da internet. Imagina que coisa incrível, poder trabalhar de casa, de qualquer lugar do mundo, vender na internet, viver do que você realmente ama. E o que eu realmente amava? Literatura. Você também já deve ter ouvido falar nesse sonho do marketing digital, que é nada mais que o sonho enlatado capitalista da fortuna. Ficar rico. Eles enchem isso e colocam isso próximo da nossa cabeça. Eu, frustrado no trabalho, como dizem, CLT, mergulhei fundo nisso. Pensei: vou me tornar rico, farei meu curso. Comprei todos os cursos possíveis, fiz tudo que diziam para fazer. E o resultado? Que resultado o quê. Era óbvio que não daria certo. Olhando para essa história com os olhos de hoje, como eu não pude perceber que aquilo não daria certo? Como? Era uma espécie de pirâmide, sim, o vendedor de curso que vendia como vender um curso, e assim por diante. E como eles faturavam milhares de reais, milhares de reais meus também, comprei mentorias, cursos, assinaturas, tudo o que você pode imaginar. E para piorar ainda me culpava por não ter o resultado esperado.
Se você analisar esse negócio friamente, ele é perfeito, você inventa ou traz um método, algo assim. Depois convence as pessoas que elas precisam daquilo, e faz promessas milagrosas, como sair da pobreza, se tornar rico. Fazer 6 em 7, que era uma forte, vender mais de 100 mil reais em sete dias em um lançamento. Ou então, vender todos os dias. Esteja dormindo enquanto o dinheiro cai na conta. E se a pessoa seguir direitinho o método e não ter resultado, não é culpa do método, não é culpa do mercado, a culpa é exclusivamente da pessoa. Claro, a pessoa é a única responsável pelo resultado dela. É uma lavagem tão poderosa, que quando esses vendedores fazem a oferta, eles costumam dizer que a culpa da pessoa não ter tido o resultado sonhado, ainda, é porque ainda não conheceu o método milagroso do vendedor. Se torna um ciclo, você fica frustrado porque não conseguiu, e cai em outra oferta, e se não conseguir, terá alguém que vai ofertar de novo, dizendo que a culpa é do método, que você ainda não encontrou o método correto. É um ciclo infinito. Demorei alguns bons anos até conseguir entender toda a dinâmica da manipulação e finalmente poder desistir de viver de marketing digital.
Quando estava na escola e comecei a desejar me tornar escritor, eu sonhei secretamente que seria um escritor único, um escritor de movimento literário, eu fundaria a minha própria escola literária. É engraçado que quando nós estamos na escola ou somos jovens nós não colocamos filtro em nossos sonhos. Vamos apenas sonhando, como se tudo pudesse ser possível. É possível? Eu me achava tão especial que sonhava em ser um gênio. Como não era super dotado, como alguns, mas por algum motivo eu acreditava que com muito esforço eu poderia ser um gênio a deixar uma marca no mundo. Ser gênio, quanta ousadia. Depois de anos, entendi que é muito mais importante o simples, o comum, a vida mundana. Todos nós temos a nossa importância, na verdade, em certa instância, tudo o que importa é o que está debaixo de suas costelas, a forma como você sente o mundo. No final, talvez, todos nós desejamos ser felizes.
Ah, quase me esqueço, outra coisa importante, quando você pensar sobre os seus sonhos e sobre a sua vida é sobre com quem você compartilha as suas aspirações. Por exemplo, eu, com 32 anos, no meio da vida. Cansado, mas ainda com aquela chama, bem levezinha, de que nós ainda podemos sonhar com coisas grandes. E tive o azar de falar para as pessoas, não tão próximas. Que fizeram alguns comentários, tipo: você não consegue. E eu pensei: elas tem razão, eu não vou conseguir. E desisti outra vez desse sonho. E acho que dessa vez de uma vez por todas.
Não tem problema nenhum desistirmos de nossos sonhos. No concurso para a diplomacia de 2025, foram mais de 8 mil inscritos e apenas 50 vagas. Nem todos vão passar. Mas se eu estudar e não passar, eu ficarei tranquilo? Fará sentido? As vezes caímos na tentação de pensar: vou largar tudo para passar num concurso e isso será a minha vida. Mas, e se você não passar? Nem todos vão passar. Não tem como o ministério ter 8 mil empregados. A sua vida não pode deixar de ter sentido somente por isso. Não tenho mais energia para trilhar o caminho para pelo menos tentar esse sonho.
Os sonhos podem ser arquivados, mas eles nunca podem deixar de fazer o seu coração se pulsar mais forte. Meu sentido se fez quando eu entendi que não fazia sentido realizar os sonhos. O que de fato importava era construir os meus sonhos.

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