Autor: Gustavo Aranha

  • #0021 Arpnead o motvio de vcoê cmorpeneder o tíutlo

    #0021 Arpnead o motvio de vcoê cmorpeneder o tíutlo

    Você conseguiu entender a oração do título mesmo com as letras estando embaralhadas. Quando lemos, trabalhamos a totalidade de nossos neurônios, por isso esse fenômeno acontece.

    É como se usássemos a potência máxima da nossa máquina, que é o nosso cérebro. Essa máquina, quanto mais utilizada, mais potente, mais criativa, mais eficaz, mais eficiente fica.

    O neurocientista Stanislas Dehaene, em sua obra “Os neurônios da leitura”, faz um importante estudo sobre o funcionamento do nosso cérebro durante a leitura. Como já conversamos em outros textos, a escrita é uma tecnologia relativamente nova.

    Segundo Stanislas, existem os neurônios, ou regiões neurais, elas se especializam em determinadas funções, como foi o caso da leitura. O processo de leitura se inicia em nossa retina; nossos olhos captam a luz e transmitem as informações para uma área central, que é uma espécie de ‘recepção’.

    Esses neurônios responsáveis pela triagem sabem que se trata da leitura, então enviam as informações para os ‘especialistas’. A região ‘especialista’ na leitura é uma região responsável por identificar os objetos, ou seja, nosso cérebro aprendeu a adaptar a identificação de objetivos sensíveis em letras.

    Depois que a informação é decodificada, ainda não existem conclusões exatamente desse processo, mas a teoria mais aceita é a da leitura em paralelo. E o que é isso? Bem, nós identificamos a leitura em pares silábicos, isso explica o fato de você ter conseguido ler o título.

    Depois que a região cortical faz essa tradução, o cérebro precisa descobrir o significado. É interessante que existem duas maneiras que ocorrem essa definição de significado, e elas acontecem de maneira complementar.

    A primeira é uma velha conhecida sua: formação de imagens acústicas das palavras; quando aprendemos a ler, aprendemos de maneira silábica, vamos lendo sílaba por sílaba e depois vamos transformando isso em significado, é o grafema, que se transforma em fonema — fonema é a unidade básica de som que forma as palavras. Logo, formamos as imagens acústicas das palavras.

    A segunda maneira é conhecida como a via mental de leitura, a palavra é compreendida como um todo, não escutamos o som. Infelizmente essa maneira demora os mesmos nanosegundos da primeira forma de leitura. Isso implica que é impossível existir leitura dinâmica, visto que a limitação física que temos é a velocidade que nossos olhos percorrem a página e não a velocidade que decodificamos a informação em sentido.

    Após isso, o cérebro consegue saber que aqueles traços parecidos formam uma palavra. Mas uma palavra por uma palavra não traz nenhum significado, por exemplo: admoesta, alcunha, curra, dândi, jaez, petiz, vaneta, etc. Você sabe que isso são palavras, mas se você for um ser humano normal, não saberá o significado delas. Então a palavra precisa de um significado de fato.

    E tudo isso que expliquei para você até agora as Inteligências Artificiais fazem também. Se do outro lado você não soubesse que o chat-GPT fosse uma inteligência artificial, certamente você acreditaria que ele era um humano, eu pelo menos acreditaria facilmente.

    A diferença da forma como nós lemos para como a máquina lê, é que ela vai descobrir o significado daquela palavra por meio de cálculos pesados de matrizes e determinantes, chegando a um texto que parece de um ser humano.

    Enquanto nós humanos vamos pensar em nossas experiências, na nossa memória e trazer o significado das palavras.

    Não devemos deixar de ler, é uma maneira de exercitar o nosso cérebro e produzir massa cinzenta. Sabe quando você vai para a academia? Você treina seus músculos e começa a ver resultados? Com o cérebro é igual. E a leitura é como se fosse a academia do cérebro.

    Se você leu até aqui, mereço que você deixe um comentário.

  • #0020 Por que seu hobby parece uma tarefa

    #0020 Por que seu hobby parece uma tarefa

    Você já se perguntou por que aquele hobby que te dava tanto prazer de repente virou uma fonte de ansiedade e pressão? Por que aquela coisa que você fazia só por amor agora parece ter que gerar dinheiro para ser válida?

    Se você também quer manter um hobby como prazer, sem a loucura das redes sociais e monetização, então você está no lugar certo.
    Hoje quero compartilhar como é perigoso o fato da internet ter transformado nossos passatempos em negócios.

    E justamente, isso foi a minha maior dificuldade em escrever. Não se trata da complexidade da gramática da língua portuguesa; o português que falamos no dia a dia está há alguns quilômetros daquele necessário para compor um texto. O resultado é que escrever não é fácil, se torna uma tarefa tão árdua que às vezes é quase impossível.

    Mas não é essa dificuldade. O maior problema para escrever é adaptar a rotina para conseguir tempo para desenvolver uma atividade como hobby.

    Não podemos mais fazer nada por fazer. Por que fazer algo que te gera apenas satisfação, se é possível ganhar dinheiro ao empregar o seu conhecimento com a finalidade de ajudar outros seres humanos a se desenvolverem, ficarem ricos, saudáveis, felizes, ou não sei mais o quê?

    E não se engane, essa é uma indústria realmente bilionária. Somente no ano de 2024 estima-se que os cursos baseados em hobbies faturaram entre 1,3 e 1,8 bilhões, BILHÕES de reais.

    E isso por si só já é suficiente para me causar um conflito, pois há uma voz que entra dentro da minha mente e fica martelando: “vamos, vamos lançar um curso de alguma coisa, ficar rico”.

    Mas é meu hobby, e talvez eu nem seja bom nisso. E não tem problema, é algo para que me gere satisfação e felicidade no processo.

    Minhas melhores habilidades estão inclusive em outras áreas, que somente agora, depois dos meus 30 anos resolvi me dedicar e deixar esse espaço aqui para o meu hobby como ele deve ser: amador, no melhor sentido, algo que eu faço com amor, sem profissionalização e de doação voluntária.

    E isso é algo que eu gostaria de ter, há coisas que nós vamos escolher fazer e esta coisa não nos trará nenhum retorno financeiro, nenhum reconhecimento externo, e mesmo assim, quando você se senta, você se diverte, você se orgulha, você é apaixonado, não apenas, você ama isso de fato.

    E esse exercício de me sentar, de escrever, de colocar meus pensamentos de maneira organizada, coerente, e trazendo algum sentido para o caos que é viver neste mundo, já é suficiente para mim.

    E por isso é tão difícil escrever. Escrever para mim não é algo profissional, e por não ser profissional, mesmo que eu ame, outras prioridades entram na frente.

    Eu não vou deixar de ficar com minha esposa. Não vou deixar de trabalhar. Não vou deixar de encontrar com meus amigos. Não deixarei de fazer nada disso para escrever.

    Eu desejo que fosse algo diferente? Que eu fosse um escritor profissional e meu sustento viesse daqui? Sinceramente, eu não sei. Escrever de maneira amadora me permite escrever tudo o que eu quiser. É uma liberdade que me liberta.

    Desconfio que talvez todos nós deveríamos ter esse lugar, um local nosso em que podemos nos entregar a algo que nos liberta.

  • #0018 Breves considerações sobre a 4° Revolução Industrial

    #0018 Breves considerações sobre a 4° Revolução Industrial

    Estamos vivendo a 4° Revolução Industrial, e nós não estamos preparados para as mudanças que ela imprimirá na sociedade.

    Esses dias estava escutando um podcast do mamilos sobre o Deep Seek e IA, e foi falado que nós estamos a pelo menos três séculos desumanizando as relações humanas; como consequência preferimos atendimentos de robôs a atendimentos humanos.

    Agora se você diz que é diferente, eu duvido que você goste de cair num call center de uma empresa telefônica para cancelar uma linha.

    Sem nenhuma teoria conspiratória, apenas alguns fatos, nós já estamos nos preparando para sermos substituídos completamente pelas máquinas.

    Agora, será que depois disso, nós estaremos preparados para encarar a existência humana?

    Ou vamos continuar fugindo e rolando o feed de post em post em busca de gastar os preciosos segundos que recebemos de viver nesse mundo por um prazer vazio que retira a nossa humanidade?

    Indicações:
    https://www.youtube.com/watch?v=CRokm8hZisE

  • #0017 O valor da trilha está na sua chegada ou na trilha em si?

    #0017 O valor da trilha está na sua chegada ou na trilha em si?

    O valor da trilha está na sua chegada ou na trilha em si?

    Eu já defendi que nós devemos valorizar a jornada e não o resultado. Mas será que isso é de fato possível? Vamos analisar com calma.

    Volto a trilha; utilizarei como exemplo a trilha da Pedra da Gávea que foi a trilha mais difícil que já fiz e a mais linda que já vi. Esta trilha é peculiar por ter uma paisagem deslumbrante no final. Você fica em uma das maiores pedras a beira mar do mundo. São 842 metros de altura, então imagina a visão do Rio de Janeiro, é algo único e indescritível, é daqueles “algo” que as palavras não conseguem captar e fazer você entender o que é de fato aquela trilha.

    Mas só é possível chegar aquela contemplação se fizermos toda a trilha. Então, nesta medida o fim justifica o meio.

    Nem sempre as trilhas terminam com uma contemplação, muitas vezes, e talvez na maioria das vezes a trilha é a trilha, sem nenhuma vista, uma cachoeira ou qualquer coisa que justifique você fazer aquela trilha, a não ser a própria trilha. E este é o segundo caso, que digo que talvez não seja possível você fazer algo sem esperar o resultado, mesmo que você se concentre apenas na trilha: a trilha em si é o resultado, logo a trilha = resultado = meio. Então é um fim que justifica um meio.

    Isso é um paradoxo, pois o fim é sempre uma justificativa para o meio, mesmo quando o fim é o próprio meio. Leia de novo. Viajei?

    Você já deve ter ouvido falar, ou deveria, em produtividade positiva, que é a ideia de que você não deveria descansar para produzir mais. Nem ler para produzir mais. Nem tentar aprender novas coisas para produzir. Não fazer nada com a destinação de produzir mais. Concentrar-se em fazer algo para fazer algo. Dessa maneira, descanso, leitura, atividade física, seriam um fim nelas mesmas.

    Essa é uma ideia de que o meio deve ser a justificativa. Você não deveria fazer algo presente pensando em algo futuro, faz sentido certo?

    Deixa eu te desiludir. Suponhamos que você e eu consigamos essa motivação tão nobre de não ter nada de extraordinário para cumprirmos coisas ordinárias da vida. Ainda assim, quando cumprirmos a motivação, teremos o mesmo resultado. Pois como expliquei, o meio se torna o fim, e inevitavelmente você estará utilizando um fim para justificar o meio.

    O descanso será descansado. O livro será lido. O conhecimento será igual. Por mais que pareça nobre ler por ler. Caminhar por caminhar. De alguma forma tudo é movido para o resultado, nem que o resultado seja simplesmente cumprir aquela determinada ação.

    E não há nenhum problema de existir mais de uma motivação, como descansar para trabalhar melhor, ou ir a academia para manter um corpo saudável, por exemplo. Talvez haja problema quando você deixar de ver sentido nos eventos ordinários da vida.

    E é uma linha muito tênue entre você ver sentido nas coisas ordinárias da vida, e pegar emprestado o sentido que outros veem em coisas ordinárias da vida. São coisas bem diferentes, mas a linha que as separa é tênue.

    Se a escolha é sua, tudo bem, mas se você terceiriza seus sonhos para expectativas externas sobre o que é você é um problema.

    Mas será que de fato conseguimos escolher alguma coisa? Isso é papo para outro texto.

    De toda a forma, seja qual for o que você escolher: você tem toda a razão sobre sua vida.

  • #0016 Brasil e a sua eterna promessa de se tornar uma potência

    #0016 Brasil e a sua eterna promessa de se tornar uma potência

    Brasil e a sua eterna promessa de se tornar uma potência

    Brasil a eterna potencia que não se consolida em conforto para nós cidadãos que estamos tentando construir uma nação próspera.

    Eu sei que você também já se revoltou com os serviços públicos, ou a ausência deles; como a falta de leitos nos hospitais, e pessoas que precisavam de UTI em corredores de hospitais lotados.

    Nós brasileiros, de maneira geral, somos um povo que trabalha muito, pagamos nossos impostos, temos diversas riquezas naturais, e ainda assim, bem, você sabe. Nós também recebemos bem nossos visitantes. Tratamos tão bem os estrangeiros que algumas vezes chegamos a tratá-los melhor que nós próprios brasileiros.

    São tantas coisas positivas que nós deveríamos viver num paraíso, não é?

    Mas a verdade é como se tivéssemos pedido para um gênio malvado que as terras tupiniquins fossem um paraíso. E eles tivessem realizado tal desejo de maneira macabra. É como se tivéssemos tudo e ao mesmo tempo nada.

    Longe de mim tentar encontrar uma solução para todos os nossos problemas, sou apenas mais um brasileiro, não sou economista, sociólogo, ou político. Sou apenas mais um que visitou o “paraíso” europeu e resolveu fazer uma comparação sincera.

    Compartilho a minha raiva com vocês sobre tudo o que poderíamos ter e de fato não o temos. Eu citei apenas um exemplo básico da condição da dignidade da pessoa humana. Mas sabemos, ou deveríamos saber sobre outros, como os do artigo quinto da nossa constituição; todavia volto a lembrar que sou apenas mais um brasileiro, não um jurista.

    Se você me leu até aqui, e costuma ler meus textos, sabe que vou trazer um pensamento não óbvio.

    Tenho assistido a um reality show muito doido, e em certa medida até muito pesado; me sinto até mal por ver algo que é até mesmo cruel. Chama-se “Se sobreviver, case”. A premissa do show é colocar quatro casais na mata, para eles sobreviverem com os próprios esforços, e após um período de 20 dias, poderem decidir se de fato irão se casar ou não.

    Vinte dias numa floresta. Ah, e todos estão pelados. Eles estão passando frio e fome; banham no rio e ainda precisam produzir o próprio fogo, consequentemente ficam respirando a fumaça da fogueira. Você até se sente mal por se entreter com o sofrimento de outro ser humano, mas o reality te prende.

    O programa nos conduz para o drama. Chama a nossa atenção, nos prende do início ao fim, tem uma história, uma lógica, uma jornada do herói. Enquanto os participantes estão na pior, nós assistimos isso sentados no conforto do nosso sofá. Embrulhados em nossos cobertores. Alimentados. Com luz. Internet. Amor.

    Você já ouviu falar que nós nos acostumamos muito rápido com aquilo que é bom? Você se acostuma num instante em ir de carro pro trabalho e deixar o ônibus lotado. Se você tem um transporte privado, nem deve mais se lembrar como é andar de ônibus.

    O mesmo vale para a natureza brutal. Romantizamos a nossa integração com a natureza achando que poderíamos viver como se a natureza fosse um jardim do Éden. Sem as tecnologias humanas que demoraram milhares de anos para serem desenvolvidas, nós não sobreviveríamos.

    A natureza simplesmente não conhece a dignidade da pessoa humana. Este é um conceito por nós, seres humanos, para nós seres humanos. E para esse conceito não ser apenas uma ideia vaga e abstrata que é levada pelo vento, necessitamos lutar por ele, para ele sair do campo das ideias e ser praticado.

    Mas nós desejamos apenas a dignidade humana? Claro que não. Não basta termos um meio de transporte privado, desejamos o Porsche. Só que será que esse desejo é nosso de fato?

    A resposta talvez esteja no meio. Não precisamos de todas as tecnologias humanas. Todo o conforto humano. Mas nos acostumamos. Eu mesmo já quase não uso o Google, utilizando IA para resolver quase todos os meus problemas tecnológicos. E que bom, me sobra mais tempo, mas mais tempo para quê? Para desejar mais desejos que não são meus?

    Por isso o nosso Brasil é de fato um paraíso. Aqui existe tudo aquilo que precisamos, embora não tenhamos tudo o que desejamos.

    No final do dia, quando fechamos os nossos olhos, será que vamos lembrar do conforto ou dos desafios que enfrentamos e superamos? Tenho certeza que os participantes do reality se transformaram e jamais serão o que eram antes.

    O que aquece nosso coração no final do dia, são as pessoas que amamos. Por isso lugar no mundo melhor não há, e nunca devemos nos esquecer de que o melhor do Brasil é o brasileiro.

  • #0015 Você sabe o que é um atravessador?

    #0015 Você sabe o que é um atravessador?

    Você sabe o que é um atravessador?

    Nossa espécie não valoriza a produção, mas sim os atravessadores. Neste texto vamos descobrir o que são atravessadores, como eles impactam nossas vidas, e como podemos nos proteger deles.

    O atravessador é aquela figura que não criou o produto. Mas consegue construir uma marca por meio dele. Por exemplo, a Apple, neste sentido é uma. A empresa não tem patentes de criação de telefone, computador, ou Smartphone. Mas ela atravessou seus concorrentes, agregando valor, no sentido de entender exatamente o melhor para o cliente final, e construindo a inovação num produto que não era de fato novo.

    Produzir celulares e computadores, muitas fábricas genéricas produzem. Mas são poucas que de fato atravessam e são desejadas pelo público em geral.

    Extrapolo minha interpretação para o trabalho. No mundo de produção em massa, todos os trabalhos são apenas produções genéricas de algo. Poucos atravessam nossas almas e imprimem um significado em nossas vidas.

    Todavia, ainda trazem algum significado. Trazem ao menos o pão nosso de cada dia. A produção em massa, em algum grau, é necessária para a sobrevivência de nossa espécie.

    Só que com a chegada da 4º revolução industrial é como se o problema da produção tivesse sido resolvido. Não é essa a promessa? Automatização e robôs produzindo tudo o que precisamos? Sendo assim, qual o sendo de produzir algo genérico se as máquinas fazem mais rápido, melhor e de maneira mais confiável que nós?

    Não existe produção artesanal de carros.

    A geração Z já enfrenta isso, mesmo que de maneira inconsciente, desprezando o trabalho, sem os sonhos capitalistas de ascensão social. Estariam eles já se preparando para um futuro em que o trabalho humano não será mais necessário? De toda a forma, só a arte pode resistir a massificação da alma humana.

  • #0013 Por que eu sou alcoolista?

    #0013 Por que eu sou alcoolista?

    Quando eu digo que sou alcoolista causa até estranheza nas pessoas: você não é, você não está na sarjeta, você não perdeu seu emprego, sua esposa, sua casa; então você não é.

    Certamente, meu pai também é uma pessoa com transtorno por uso de álcool. E antes mesmo da minha existência, ele esteve a um gole de perder a vida por causa dessa droga.

    Felizmente, ele conseguiu sair de uma situação de ausência de controle para uma vida na sobriedade. Com a ajuda do AA (Alcoólicos Anônimos) ele conseguiu ficar 19 anos sem ingerir uma gota de álcool.

    Parte da minha infância foi acompanhando meu pai nas reuniões. E algo que nunca saiu da minha mente, foi o letreiro que tem em qualquer sala do AA: “Evite o primeiro gole”.

    Por quê? Pois os alcoólicos não conseguem parar. Quando começam a festejar, não há fim, são os inimigos do fim. Parando de beber apenas quando o corpo não suporta mais.

    Além disso, me lembro claramente do início das histórias. Todos começavam nos fins de semana, “sextando”. Depois já era sexta e sábado. Até que não sobre mais o domingo, e já são 3 dias de bebedeiras seguidas.

    Vem então as faltas. Começam a faltar no trabalho na segunda. Os companheiros(a) começam a não aguentar aquela rotina. Há os atritos. Eles então dizem que vão parar. Param. Mas então depois voltam, com mais sede, com mais força.

    Já não é mais só de sexta a segunda. Pouco a pouco se torna algo diário. Alguns conseguem manter os empregos, outros não. Perdem a renda, a família, a si mesmo. Como você pode fazer algo por si, se você não consegue resistir a droga? É como se você começasse a não mais reconhecer quem é você sem a droga.

    Vem a rua.

    O alcoolismo é uma doença que não tem cura. Não são todas as pessoas que seguem este caminho, e não são todos os que não têm o controle. Certamente você conhece alguém que bebe duas latinhas e para. Mas você conhece muitos outros que não tem fim, talvez a maioria das pessoas que você convive.

    O alcoolismo também é uma doença com causas genéticas, afetam algumas pessoas outras não, e uma vez afetado é como uma bola de neve, só aumenta. Existe um teste com 12 perguntas, procure no Google, ele nos ajuda a identificar se temos uma relação “normal” com a droga. Como você deve imaginar, a minha não é.

    Tomar essa decisão, não é fácil. Admitir o meu problema não é fácil. Ainda mais porque as pessoas não entendem, até acham um absurdo eu dizer que não quero beber nunca mais na minha vida.

    Elas acham que se você não bebe todos os dias ou não se perdeu ainda na sargeta, você é “normal”, mesmo que isso te custe seus sonhos, seus projetos, e uma parte da sua vida. E fazer diferente é um absurdo.

    Talvez mesmo seja um absurdo encarar a vida sem nenhuma droga.

    Mas é necessário, nós precisamos encarar a dor. E para algumas pessoas não é uma opção um gole, uma latinha. Pelo menos comigo não. Uma latinha significa eu beber até meu corpo não aguentar e eu perder a minha consciência. E não quero isso para a minha vida.

    O alcoolismo apesar de não ter cura, tem o tratamento, que é não beber. E dependendo do seu grau, você só consegue isso com ajuda. Comigo, felizmente, ainda estou conseguindo me manter sóbrio com ajuda de terapia.

    Te pergunto: ser livre é beber, sem controle do corpo, da existência, fazendo mal para si, para outros?

    Se ser livre é isso, eu prefiro a prisão que é o oposto.

    Te convido a refletir sobre sua situação com a droga, ela é mesmo necessária para a sua vida?

  • #0012 Você realmente precisa ler?

    #0012 Você realmente precisa ler?

    Você já se perguntou por que consegue passar horas no TikTok sem piscar, mas não consegue ler nem 10 páginas de um livro sem se sentir entediado?

    Eu sei que você deve achar que o problema é com você, que ler é fácil. Alguns gurus até pregam que bastam algumas páginas por dia e tudo vai ficar bem e pronto, você já se tornou um exímio intelectual. Mas na prática você não consegue, simplesmente não consegue. Sabe o que é mais chocante? A culpa não é sua. Nosso cérebro não foi programado para ler.

    Você até tenta, isso funciona algumas vezes, você lê alguns livros. Melhora o seu ego, e então fica meses sem pegar num livro. E quando volta a ter consciência de si, está novamente passando horas e mais horas nas redes sociais. Eu sei, eu também sou assim.

    Não conseguimos sair da rotina: trabalho, TikTok, trabalho, TikTok. Você olha para sua estante, até quer pegar algum livro lindo, mas já está tão empoeirado.

    E você pensa consigo, mas nem ousa falar com os outros: para quê eu vou ler, se basta eu perguntar para o chat-GPT e ele me trará as respostas para os resumos. Eu sei porque me faço esse questionamento todos os dias, será que a tecnologia já chegou ao ponto que não precisamos mais nos esforçar para nos tornarmos pessoas melhores? Já existem pílulas que têm o mesmo efeito de atividade física, e não precisamos passar horas e horas na academia. Por que com a leitura não seria assim? Estamos na era GPT.

    Você pouco a pouco vai ganhando a confiança da máquina, ela sempre acerta as resposta, não é mesmo? Aquela lei que você deveria ler? Joga no chat e pede para ele fazer o resumo. Aquele áudio grande? Peça pra ela transcrever e pegue o resumo. E assim você vai levando a vida.

    Ler textos integrais e livros, parece ser coisa tão arcaica, tão velho testamento?

    É meus amigos, concordo em partes com você, a leitura não é algo fácil, não é algo trivial.

    Nos períodos iniciais de nossa formação, quando o nosso cérebro é o mais plástico possível, ainda assim, demoramos cerca de três a quatro anos para conseguirmos sermos alfabetizados.

    E apesar da língua ser algo que se confunda com o próprio ato de ser humano. Escrever e ler não. A escrita é uma tecnologia recente, data de pouco mais de 5 mil anos. E a escrita de forma democrática como conhecemos hoje, só após as primeiras revoluções industriais.

    Então é como se nós não tivéssemos tido tempo de nos adaptar para essa atividade ser algo fácil, e simples. Não é como as redes sociais que nos exige uma capacidade mínima e uma postura completamente passiva. Ler exige atitude.

    Exige o trabalho de diversas áreas do nosso cérebro. Nos exige concentração. Nos exige algo raro nos tempos atuais: concentrar no tempo presente.

    Não é fácil, mas é algo que te recarrega e te dá forças para enfrentar o seu dia a dia. Então, meus amigos, não é como se você tivesse uma escolha, se você quiser ter uma vida saudável, você precisa de uma vida de leitura.

    Existem algumas mudanças em sua rotina que podem contribuir para você construir uma rotina de estudos. Primeiro você precisa saber que é algo que vai demandar energia e seu cérebro vai querer te sabotar, então você necessita decidir que é isso que você quer, seja honesto. Nem todos serão estudiosos, e tudo bem.

    Passo 1: Crie uma zona livre de celular que tenha o seu livro à mostra. Precisa ser fácil, é como se você começasse eliminando todas as desculpas que naturalmente você teria para não fazer.

    Passo 2: Comece devagar, livros pequenos, contemporâneos com linguagem simplificada. Nós não não ousamos pensar que sairemos do sedentarismo para correr uma maratona em uma semana. Com nosso cérebro, é do mesmo modo. O estudo junto com a leitura criará novas conexões físicas no seu cérebro, é como se seu cérebro começasse a ficar bombado, mas é preciso ter paciência e constância. Cinco minutos que sejam já bastam.

    Passo 3: Leia assuntos ou gêneros literários que você já goste. Mas qualquer coisa, Aranha? Qualquer coisa. Neste primeiro momento estamos pensando na construção de um hábito, então é importante que seja muito fácil.

    Passo 4: Você já leu alguns livros e conseguiu manter uma rotina de leitura, então aqui nós separamos as mangas verdes das maduras. Você precisa começar a se desafiar. Pegar um português do século XIX, ou um livro mais denso. Talvez entrar na filosofia? O céu é o limite. O único objetivo é sair da zona de conforto. Com o tempo você melhorará seu vocabulário e cada leitura se tornará mais fácil.

    Passo 5: Escreva sobre o que você leu. Não há nada mais frustrante que terminar uma leitura deliciosa e se esquecer até do título daquele livro. Não precisa publicar, mas se quiser eu adoraria ler suas impressões sobre leitura. De toda a forma, quando reorganizamos e cocriamos conhecimento, de fato absorvemos.

    Lembre-se: você está no comando do seu cérebro. E por mais que hoje seja gostoso ficar nas redes sociais, seu cérebro precisa de desafios, da criação de novas conexões, isso previne até mesmo doenças. Mas cada dia é uma escolha e um desafio, por mais que seja doloroso valerá a pena.

  • #0011 O amor proibido dos Antigos Mineiros

    #0011 O amor proibido dos Antigos Mineiros

    Imagine por um momento que você é um minerador de sal há mais de sete mil anos, com mãos calejadas e um futuro determinado. Então você conhece ela, filha de um comerciante de terras distantes, e se apaixona.

    Conta essa lenda que esse amor era impossível. Ele só poderia se tornar um minerador de sal, e ela casar-se com algum comerciante e continuar a linhagem de seu povo.

    Não existia a possibilidade de uma integração; era quase que um pensamento impossível.

    Só existindo um caminho possível: a morte dela e da criança. Claro, eles não seguraram os seus desejos carnais, e ela carregava em seu ventre o fruto de um amor impossível.

    Mas existe algo mais impossível que o amor?

    Essa história, meus amigos, era antes mesmo de Abraão tentar matar o Isaac. Nenhuma dessas histórias havia sido criada quando esses dois jovens imprudentes se apaixonaram.

    Mas então eles sorriem para o destino, se escondem na mina e dão origem a mais uma família.

    E isso que você leu, não passa de vozes da minha cabeça. Mas de fato, existe a mina de sal, onde encontraram uma picareta de chifre de viado, que data de 7 mil anos.

    Além disso, Johann Georg Ramsauer, que era um arqueólogo amador, descobriu 19497 objetos e 980 sepulturas. Tendo sido muito importante para a recuperação da história da mina, que ainda hoje se encontra em atividade.

    Estamos entrando na era da informação falsa, mas o conhecimento continua sendo verdadeiro. E cabe a nós encontrarmos as autoridades em que vamos confiar.

    Mas obviamente não devemos confiar cegamente, nem mesmo eu estou isento, meus amigos. Qualquer um de nós pode passar adiante informações falsas que corroboram com uma narrativa não verdadeira.

    E apesar disso, eu mantenho a esperança que cada vez mais vamos conseguir conectar os fatos, e inferir as narrativas corretas. Dado a quantidade de pessoas que existiram na Terra, o que eu conto que contei não é absurdo.

    Da mesma forma, como não é absurdo uma mina de sal, elemento fundamental para a vida humana, existir há mais de 7 mil anos.

    Se você leu aproveita para ler também a crônica de ontem, um pouco mais sobre essa história de mais de 7 mil anos.

  • #0010 Os Segredos da Mina de sal de Hallstatt de 7 mil anos

    #0010 Os Segredos da Mina de sal de Hallstatt de 7 mil anos

    Já parou para pensar que nós somos os seres humanos mais velhos da história da humanidade na Terra? E que sim, nós somos mais sábios, e temos muito mais conhecimento que nossos ancestrais.

    Um exemplo perfeito disso é a mala de rodinhas. Já existia a mala, e as rodinhas. Mas as pessoas caminhavam pelos aeroportos e rodoviárias carregando suas malas. Bernard D. Sadow em 1970, ao observar um funcionário de aeroporto usando um carrinho, teve a ideia de adicionar rodas a mala. Hoje você colhe os benefícios, mas mais que isso, se as rodinhas nas malas desaparececem você conseguiria reconstruir. É como se você tivesse desbloqueado a sua visão.

    Para resolver um problema se gasta muita energia, e o resolutor fica anos e anos. Mas depois que aquele conhecimento é resolvido, fica fácil, qualquer ser mediano consegue aprender e entender todos os detalhes. Hoje você não precisa ser um gênio para entender a teoria da relatividade de Einstein, é inclusive conteúdo do Ensino Médio.

    Por isso nós somos os seres mais velhos da Terra. Quando cheguei a essa mina de sal da Áustria em Hallstatt, uma das cidades mais bonitas que já visitei, me espantei com o título: “A mina de sal mais antiga do mundo em atividade”.

    Você se sente especial, afinal, está visitando algo que é o mais, de alguma coisa. Legal.

    Lá dentro você faz um passeio incrível, entra dentro da mina, conhece a formação da pedra, que data de mais de 240 milhões de anos. Você vê passar diante de seus olhos as histórias.

    Então, quando nós entramos em contato com uma história tão antiga, nós, de alguma forma, estamos aprendendo com eles, mas não apenas com eles, com todos que viveram e chegaram até nós.

    E a cada trabalho de um arqueólogo, historiador, geógrafo, que decifram o nosso passado, e nos ajudam a dar sentido à nossa própria existência, nós nos tornamos mais velhos e mais sábios.

    Cada nova descoberta científica nos possibilita um conhecimento maior que a geração anterior. Os nossos ancestrais de 1500 não tinham conhecimento que lá existia uma mina de 7 mil anos, pois ela foi perdida e encontrada.

    Eu sei que você vai dizer que estamos mais burros, que por mais que produzamos mais informação a cada segundo, nós não estamos vivendo-as, não estamos absorvendo, não estamos aplicando.

    E sei que isso tem uma parte de verdade. Mas é isso, apenas parte da verdade. Uma outra parte absorve, aprende, e se torna mais. Se não fosse assim, a tecnologia desenvolvida para que você lesse esse texto não existiria.

    A própria palavra é uma tecnologia.

    E cada geração humana absorve e supera as gerações anteriores. E para isso acontecer não é preciso que todos os seres humanos da nova geração superem a anterior. Não.

    Basta que alguns façam isso.

    A nossa vida é uma oportunidade única de conseguirmos acessar e contribuir com o desenvolvimento do conhecimento humano. E para isso não precisamos ser gênios. Precisamos aplicar e viver de escolhendo a nossa vida.