Autor: Gustavo Aranha

  • #0031 Uma breve história da vida que você escolhe

    #0031 Uma breve história da vida que você escolhe

    Você se lembra da primeira vez que tomou uma decisão? Eu tinha por volta de 5 anos e tinha acabado de entrar no karatê, decidi que não queria mais voltar lá. Os alongamentos eram demasiadamente dolorosos, não queria aquilo para mim. Decidi isso no auge dos meus 5 anos.

    Não me recordo de ter desejado fazer esse esporte. Imagino que talvez fosse algo normal, os filhos aprendem a lutar enquanto as meninas bailavam. Felizmente para mim, a minha decisão aos 5 anos foi respeitada. E assim, não me tornei o garoto do karatê.
    PS. a consequência é que até hoje eu também não consigo fazer um bom alongamento.

    A decisão foi fácil, não queria sentir dor. Simples não é? E nesta época eu não tinha ainda uma consciência do eu. Até hoje não tenho ainda essa consciência, não há um dia que eu não me surpreenda com esse conceito.

    Essa falta de clareza faz com que seja difícil dizer não, tantas vezes quanto são necessárias. Nós deveríamos ter uma consciência melhor de nossos desejos e objetivos. Entender que realização de desejos não traz satisfação ou felicidade.

    Mas não. É como se, ao tomarmos consciência de nossa consciência (pois aos 5 anos a minha consciência era limitada como a qualquer criança), nós também recebêssemos a revelação de tudo aquilo que esperam da gente. E por nossa fragilidade, começamos a percorrer caminhos da expectativa para satisfazer o desejo daqueles que amamos.

    O preço é que cada pessoa cria um mini mundo em sua cabeça, então a satisfação decorrente de viver neste mini mundo é diferente para cada pessoa. E ao satisfazer a expectativa de outro alguém, por mais que amemos este alguém, nós nos ressentimos.

    Satisfazer o outro significa não satisfazer os nossos próprios desejos, afinal, é impossível existir duas pessoas iguais, ou seja, dois desejos iguais. E para não encararmos a dor de não nos frustrarmos, a gente ou quem amamos, caímos na ilusão de acreditar que podemos fazer os dois, quando na verdade não podemos. Fazer um significa não fazer o outro.

    Há vezes em que esses dois eus são tão parecidos que nos enganamos e até chamamos esses momentos de felicidade. Mas há vezes que eles são tão distantes que para nos encararmos no espelho precisamos de quilos de remédio.

    São tantas as vozes que com o tempo vamos deixando de saber quais daquelas vozes são realmente nossas. Com o tempo nos tornamos tão apáticos à vida que não temos mais ilusão de felicidade fora dos vícios. Não nos conhecemos e nem sabemos mais aquilo que gostamos. Porque a única realização que conhecemos é a concretização do desejo daquilo que esperam da gente.

    Mas não encaramos esse fato, não. Nós mentimos para nós. Dizemos assim: tenho tempo ainda de descobrir, sou novo. Tenho toda uma vida pela frente.

    Temos realmente tempo. Tempo este que nos ilude, nos faz acreditar que somos ou seremos eternos. Jovens, podemos escolher qualquer curso, não me interprete mal, você ainda pode fazer qualquer faculdade, mas nenhuma delas será como a primeira que você fez com seus vinte e poucos anos.

    E nós ignoramos que escolher é definir tudo aquilo que iremos desfrutar no sentido do ser. Precisamos nos libertar da ilusão de que podemos ser tudo. Pois para sermos algo primeiro precisamos deixar de ser a infinitude de outros algos que poderíamos ser.

    Este é o processo de se tornar adulto. Ser responsável pelo que você é. Não adianta chorar. Não adianta culpar o outro. Não adianta nada. O seu sofrimento, só você o sente.

    Você pode continuar ignorando isso, mas cada vez que adia escolher, algum outro escolhe por você. E você e as pessoas que são próximas a você, sim, aquelas que te amam, sofrem por sua ausência de escolha.

    Vale o lembrete: você não tem todo o tempo do mundo. Mesmo que você seja herdeiro e não trabalhe; mesmo que seu trabalho seja fácil; mesmo que você seja explorado ao extremo; mesmo que qualquer coisa, você não tem todo o tempo do mundo.

    E todo o tempo que temos é finito diante do infinito de possibilidades que é existir neste mundo cheio de matéria.

    Portanto, aprender a ser finito é aprender a ser livre de fato.

  • #0030 Será que uma vida vale mais que uma outra vida?

    #0030 Será que uma vida vale mais que uma outra vida?

    Nós costumamos pensar que se uma pessoa é careta, tem uma vidinha de merda, é CLT, como dizem os novos gurus do empreendedorismo e da riqueza, que ela é infeliz.

    Olhamos para uma mulher que tem uma vida dedicada a uma religião, cuidando da casa e dos filhos e pensamos: nossa que pobre mulher, ela é tão infeliz.

    Admiramos os grandes empreendedores que se tornaram ricos, fizeram algo diferente, tem uma vida cheia de glórias que desejamos internamente aquela realização.

    Mas olhar isso é olhar para a superfície. Ninguém é 100% feliz ou 100% triste. Nós temos variações de emoções e se não estamos vivendo um quadro depressivo, costumamos sorrir e ter momentos de alegrias, mesmo que tais momentos sejam breves.

    Essa é uma vida normal, uma vida normal. E uma vida de pessoas que não conseguem nem mesmo ter a escolha para dizer que vivem uma vida normal? Pensamos naquelas pessoas que estão em situação de rua, ou em situação de vício, ou em sofrimento. Para fins deste texto, não me interessa a razão que levou ao quadro.

    Nem tão pouco se existe solução. Me interessa pensar, será que uma vida assim é menos valiosa que uma vida dita normal?

    Será que alguém que está tão imerso num vício que perde o prazer em olhar para o céu e ver a beleza da vida, será que este alguém é menos valioso que alguém normal?
    Será que o normal seria a pessoa que não consegue ver a beleza e os doentes aqueles que veem a beleza e dizem que tem uma vida normal?

    Do ponto de vista da humanidade, que só quer sobreviver e não se interessa pela vida individual de seus membros. Não faz diferença todas essas existências, desde que ambas consigam passar os seus genes e procriar a existência da espécie.

    Se alguém teve uma vida plena e perfeita do ponto de vista romântico do qual criamos esses conceitos, e alguém que viveu em sua miséria humana e não conseguiu realizar nada, esses dois seres são iguais.

    Se é assim, qual o sentido então de viver uma vida feliz? Não foi este o questionamento que todas as religiões tentaram responder? Mas talvez a resposta esteja embutida dentro da própria pergunta.

    É sempre importante lembrarmos que podemos estar a algumas horas da miséria. Do nada, pode existir uma guerra. Do nada, um terremoto. Do nada uma pandemia. Do nada podemos deixar de viver.

    E nisso vale a pena lembrar que não existe vida no futuro, a vida está aqui, dentro das palavras e dentro do momento que escrevo esse texto.

    Então, eu preciso dizer que precisamos continuar a viver, deixarmos o nosso legado, não o legado egoísta de nossa humanidade. Não como o Brás Cubas que queria deixar o emplasto para ser lembrado por nada. Legado não é isso. Legado é o amor que imprimimos dentro do DNA das pessoas que amamos.

    Faz sentido para você?

  • #0029 Superinteligência ou superenganação?

    #0029 Superinteligência ou superenganação?

    Se você me lê, provavelmente já desejou mais inteligência, quiçá uma superinteligência. Imagina poder ter gravada nos circuitos elétricos dos seus neurônios toda a inteligência da humanidade?

    Por que almejamos a superinteligência? Para conquistar mais afeto? Alcançar a felicidade? Superinteligência não garante felicidade plena. Se inteligência não se relaciona com felicidade, qual seu verdadeiro propósito? Qual o sentido de buscar a inteligência?

    Na era das inteligências artificiais, torna-se necessário rediscutir o próprio conceito de inteligência.

    Se os modelos de linguagem com os quais conversamos parecem deter todo o conhecimento que a humanidade tem até então, eles são inteligentes?

    A premissa do livro: “Flores para Algernon” é de um jovem com deficiência cognitiva que o impede de desenvolver sua inteligência no sentido convencional. Isto é, a capacidade de adquirir conhecimentos gerais e conseguir aprender habilidades necessárias para se tornar parte da força de trabalho.

    O jovem Charles, devido a seu problema, não consegue se desenvolver. Com muito esforço, ele aprendeu a ler e escrever, mantendo um vocabulário extremamente limitado. Na história, mencionam que ele tem um QI de 68, para termos um parâmetro de comparação o QI da população brasileira varia entre 83 e 87.

    É preciso também entendermos que o QI como uma unidade individual tem pouca utilidade. Atualmente, profissionais da área da saúde o utilizam para medir populações e auxiliar em diagnósticos, mas não representa uma medida isolada.

    O QI como medida populacional é um dado relevante, pois permite avaliar coletivamente as variações de inteligência em determinados grupos. A importância dessa métrica ficou evidente na década de 1970, quando as medições de QI da população ajudaram a comprovar os efeitos nocivos do chumbo presente no combustível. Análises indicam que aproximadamente 170 milhões de cidadãos estadunidenses sofreram uma redução média de 2.6 pontos no QI devido à exposição a esse combustível.

    Embora não sirva para atestar inteligência superior, os testes de QI auxiliam na identificação de questões que podem impactar o desenvolvimento populacional. Ao realizar um teste de QI, você se depara com questões sobre identificação de padrões, compreensão verbal, raciocínio lógico, memória operacional e velocidade de processamento. Mas seria a inteligência limitada apenas a essas habilidades?

    Não teria a ver também com a quantidade de tempo de estudos sobre determinado tema? Sobre construir pontes para que novas descobertas sejam feitas? Ou se conhecer? Ou a quantidade de idiomas que alguém fala? Ou a quantidade de contas que se sabe resolver? Para tudo isso você precisa se lembrar, então inteligência teria a ver com a memória? Se você esquecesse de tudo, mas ainda assim, lembrasse do idioma, você seria inteligente ou não?

    O livro discute a ideia, se alguém é tão burro (palavras do livro) a ponto de não aprender e não se lembrar que já tentou aprender, ele é humano? Em outras palavras, se alguém não é inteligente ela é humana? Nós como sociedades, de maneira preconceituosa, não só achamos que quem não é inteligente não é humano, como tendemos escolher a representação de um animal para nos referirmos a todos que não consideramos inteligentes.

    Charlie, mesmo não sendo inteligente, tem sonhos. Ele deseja ser orgulho para a sua mãe. Em busca desse objetivo, inscreve-se num experimento com drogas que prometem desenvolver sua inteligência.

    Charlie se torna o primeiro humano a experimentar a droga e consegue se tornar inteligente. Charlie é como um chat-gpt sem filtro. Ele se torna tão inteligente, tão rápido, que não consegue mais se ligar com as pessoas. É como se ele se tornasse um semi-Deus que fala uma outra linguagem que os outros seres humanos não conseguem entender.

    Ocorre outro fenômeno interessante: à medida que a inteligência de Charlie aumenta, ele começa a se tornar ateu. O livro faz essa crítica, diz que quanto mais burro alguém é, mais ela se apega a religião. Você concorda?

    Na minha percepção, ao tomar esse caminho, o livro faz algo comum no mundo contemporâneo: critica aquilo que ele faz, sem se reconhecer dentro da crítica.

    É interessante também notar como que o livro faz a associação de inteligência a felicidade, quanto mais inteligente Charlie fica, mais infeliz também se torna. Seria consequência da inteligência ou da ausência de esperança, já que não há mais magia, Deus ou algo fora de uma explicação metódica?

    Como Charlie não conseguiu aprender habilidades sociais antes de conseguir se tornar um gênio, ele se isola, e nós precisamos uns dos outros. A tristeza é individual, mas a felicidade é também coletiva.

    É um dos meus livros favoritos da vida, e sempre que penso nele, questiono-me: o que é inteligência? Especialmente nesta nova era.

    Vivo uma dicotomia com as inteligências artificiais: embora respondam precisamente às minhas perguntas usando seu banco de dados, demonstram total desconhecimento sobre assuntos óbvios durante nossas conversas. Isso é compreensível, pois carecem de raciocínio próprio – um contraste entre sua vasta base de conhecimento e a incapacidade de pensar por si mesmas.

    Nós extrapolamos isso para outros humanos especialistas: de que maneira passou num concurso? Como pode ter feito doutorado se não concorda comigo? É como se inteligência fosse também acreditar em todas as coisas que acreditamos.

    Estamos distantes do conceito de inteligência, quem dirá uma superinteligência, mas com certeza podemos afirmar que inteligência transcende o mero ato de concordar e se lembrar.

  • #0028 Você se esquece de tudo aquilo que você não se lembra

    #0028 Você se esquece de tudo aquilo que você não se lembra

    Isso fica mais evidente quando nos lembramos de nossa clássica aventura da adolescência para a vida adulta, em que precisamos encarar o temido vestibular.

    Neste período nos dedicamos, pois não é mais apenas uma prova no fim do semestre, mas uma prova que avaliará todos os conhecimentos que adquirimos durante toda a nossa jornada do ensino médio. E se eu te perguntar se você se lembra de algum de todos os conhecimentos, tenho quase certeza que você não lembrará.

    Você se lembrará caso sua profissão exija que você saiba alguma daquelas competências, ou caso você esteja estudando para algum concurso que tenha tais conteúdos no edital.

    Mas tenho certeza absoluta que você se lembra do orgulho que foi passar no vestibular, de como foi raspar a cabeça para alguns. Do destaque que é: ele passou numa universidade federal. Isso fica, o destaque, a distinção.

    E será que estudamos tudo aquilo para um futuro melhor? Para contribuir para a sociedade com novas descobertas e ciência? Ou desejávamos ser especiais, ser pessoas inteligentes que passaram numa universidade federal?

    De toda a forma, nos esquecemos. Nós esquecemos de tudo aquilo que não lembramos. Confuso? É fácil entender, se nós paramos com as revisões do conteúdo, e não necessitamos daquilo em nosso dia a dia, então, simplesmente esquecemos. E se esquecemos por aquilo não ter valor em nossas vidas, qual o sentido?

    Não, calma, é preciso sim de todos aqueles conhecimentos (amigo esse texto está quase negacionista, deixa eu ajustar isso aqui), pois por mais que não utilizemos em nosso dia a dia, nós gozamos do privilégio da descoberta de todos aqueles conhecimentos, como o simples fato de você ler isso num celular.

    Nós necessitamos de repetir esse processo, talvez da forma como é hoje não seja a melhor forma. Mas eu não tenho conhecimento, nem estudo, nem repertório para dizer algo melhor, fazer uma crítica precisa, o máximo que consigo é contribuir com a minha limitada percepção da realidade.

    De toda a forma, se você teve a casca para conseguir se destacar a ponto de passar num vestibular e concluir uma faculdade, você é apto para o trabalho. Você vai conseguir entregar as demandas, você vai saber lidar com prazo, equipe, pressão, e, o pior, estará preparado para fazer coisas sem sentido em troca de moeda.

    Mas e quando temos que consolidar os aprendizados da vida? Apesar das instituições de ensino não ensinarem, precisamos aprender a lidar com o dinheiro, pensar em aposentadoria, aprender Excel, agora a moda é Python, ou ciência de dados.

    Se não somos herdeiros, ou não temos talento para empreender, precisamos trabalhar, e isso que disse é o que o mercado exige hoje.

    Nós precisamos de alguma maneira aprender, e não mais para passar numa prova. Precisamos resolver problemas reais. Trazer dados para tomarmos melhores decisões. Isso é a vida. Não se engane, o trabalho também é vida.

    A vida é infinitamente mais profunda que uma prova, e talvez nós não queiramos saber todas as fórmulas de matemática, ou o nome de todas aquelas plantas da biologia.

    Nós também precisamos aprender a lidar com aquele colega que não faz nada e não pode ser demitido. Aquele chefe doido que não faz a gestão correta e desconta as frustrações nos colaboradores. São tantos os desafios que precisamos aprender e memorizar que isso poderia ser um livro.

    E mais uma vez, por mais imperfeitas que sejam as instituições, elas nos preparam para isso, de alguma forma conseguimos retirar energia do c* e seguir.

    Nós só de fato nos lembramos daquilo que praticamos, aquilo que acrescentamos a nossa vida e tornamos nosso.

    Aprender é também saber filtrar tudo aquilo que realmente desejamos aprender.

  • #0027 Como aceitar a finitude de nossa vida pequena

    #0027 Como aceitar a finitude de nossa vida pequena

    Você já se sentiu perdido e fazendo tudo o que pinta pela frente, sem nem conseguir parar por cinco segundos e se perguntar: eu quero isso? Como se a dor de perder qualquer oportunidade fosse o monstro do lago Ness? Neste texto abordarei como a restrição pode ser uma verdade libertadora.

    O maior presente que os estudos me deram foi a liberdade, e não a liberdade que nós conhecemos pelo mito contemporâneo de liberdade.

    A liberdade que sinto que pude gozar está relacionada à luz em poder conseguir ter elementos que me fazem poder escolher com convicção aquilo que acredito ser o melhor para a minha própria existência.

    É óbvio que poderei errar no caminho, mas todos os erros não me causam mais dor, culpa, ou arrependimento. Cada decisão foi calculada com base naquilo que meus sentidos poderiam me entregar acerca daquilo que sou eu.

    Além das escolhas, o conhecimento me deu esperança. É como se eu pudesse experimentar o apocalipse que cada geração, cada povo antes de mim, sofreu. E pude ver que o fim do mundo sempre estará próximo, e cada nova geração estará ainda mais próxima do fim de tudo. Mas o maior fim é simplesmente o nosso próprio fim. E não escapatório do nosso próprio fim.

    O que nos resta então?

    É como se cada cultura construísse a sua própria memória do fim que está próximo. Cada geração escolhe o seu próprio inferno. Isso também me libertou no sentido de que sei que todos os medos, angústias, e tantas outras emoções que experimentei durante minha breve existência, não foram inventadas por mim.

    E assim aprendi que nós não somos tão exclusivos como nós gostaríamos de ser. Saber que não sou a última coca-cola do deserto também me libertou.

    Sabe aquela ferida no seu peito? Aquele amor que não foi correspondido? Aquele dinheiro que você perdeu no tigrinho? Isso foi sofrido, literalmente, por milhões de pessoas.

    Quando analisamos que somos apenas mais um, é horrível em certa medida, eu sei, é. Mas também é libertador. Ninguém vai sentir a nossa falta, você pode contar no máximo de pessoas, os dedos de sua mão. Será que vale a pena você continuar levando a vida da maneira como você tem levado?

    Estudar todos os dias me permite olhar além dos sentidos imediatos. Me permite sentir e poder imaginar o que é viver. Mas não é como se eu pudesse viver de fato todos os momentos da minha vida. Com tantas distrações existentes, como as redes sociais. Só me resta ser vivo por breves momentos. Que tal pararmos de nos distrair e viver? Se faz sentido, considere se inscrever no canal.

  • As vezes tudo o que precisamos ser é a mudança que gostaríamos de ver no mundo

    As vezes tudo o que precisamos ser é a mudança que gostaríamos de ver no mundo

    Exposet: Quando eu comecei a me relacionar com a minha esposa ela tinha ciúmes do tempo que eu passava no escritório lendo ou escrevendo.

    Ela queria a atenção que eu destinava aos livros. Eu entendo, faz sentido, nós éramos recém-casados, então o normal era que nós ficássemos mais juntos.

    De alguma forma, eu fazia questão desses momentos em que eu passava sozinho. Era necessário. A rotina de estudos recarregava e recarrega a minha alma. Eu sou um ser humano que precisa aprender todos os dias.

    E tivemos desentendimentos sobre isso. Mas não renunciei à minha obsessão em estudar, ler e escrever. Todas as vezes em que ocorrem problemas e eu perco a minha própria rotina de ler e escrever eu me sinto não vivo a ponto de meus olhos sofrerem um eclipse solar, ficando escuros, vazios, sem vida.

    Meu coração transbordava para que ela entendesse isso! Mas existem vezes que palavras não são suficientes. E mais que palavras, ela via todos os dias o quanto aquilo me fazia bem. E ver isso todos os dias contribuiu para que ela seguisse a exata mesma rotina, e o que isso fez com nosso relacionamento?

    O nosso relacionamento fez o impossível, melhorou o que já era bom. Em nenhum de nossos sonhos imaginávamos que nossa relação fosse nos fortalecer como ela faz.

    Às vezes tudo o que precisamos ser é a mudança que gostaríamos de ver no mundo.

  • #0025 O guia para alimentar a sua alma

    #0025 O guia para alimentar a sua alma

    Você também se cansa quando fica muitas horas assistindo uma série? Nós gostamos e nos engajamos na primeira temporada. Avançamos na história e depois é como se aquilo não tivesse mais fim.

    Nós de alguma forma esperamos o fim. Tudo à nossa volta é um ciclo com fim. A vida, por si só, é um ciclo que tem um fim. Nós precisamos do fim.

    E a falta de fim me lembra do anime Naruto, que é um dos meus favoritos. Se você não conhece, te digo que a premissa é genial. Eis a premissa da história: “como você coloca o fim no ciclo do ódio causado por guerras intermináveis e sem fim?”

    O total de episódios do Naruto são 720, com aproximadamente 276 horas de episódios para você maratonar em alguns dias.

    Ele fala do poder da amizade, do amor, da esperança, de você nunca desistir dos seus sonhos e seguir em frente, mesmo que você não seja genial. Mas será que precisava de tantas horas para isso?

    Claro que não. Mas se tem audiência, tem atenção. Então vamos construindo mais arcos, puxadinhos, histórias. Quanto mais as pessoas consumirem, mais espaço há para a venda.

    Se fossem apenas as séries, animes, video-games, seria bom não é? Lembra da época que não existia nada disso? Que a vida no celular era um mato? Que o celular só servia para fazer ligações? Quando foi a última vez que você ligou para a sua mãe?

    É surreal pensar que quanto mais nos distraímos com o tempo de nossa vida, voluntariamente, mais as bigtacs como Alphabet (Google), Meta e TikTok lucram.

    Só que ao contrário de outras explorações, essa não destrói seu corpo. Ela vai no âmago da sua alma. É como se o combustível para todos aqueles vídeos fosse a sua própria vida.

    E não vou me retirar dessa, que quando rolo o feed infinito, eu também perco. Usarei essa palavra, porque é essa a sensação. Perder uma parte da sua vida. E dói-me dizer isso, pois a existência da vida é offline.

    E não se engane. Ver vídeos de militância ou conteúdo mastigado de 60 segundos não vai te fazer aprender nada. Me fala algum vídeo que você viu em 2023? Agora se eu te perguntar algum livro, curso, ou experiência, você vai lembrar.

    Tudo aquilo que distrai os nossos sentidos e ocupa o nosso corpo; é também rápido, finito, e insuficiente para nós.

    Quando lemos uma boa literatura é como se não estivéssemos falando com o nosso corpo, mas com a nossa própria alma.

    E não apenas Literatura, mas quando estudamos, seja qualquer assunto, o cansaço é diferente, é um cansaço que nos dá energia para fazer outra coisa. Quando estamos nas redes, ela nos suga e não nos deixa fazer mais nada.

    O que você tem consumido alimenta o seu corpo ou sua alma?

    *Nossa amor, muito forte quando vc fala que a vida seria o combustível pra alimentar o feed. Muito pesado isso. Porque é exatamente essa sensação. Forte.

  • #0024 O guia definitivo de como você deveria estudar

    #0024 O guia definitivo de como você deveria estudar

    Estudar não é como assistir a uma série ou rolar as redes sociais em que você vai ver algumas informações e absorver. Estudar exige trabalho. Neste guia, vou explicar como fazer desse processo, que é algo doloroso, mas que nos trará uma satisfação que somente os estudos podem trazer.

    Nós não nos preparamos para isso, não sei se já mudou algo, mas na minha época de escola não faziam isso, não nos ensinavam como nosso cérebro aprende.

    Eu mesmo durante muitos anos da minha vida estudei de maneira equivocada. Encarava o estudo como algo linear e de maneira arrogante. Sempre procurava algo novo, ou avançado, e após gastar um pouco de horas fazendo determinada coisa, já me sentia avançado o suficiente para avançar.

    Então meus estudos eram como se fosse um passeio, um lazer. Mas não, estudar exige trabalho, e muitas vezes é inclusive doloroso.

    Dói não saber.

    Trarei a pesquisa do neorocientista Stanisla Dahene para explicar como o nosso cérebro aprende.

    Segundo ele existem 4 pilares fundamental para o aprendizado:
    – Atenção;
    – Envolvimento ativo;
    – Feedback ativo;
    – Consolidação

    Atenção não é achar que você estuda quando você lava a louça. Atenção é sentar sua bunda na cadeira, abrir o material e prestar atenção, entender aquilo.

    Envolvimento ativo é você atribuir um sentido, um significado para o objeto de estudo. Uma das maneiras mais efetivas de fazer isso é construir um projeto com base nas competências usadas.

    Mas existem outras maneiras, você pode também estudar inglês para fazer uma viagem, ou passar num emprego na gringa, você precisa ter um comprometimento, uma responsabilidade e um sentido para aquilo.

    Feedback ativo é você ter um professor que vai apontar seus erros e mostrar como você deve continuar. Cuidado para não substituir um professor por uma Inteligência Artificial, elas só parecem que sabem o que estão fazendo, elas não sabem. Você precisa de um professor de verdade.

    Por fim, você precisará dormir, e, não adianta estudar e ficar acordado, a consolidação acontece de noite, quando você entra em fases específicas do seu sono, somente assim aquele objeto de estudo se transforma em massa cinzenta e começa a fazer parte da sua vida.

    E depois de todo esse processo, se você não utilizar aqueles conhecimentos, você vai se esquecer. Você precisará continuar se envolvendo com os objetivos de seu interesse. Mas se você não utilizar mais tais conhecimentos, seu cérebro vai entender que não precisa, e vai limpar aquela massa para fazer novas conexões de assuntos que você realmente precise.

    Então relaxe, você vai se esquecer de tudo que não precisar. Cuidado apenas para não fazer o contrário, e ficar se lembrando de coisas que você já deveria ter esquecido há muito tempo, se isso tiver acontecendo, acredite, você precisa de terapia.

    Estamos sempre esquecendo.

  • #0023 O guia para todo CLT

    #0023 O guia para todo CLT

    Se você é um trabalhador CLT você vai se identificar com essa história. No início é como se nós fôssemos picados por um mosquito que nos faz nos apaixonarmos por nossa empresa. É tão forte que não conseguimos separar a nossa própria vida do trabalho.

    Eu carregava todos os casos para casa, era como se todo o tempo que eu passasse em casa eu na verdade estivesse só pensando no trabalho, em como otimizar processos, resolver buchas de clientes, e o medo de ter cometido algum erro.

    E se a empresa é viva, esse processo que descrevi é constante, pois a cada novo dia, a humanidade produz quintilhões de bytes; é um número tão astronômico que nem temos dimensão. Então, todo e qualquer processo de qualquer empresa precisa ser atualizado, precisa de integração, de um pouco de tudo que podemos dar.

    E nosso tempo é inegociável. Trabalhei durante todo o período dos 20 aos 30 anos, e é um tempo que não volta. E não me leve a mal, eu não me arrependo, em certa medida, tenho orgulho da contribuição que fiz a outros seres humanos. O trabalho é necessário, nós ainda não construímos as máquinas que produziram toda a matéria que nós humanos iremos precisar.

    Então onde que entra o problema? É um mito que vamos apenas trabalhar durante aquele período em que fomos contratados, e que após sairmos apertamos um botão e desligamos tudo e esquecemos que um dia fizemos parte daquilo. Não. Muito longe disso, o trabalho faz parte da nossa vida.

    Nós também somos o nosso trabalho.

    Mas precisamos encontrar um equilíbrio, não podemos, por exemplo, deixar de dormir. Nós estamos dormindo cada vez menos. Cada vez mais temos mais doenças neurológicas, e existe sim uma correlação, e quem diz isso não sou eu, mas sim o pesquisador Mattew Walker, em sua obra “Por que dormimos?”.

    Dormir é importante para que possamos consolidar as memórias, de fato, retirarmos o excesso de informações do cérebro, e assim descansarmos. Mas, com o avanço das luzes de led, redes sociais, e smartphones, está cada vez mais difícil dormir.

    No início do século XX, ou seja, antes do advento da eletricidade, nós dormíamos em média de 9 a 10 horas de sono. Já na década de 1950, esse número caiu para 8/9 horas de sono. O número continuou reduzindo para chegar a 7/8 na década 1990, de 6.5/7.5 na década de 2010, e por fim, 6 a 7 horas.

    E o sono não é como massa muscular, que se você é magro, pode treinar e ganhar massa e tornar o corpo saudável. Não. Uma noite perdida é uma noite perdida. O sono jamais vai ser reparado da maneira como foi. É como se nós tivéssemos uma gordura que vai sendo queimada, até que nós simplesmente morremos.

    Sim, não dormir causa a morte. O sono é necessário para a nossa vida. E não dormir a quantidade de horas que o corpo necessita causa não só a morte, mas modifica seu humor, retira o prazer de você ver a vida. E o pior, faz você sentir muita vontade de comer doce.

    Infelizmente, eu sou uma pessoa que sofre com uma doença que afeta o sono, apnéia severa. Tenho uma condição em meu maxilar que impede o ar de passar quando consigo dormir e relaxar. Não sei se tenho isso desde que nasci. Mas descobri e consegui tratar muito recentemente.O que acontece quando o ar é impedido de passar eu fico sem respirar. Isso faz com que o cérebro não possa de fato relaxar. Ele precisa o tempo todo, mandar avisos para fazer micro despertares, em que o corpo acorda para respirar. Dessa forma, meu sono acaba ficando restrito às fases leves do sono, ocasionando a falta de sono profundo. Mas felizmente, a doença tem tratamento, e eu consegui com a ajuda do CPAP (Continuous Positive Airway Pressure), que é uma pressão contínua, que faz com que os músculos ao relaxarem não impeçam a passagem do ar.

    E depois desse tratamento a minha vida mudou completamente. Redescobri o prazer em manter um humor estável. Consegui finalmente me desligar das demandas de trabalho, não apertando um botão, mas conseguindo separar e entender que se eu não consigo resolver no trabalho, não vai ser em casa que vou resolver.

    E isso só foi possível quando eu consegui isolar os fatores: exercício físico regular, boa alimentação, ambiente saudável no trabalho e ainda assim, eu estava com problemas para dormir. Quando finalmente procurei ajuda e descobri meu problema, pude desfrutar do prazer que é dormir.

    Se você não dorme, de alguma forma, você já está morto. Você dorme?

  • #0022 O que é uma crônica?

    #0022 O que é uma crônica?

    Durante muito tempo da minha vida me questionei como eu, um aspirante a romancista, poderia divulgar o meu trabalho?

    E a resposta era a mais óbvia possível: escrever crônicas.

    Se você está comigo a mais tempo, espero que tenha notado que minhas narrativas na verdade são crônicas.

    Claro que não tenho tanta experiência como Clarice Lispector, por exemplo, que escreve uma crônica de um jeito que parece ser de uma alienígena de outro mundo.

    E eu concorro com ela. Se você está me lendo neste momento, você a deixou de ler. Eu sei, não é justo. Não concorro apenas com a atenção do nosso tempo, mas de todos os escritores que vieram antes de mim. Por isso que cada geração de escritor tenta inovar e fazer diferente dos anteriores.

    Raramente se eu escrevesse apenas um realismo cru, eu seria tão bom quanto o Machado de Assis. Ou se eu escrevesse algo filosófico, não chegaria nem perto da Clarice, mas como estou escrevendo para redes sociais superficiais, vazias, que te deixam insatisfeito com sua vida, eu tenho chance, pois trago uma palavra de esperança.

    E uma crônica é isso; é falar de tudo. E também falar da crônica para quando não se tem ideia. Eu falo de temas do cotidiano, mas sempre acabo falando dela, não tem como, ela tem modificado a nossa forma de viver, essa tal dessa IA. E que bom que ela existe. Imagina se eu trato apenas dos temas de Clarice e do Machado, que chance eu teria em ser lido?

    E a inteligência artificial não é um hype, na verdade ela é mais velha que sua avó. Mas isso é papo para outro texto.
    De toda a forma, caso ela tenha vindo para um bem comum ou para um apocalipse total em que vai retirar o emprego de todo mundo, ela veio para ficar.

    É, um futuro distópico que você vai pegar pensando: para quê que vou aprender uma nova habilidade se a IA sabe já isso, e muito melhor que eu?

    E sim você está certo. Precisamos lidar com o fato de que algumas habilidades serão dominadas por robôs em um nível que jamais iremos alcançar. Mas se é assim, por que continuar?

    Talvez meu texto não seja tão bom quanto o de Clarice, do Machado, e agora também do chat-GPT. O chat-GPT tem referências de todos os melhores escritores, a nata da nata. E eu, mesmo que pudesse ter uma vida dedicada à escrita, ainda assim, eu não conseguiria ler todos os inputs que ele recebeu no treinamento, é algo humanamente impossível.

    Então porque continuar se você está destinado a não ser o melhor? Porque o externo nunca esteve e nunca estará ao nosso alcance. É sabido que nós só deveríamos nos comparar com nós mesmos. Muito me interessa saber que meu texto de hoje é melhor que meu texto de um ano atrás.

    Escrever é algo que gosto, que faz sentido e me permite me conhecer melhor. Entender as nuances de minha alma. E redescobrir o que fui, como eu pensava, e como me sentia.

    Porque nós humanos, ao contrário das máquinas, nós morreremos. Nós somos vivos e toda vida tem um fim. Nós podemos nos iludir acreditando que a morte não chegará às nossas vidas. Mas morreremos. E isso nos obriga a sair de nossa zona de conforto em direção ao prolongamento de nossas existências. Por isso, vivemos em sociedade e aceitamos as implicações disso.

    A máquina não pode morrer. Então todo o discurso e tudo o que a máquina faz é esvaziado de significado. Nós precisamos fazer o que gostamos, mesmo que isso não tenha sentido, mas significado.

    Muitos especialistas em IA afirmam que as LLM chegaram ou estão muito próximas ao seu limite. Segundo eles, não há mais dados orgânicos para treinarem os modelos, como se já estivéssemos chegando ao topo da linguagem.

    Já um outro grupo, nos fazem uma nova relevação, dizem que é o fim dos tempos. Em breve veremos a Inteligência Artificial Geral (aquela que aparece no Exterminador do Futuro, lembra a Skynet?) e então tudo que seja trabalho humano e robótico, será feito por máquinas.

    Em qualquer um dos cenários precisaremos lidar com a máquina sendo melhor que a gente e isso já acontece hoje, nenhum ser humano consegue vencer um algoritmo de xadrez. Mas ainda assim, há campeonatos de xadrez de seres humanos para seres humanos.

    Se as máquinas poderem fazer tudo, nós poderemos nos dedicar a um problema que nenhuma máquina pode resolver: qual o sentido do sofrimento humano?

    Essa é uma pergunta que todos os seres humanos precisam responder em suas existências, e a ausência de resposta também é uma resposta. Mas no cenário em que as máquinas não podem fazer tudo. Aqui sim é distópico. Será que haverá espaço para seres humanos como eu e você? Se você for genial, este texto não é para você. Mas se você for normal, como eu, o que restará para nós?

    Eu não tenho respostas. Mas sei que o que restar precisará de escrita. Uma LLM funciona como em uma conversa. Não, não estou falando de engenharia de prompt, este é só um termo inteligente dos marketeiros para te vender produtos que você não precisa. Eu falo de usar sua experiência única para conduzir a LLM ao novo.

    Só você viveu a sua vida. Eu sei que essa é uma fala clichê, mas o clichê só é clichê porque é verdade também. Com sua experiência única, você pode obter respostas também únicas.

    Então eu escrevo crônicas para me lembrar de como eu sou, de como eu fui, de como eu serei. Para te lembrar que há esperança, que somente você poderá construir os significados para sua própria vida. E para te ajudar a criar uma relação melhor com a máquina e outros seres humanos.